19 de fevereiro de 2026
Os desfiles do Grupo Especial do Carnaval de 2026, no Rio de Janeiro e em São Paulo, foram marcados por enredos centrados na ancestralidade, na resistência e na identidade. Predominaram narrativas que destacaram o protagonismo negro, indígena e feminino, além da valorização das matrizes afro-brasileiras e dos povos originários.
Mais do que organizar esteticamente o desfile, o enredo transforma o carnaval em uma poderosa ferramenta de narrativa histórica. Ao longo do tempo, as escolas de samba têm levado para a avenida personagens e episódios ausentes da história oficial, afirmando outras perspectivas sobre o passado e o presente do país. Assim, o enredo cumpre um papel cultural e político ao produzir memória, tensionar versões hegemônicas e ampliar o debate sobre identidade e representatividade no Brasil.
Confira a seguir os enredos das primeiras e segundas colocadas nos Carnavais de São Paulo e do Rio de Janeiro.
Mocidade Alegre: “Malunga Léa – Rapsódia de uma Deusa Negra”
A Mocidade Alegre conquistou seu 13º título no Carnaval de São Paulo em 2026 com o enredo “Malunga Léa – Rapsódia de uma Deusa Negra”, uma homenagem à trajetória da atriz Léa Garcia, que morreu em agosto de 2023, aos 90 anos.
O desfile celebrou seu pioneirismo, destacando sua formação no Teatro Experimental do Negro e papéis marcantes no teatro, no cinema e na televisão, como em Orfeu Negro e na novela Escrava Isaura. A escola ressaltou a rede de artistas que cercava Léa desde a juventude, como Mercedes Baptista, Abigail Moura, Emanoel Araujo e Abdias Nascimento.
Ao transformar sua trajetória em rapsódia, a Mocidade exaltou a força e a sensibilidade de Léa diante das barreiras que enfrentou, evidenciando sua grandeza artística e seu papel transformador na cultura brasileira, um reconhecimento à altura de uma artista que nem sempre teve, em vida, a projeção merecida.
Gaviões da Fiel: “Vozes Ancestrais para um Novo Amanhã”
A Gaviões da Fiel ganhou o vice-campeonato do Carnaval de São Paulo em 2026 com o enredo “Vozes Ancestrais para um Novo Amanhã”, que exaltou a resistência, a luta e o legado dos povos indígenas brasileiros. Inspirado na sabedoria ancestral, o samba trouxe uma mensagem política e poética: enquanto houver povos originários, haverá futuro para a natureza.
O carro abre-alas retratou a cosmologia Yanomami e a criação do mundo por Omama, enquanto outras alegorias abordaram a colonização, a luta por terras e a preservação ambiental, com efeitos que simulavam fenômenos da natureza. Em vez do verde tradicional, a agremiação apostou em uma estética azul e prateada, uma “floresta dos sonhos”. A ministra dos Povos Indígenas, Sônia Guajajara, foi um dos destaques da escola.
Unidos do Viradouro: “Pra cima, Ciça!”
A Viradouro conquistou seu quarto título no Carnaval do Rio de Janeiro em 2026 com o enredo “Pra cima, Ciça!”, uma exaltação em vida ao Mestre Ciça, de 69 anos, comandante da bateria e uma das figuras mais respeitadas da folia carioca. Ao longo dos anos, passou por agremiações como União da Ilha, Grande Rio e Unidos da Tijuca, consolidando-se como o mestre de bateria mais longevo em atividade, com quase 40 anos à frente de ritmistas.
O desfile da Viradouro celebrou cada etapa da carreira de Ciça até os títulos mais recentes na escola de Niterói. Em um dos momentos mais emblemáticos da apresentação, o homenageado surgiu com a comissão de frente, retornou ao início da pista para comandar a bateria e recriou uma cena histórica de 2007: subiu em um carro alegórico, regeu os ritmistas do alto e dividiu o destaque com a rainha Juliana Paes.
Beija-Flor de Nilópolis: “Bembé do Mercado, o novo quilombo de negros nagôs”
A Beija-Flor conquistou o vice-campeonato do Carnaval do Rio de Janeiro em 2026 com o enredo sobre o Bembé do Mercado, manifestação afro-religiosa surgida em 1889, no Recôncavo Baiano, após a abolição da escravidão. Realizado em Santo Amaro da Purificação, o Bembé se consolidou como uma das mais importantes celebrações públicas de matriz africana do país e foi reconhecido como Patrimônio Cultural do Brasil pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), em 2019.
O desfile mergulhou no universo simbólico do candomblé de rua, destacando a força ancestral e a resistência negra que marcam a celebração. A narrativa evocou orixás como Oxum e Iemanjá e ressaltou o caráter coletivo do Bembé, que reúne dezenas de terreiros para reafirmar a memória da liberdade e da identidade afro-brasileira.