6 de março de 2025
O carnaval funciona como instrumento de resistência e afirmação das identidades afro-brasileira e indígena e se consolida como um espaço de disputa simbólica. As escolhas dos enredos das escolas de samba não apenas celebram tradições, mas também enfrentam desafios históricos, resgatam memórias silenciadas e promovem o reconhecimento dessas contribuições para a identidade nacional.
A rejeição a enredos afros e indígenas reflete estruturas do racismo que negam a centralidade dessas culturas na formação do Brasil. Vale lembrar que o samba tem suas raízes nos terreiros e quilombos, sendo expressão histórica de resistência e afirmação identitária.
No Carnaval de 2025, nove escolas do Grupo Especial do Rio de Janeiro e seis de São Paulo celebraram a cultura afro e indígena. Nas avenidas, os enredos resgataram histórias de personalidades negras, mitologias dos orixás e figuras emblemáticas da luta quilombola.
Em São Paulo, as agremiações que voltarão nos desfiles das campeãs serão, na ordem de classificação: Rosas de Ouro, Acadêmicos do Tatuapé, Gaviões da Fiel, Mocidade Alegre e Camisa Verde e Branco. No Rio de Janeiro, voltam Beija-Flor, Grande Rio, Imperatriz, Viradouro, Mangueira e Portela.
Confira a seguir exemplos de enredos com temática afro-indígena das principais colocadas.
“Da casa de Ogun, Xangô me guia”
Com um refrão que ressoou na Sapucaí, a Beija-Flor de Nilópolis conquistou seu 15º título. A escola prestou uma homenagem grandiosa a Laíla, um dos maiores nomes do carnaval brasileiro, destacando sua trajetória e sua fé.
O desfile reforçou o caráter ancestral do carnaval ao incorporar elementos religiosos de matriz africana, com destaque para Xangô, Oyá e Exu, divindades fundamentais na trajetória espiritual de Laíla.
A Beija-Flor transformou a avenida em um grande terreiro, onde o canto, a dança e a devoção se uniram para celebrar aqueles que moldaram a história do carnaval e garantiram seu legado para as futuras gerações.
“É força de caboclo, vodum e orixá”
Com o enredo “Pororocas Parawaras: As águas dos meus encantos nas contas dos curimbós”, a Grande Rio mostrou como os terreiros de Tambor de Mina da Amazônia paraense desempenham um papel central na preservação e na difusão das tradições afro-indígenas no país.
O desfile celebrou a ancestralidade com referências ao culto aos Encantados e à Pajelança amazônica. Alegorias e fantasias evocaram rituais de cura, grafismos marajoaras e a força das Princesas Encantadas.
“Nas aldeias de marfim, os sagrados rituais”
Pela primeira vez, a Gaviões da Fiel levou para o Anhembi um enredo afro. O “Irin Ajó Emi Ojisé – A Viagem do Espírito Mensageiro” contou a história de uma peregrinação de Orunmilá pelo continente africano com o objetivo de propagar os saberes ao seu povo.
O desfile apresentou sua jornada entre o ayê (mundo material) e o orun (mundo espiritual), onde ele assume diferentes formas de máscaras para transmitir conhecimentos e guiar sua comunidade.
Na justificativa do enredo, a agremiação afirmou: “Os desfiles de escolas de samba são uma das raras expressões artísticas que se orgulham de fugir do eurocentrismo e do imperialismo cultural”.
“Macumba trazida no peito”
A Mocidade Alegre retornou ao Anhembi com um enredo que exalta a mandinga e os símbolos de proteção da cultura afro-brasileira. “Quem não pode com mandinga não carrega patuá” celebrou os elementos de fé do país.
Com foco na resistência da diáspora negra diante da intolerância, o desfile resgatou a história dos patuás e objetos religiosos, desde a “bolsa de mandinga” trazida por africanos islamizados no período colonial até o sincretismo religioso.
Na Avenida, a fé se transformou em orgulho, proteção e luta contra o racismo.
Os artigos de autoria dos colunistas não representam necessariamente a opinião do IREE.
Juliana Pithon
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