Carlos Nobre: Futuro do planeta depende da restauração das florestas – IREE

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Carlos Nobre: Futuro do planeta depende da restauração das florestas

1 de outubro de 2024

Em entrevista ao Podcast Reconversa do dia 1º de outubro, o cientista Carlos Nobre alertou para as consequências do aquecimento global, fenômeno que tem avançado a uma velocidade maior que a prevista, apresentou caminhos para enfrentar o  e defendeu a liderança do Brasil nesse movimento.

Nobre é um dos maiores especialistas em clima do mundo e o primeiro brasileiro a fazer parte do grupo Planetary Guardians. É doutor em meteorologia pelo Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), cientista sênior no Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo (USP) e autor de mais de 130 publicações acadêmicas.

Sua carreira científica tem sido dedicada à Amazônia, com o desenvolvimento de pesquisas pioneiras sobre os impactos climáticos do desmatamento do bioma e também propostas de enfrentamento ao problema, como o “Arco da Restauração”, um projeto para replantar a floresta amazônica em uma área de mais de 1 milhão de km², apresentada por ele na 27ª Conferência sobre Mudanças Climáticas da ONU (COP27), no Egito, e levado pelo Brasil à COP28 em Dubai.

“Estudos mostraram que a gente precisaria restaurar mais ou menos seis a sete milhões de quilômetros quadrados de floresta em todo o planeta. Parece muito, mas não é. Fazendo isso, a gente removeria 5 a 6 bilhões de toneladas de gás carbônico por ano. Se a gente estivesse fazendo isso, de 2050 até 2100, a gente baixaria a concentração do gás carbônico, uma concentração que seria da ordem de um aquecimento de 1ºC. É possível fazer restauração? É. Estamos fazendo? Não. Esse é o ponto”, disse o climatologista.

O Reconversa é apresentado pelo jornalista Reinaldo Azevedo e pelo Presidente do IREE, Walfrido Warde. As entrevistas agora vão ar toda terça-feira, ao meio-dia, no YouTube. O vídeo completo pode ser visto aqui.

Confira a seguir os destaques do episódio!

Riscos climáticos 

Carlos Nobre alertou sobre o risco de no próximo ano a ciência concluir que o aumento da temperatura média mundial em 1,5ºC em relação aos níveis pré-industriais registrado nos últimos dois anos é permanente. A previsão dos cientistas era de que essa elevação poderia ocorrer mais à frente, entre 2033 e 2035, o que tem baseado as metas de neutralização das emissões de carbono até 2050.

“Se continuar com essa meta de reduzir [as emissões] em 43% até 2030 e zerar só em 2050, vamos chegar em 2050 talvez até com 2,5ºC [de aumento da temperatura média mundial em relação aos níveis pré-industriais], é uma explosão climática. Não podemos deixar isso acontecer. A ciência já sabia que, quando a temperatura subisse a 1,5ºC, todos os eventos climáticos extremos, ondas de calor, chuvas excessivas, secas, incêndios florestais, tudo isso aumentaria exponencialmente. Mas a ciência não previu que atingiríamos 1,5ºC agora. A maior chuva da história do Rio Grande do Sul, a maior seca da história da Amazônia. Esse é o resultado da gente já estar em 1,5ºC e mostra o risco que é se a gente passar de 1,5ºC”, afirmou o climatologista.

O impacto duradouro das emissões

Questionado sobre porque o aumento da temperatura do planeta ainda deve ocorrer mesmo com a redução das emissões dos gases de efeito estufa, o cientista explicou que o gás carbônico pode permanecer na atmosfera por até 150 anos, o que torna necessária a restauração de biomas para mitigar os efeitos da crise climática.

“Estudos mostraram que a gente precisaria restaurar mais ou menos seis a sete milhões de quilômetros quadrados de floresta em todo o planeta. Parece muito, mas não é. Fazendo isso, a gente removeria 5 a 6 bilhões de toneladas de gás carbônico por ano. Se a gente estivesse fazendo isso, até 2100, a gente baixaria a concentração do gás carbônico, uma concentração que seria da ordem de um aquecimento de 1ºC. É possível fazer restauração? É. Estamos fazendo? Não. Esse é o ponto”, disse Carlos Nobre.

COP30 e a liderança brasileira

Carlos Nobre defendeu a importância da COP30 como um momento decisivo para os países assumirem compromissos mais ambiciosos na redução de emissões, e enfatizou o papel do Brasil para liderar esse movimento.

“A COP30 vai fazer os países assumirem um compromisso de reduzir muito antes as emissões, e eu tenho falado que o Brasil tem toda a condição de ser o primeiro país a zerar as emissões, em 2040, porque zera o desmatamento e começa grandes projetos de restauração. O Brasil lançou na COP28 em Dubai, o projeto Arco da Restauração, uma iniciativa que eu levei para o BNDES, para restaurar 240 mil quilômetros quadrados da Amazônia brasileira, quase do tamanho do Estado de São Paulo, entre agora e 2050.”

O crime organizado na Amazônia

Para Carlos Nobre, o crime organizado na Amazônia tem interesses econômicos e políticos, e os esforços dos países amazônicos para zerar o desmatamento até 2030 ameaçam esses negócios ilícitos.

“O Instituto Igarapé fez um estudo interessante, que estimou em 280 bilhões de dólares o valor do crime na Amazônia, incluindo tráfico de drogas, mineração ilegal, tráfico de animais, tráfico de pessoas e grilagem de terra. Isso é mais que o PIB da maioria dos países amazônicos. Na minha opinião, o crime organizado está muito preocupado com todos os países amazônicos combatendo o desmatamento, pois vão perder esse negócio ilegal. Se os países amazônicos zerarem o desmatamento até 2030, não haverá mais aquela ferramenta que o crime sempre usou, como mercado ilegal, grilagem de terra, pecuária ilegal, garimpo e extração seletiva ilegais. ”



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