Bruno Paes Manso: Dinheiro do crime financia empresas, igrejas e a política – IREE

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Bruno Paes Manso: Dinheiro do crime financia empresas, igrejas e a política

Em entrevista ao Podcast Reconversa do dia 12 de março, o jornalista Bruno Paes Manso falou sobre religiosidade, violência, e a expansão da criminalidade via financiamento de empresas, igrejas e da política.

Formado em economia e jornalismo, é Mestre e Doutor em Ciência Política. Trabalhou em veículos como Folha de S. Paulo, Estadão e Veja. Atualmente, é pesquisador no Núcleo de Estudos da Violência da USP e professor na FAAP. É autor de diversos livros, entre eles, “A república das milícias: Dos esquadrões da morte à era Bolsonaro”, “A fé e o fuzil: Crime e religião no Brasil do século” e “A Guerra: a ascensão do PCC e o mundo do crime no Brasil”.

Paes Manso contou como, a partir da expansão de suas operações para além das fronteiras nacionais, o Primeiro Comando da Capital, o PCC, passou a investir o retorno financeiro do crime na estrutura social e econômica do país de maneira profunda e complexa.

“Esse dinheiro volta e passa a financiar empresas de ônibus, times de futebol, padarias, postos de gasolina, organizações sociais que passam a entrar na prefeitura, no transporte coletivo e nas campanhas eleitorais. Eles crescem e ganham pela brecha do sistema”, disse Paes Manso.

O Reconversa é apresentado pelo jornalista Reinaldo Azevedo e pelo Presidente do IREE, Walfrido Warde. As entrevistas vão ar toda terça-feira, ao meio-dia, no YouTube. O vídeo completo pode ser visto aqui.

Confira a seguir os destaques do episódio!

Teologia do domínio

Bruno Paes Manso falou sobre uma mudança significativa no panorama sociopolítico e religioso do Brasil a partir de 2014, destacando o papel das redes sociais e a emergência de novas interpretações teológicas que começaram a influenciar fortemente a esfera pública, reunindo o discurso religioso, o de guerra e de batalha cultural.

“As redes sociais juntam as diversas bolhas e transformam a leitura política em uma leitura de guerra, e aí os inimigos são os comunistas, são aqueles que não respeitam a Bíblia, e você passa a configurar um novo projeto político ligado ao empreendedorismo, aos valores da família, contra o internacionalismo e o marxismo cultural.”

Bolsonarismo na polícia de São Paulo

O pesquisador analisou a situação da segurança pública em São Paulo, onde tem crescido as mortes por policiais. Segundo ele, o estado vive o reflexo da entrada do bolsonarismo a partir da gestão de Tarcísio de Freitas, que nomeou como Secretário da Segurança Pública Guilherme Derrite, uma figura identificada com as práticas da Rota nos anos 1980.

“Você já cria um mal estar absurdo porque ele [Derrite], quando vai para Reserva e é eleito Deputado, ele vira capitão, mas vai mandar nos coronéis que estavam punindo ele durante a carreira inteira, porque ele era o representante daquela polícia que vinha tentando se transformar tentando trazer inteligência e racionalidade para o policiamento, respeitar o Estado de Direito, e reduzir a letalidade policial com as câmeras nas polícias.”

Financiamento de campanhas políticas pelo crime

Brunos Paes Manso chamou atenção para as implicações da infiltração do dinheiro do crime nas instituições, principalmente dentro da lógica de defesa de interesses financeiros nas campanhas eleitorais. Segundo ele, as eleições municipais deste ano serão, mais do que nunca, financiadas pelo dinheiro do crime.

“Na verdade, você tem vários financiamentos nas Câmaras Municipais. História de gente que vai se oferecer para financiar a campanha dizendo: ‘Aqui é o crime, você está falando com crime. Eu quero entrar com uma organização social, a gente vai fornecer serviço de lixo para sua prefeitura’. E assim, já tem várias prefeituras com organizações sociais identificadas, com grupos, inclusive organizações sociais ligadas à saúde, ligadas a grupos que a polícia descobriu que eram para lavar dinheiro do PCC.”



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