Bossa Nova: Anitta, Helô ou Astrud? – IREE

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Bossa Nova: Anitta, Helô ou Astrud?

Antonio Carlos Bigonha

Antonio Carlos Bigonha
Compositor, pianista e Subprocurador-Geral da República



Garota de Ipanema, canção ícone absoluta da Bossa Nova, foi composta por Antonio Carlos Jobim e Vinícius de Moraes no ano de 1962. O tema foi gravado já no ano seguinte, em Nova Iorque, nos dias 18 e 19 de março. Incluída no legendário álbum Getz/Gilberto, do saxofonista norte-americano Stan Getz e do cantor e violonista brasileiro João Gilberto, contou com a participação do próprio Tom Jobim ao piano.

Mas, como é comum acontecer em eventos que entram para a História, houve acertos de última hora que colaboraram para imortalizar as sessões realizadas no estúdio da Verve Records. E um desses acertos partiu de Astrud Gilberto, ao insistir – e convencer – João Gilberto, Tom Jobim e o próprio produtor Creed Taylor a gravarem sua participação na faixa Garota de Ipanema, cantando, ao lado do marido, a versão em inglês da letra, escrita por Norman Gimbel.

O resultado agradou tanto a Creed Taylor que a canção foi lançada em compacto (EP) antes do álbum completo, mas com um detalhe inusitado: nesta primeira versão, foi suprimido o vocal de João Gilberto em português, de modo a reduzir a duração do take a 3m55, mais compatível com o formato radiofônico.

Astrud, à época uma cantora desconhecida até mesmo no Brasil, associou definitivamente sua voz e sua imagem à Girl From Ipanema. O compacto alcançou rapidamente a cifra de 2 milhões de cópias, abrindo-lhe as portas para uma sólida e longeva carreira internacional.

Ana de Hollanda, nossa ministra da Cultura (2011/2012), em recente artigo, afirmou que desde o golpe contra a presidenta Dilma Rousseff não se via no Brasil uma indignação coletiva tão exacerbada quanto a provocada pelo novo clipe da cantora Anitta, Girl From Rio. E celebrou o fato de o trabalho, composto a partir de um sampler da Garota de Ipanema, ter possibilitado a Anitta romper a barreira da língua, cantando em inglês versos que falam do cotidiano de uma garota da periferia do Rio, inserida na diversidade urbana e cultural brasileira.

Embora os legítimos guardiães da Bossa Nova resistam em aceitar a ressignificação musical promovida por Anitta à obra de Tom e Vinícius, perfeitamente compreensível no domínio da estética, não se há de negar que a ideia de cantar uma versão em inglês para o mercado anglofônico insere a jovem cantora na mesma tradição inaugurada por Astrud Gilberto há mais de meio século.

Coube a Astrud o papel de furar a resistência previsível do público a um álbum todo cantado em língua portuguesa, considerada pelo produtor Creed Taylor um idioma exótico para os norte- americanos.

O exotismo da própria palavra Ipanema já tinha sido motivo de acalorados debates entre Tom Jobim e Norman Gimbel. Para o letrista estadunidense, a expressão, de origem indígena, era por demais distante dos anglófanos. Tom Jobim, com seu inglês ainda incipiente para travar debates filológicos, teve que argumentar muito para manter o nome do bairro carioca no título da canção.

Ipanema era identificada, por muitos, no início da década de 1960, com o que podia ser considerado o melhor do Brasil: a Bossa Nova, o projeto desenvolvimentista de JK, a construção de Brasília, o Cinema Novo e a arquitetura moderna de Oscar Niemeyer. Enfim, muito do que foi ceifado pelo Golpe Militar de 1964.

Há uma evidente questão identitária em Girl From Rio. Trata-se agora de atrair a atenção para o malogro das políticas públicas promovidas nos últimos 50 anos pelos sucessivos governos do Rio e do Brasil, incapazes de consolidar a inclusão social sob qualquer paradigma.

Assim como Tom Jobim insistia em Ipanema por simbolizar um país do futuro, Anitta invoca a periferia para falar do Rio do presente, com sua estética própria, sua alegria, suas mazelas, sua pluralidade. O Rio de Girl From Rio não se refere aos demais bairros cariocas, a Copacabana, à Tijuca ou à Barra. Esta garota do Rio, ressignificada, transborda e passeia sobre uma calçada imaginária a caminho do Piscinão de Ramos.

A história também se escreve por linhas tortas. É notável que a questão identitária estivesse presente há 56 anos na antológica sessão de gravação de Gril From Ipanema e esteja agora no âmago do debate de Girl From Rio. Helô Pinheiro, com seu doce balanço a caminho do mar, foi a musa inspiradora de Tom e Vinícius, mas foi a impertinência de Astrud durante as gravações do álbum Getz/Gilberto que abriu-lhes o caminho da imortalidade.

Anitta, de olho no estrangeiro, procura situar-se equidistante de ambas, mas repete os passos de Helô e a estratégia de Astrud quando opta por reverenciar sua aldeia no idioma inglês. Pensando bem, até que Girl From Rio tem a sua própria bossa, mas não é tão nova assim.



Os artigos de autoria dos colunistas não representam necessariamente a opinião do IREE.

Antonio Carlos Bigonha

É compositor, pianista e mestre em Música pela Universidade de Brasília. Subprocurador-Geral da República, atua na 2a. Seção do Superior Tribunal de Justiça, proferindo pareceres em Direito Privado. Foi presidente da Associação Nacional dos Procuradores da República (2007/2011) e coordenador da 6a. Câmara de Populações Indígenas e Comunidades Tradicionais da PGR (2019/2021).

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