Bolsonaro, Doria e a vacina – IREE

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Bolsonaro, Doria e a vacina

Guilherme Boulos

Guilherme Boulos
Coordenador do MTST



As recentes declarações e ações de Bolsonaro em relação à vacinação da população do Brasil representam mais um vexame internacional para o Brasil. A imagem do desastre já transparecia no combate ao vírus, cuja inépcia, desprezo pela vida e a ausência de um plano de enfrentamento fizeram com que cruzássemos a marca de 150 mil mortos. Isso pra não mencionar a insistência estapafúrdia do presidente na hidroxicloroquina, remédio preterido até por seu ídolo Donald Trump quando contraiu a doença.

Desde o início do mandato, Bolsonaro despreza a ciência dia sim, dia também. Há poucos dias chegou a criticar a “pressa por uma vacina”. Ele pode fingir desconhecer a razão da pressa, mas 20 milhões de crianças em idade escolar há meses fora da sala de aula, 10 milhões de brasileiros com mais de 60 anos e 155 mil famílias que perderam entes queridos certamente a conhecem. E aguardam ansiosamente pelo fim dessa tragédia.

O desafio é tamanho que existem, nesse instante, pelo menos 200 vacinas em desenvolvimento para a COVID-19 no mundo. Não há paralelo histórico que chegue próximo a esta corrida por um meio de prevenir uma doença que já matou mais de um milhão de pessoas no planeta. O momento exige liderança e planejamento sanitário e econômico. Tudo que o governo Bolsonaro faz questão de não ter.

O conflito das últimas semanas entre os ex-companheiros Bolsonaro e Doria sobre a compra da vacina do Instituto Butantã revela a miséria moral de um jogo político que se nutre apenas de ressentimento e projetos pessoais. É verdade que o governo federal politizou as recomendações sanitárias, o uso da cloroquina e iniciou a fantasia de uma “guerra de vacinas”, mas o governador de São Paulo também faz de modo assombroso promessas falsas e usa a ciência como palanque eleitoral para 2022. A promessa de imunização ainda em dezembro está no mesmo rol que a eterna expansão do metrô pelas gestões tucanas no estado.

Quem perde com esse jogo é a população, aflita com os números trágicos de mortos e infectados, com seus filhos cronicamente prejudicados pela ausência de aulas presenciais e, no caso das escolas públicas, com o abandono completo do ensino online. Tudo isso em um cenário de crise econômica avassaladora, índices recordes de desemprego e às vésperas do fim do auxílio emergencial.

Além da curvatura da Terra, tudo indica que teremos que defender – no século XXI – que vacinas salvam vidas. E que é a ciência e os cientistas que têm o papel de dizer o tempo necessário para que haja uma vacina disponível. Aos governantes, cabe garantir os meios necessários para seu desenvolvimento e fabricação no menor período possível e um plano integrado de vacinação em todo território nacional, com campanhas de educação em saúde e priorização dos grupos de risco.

Mais do que nunca, o Brasil precisaria de líderes que efetivamente se responsabilizem pela população, mais do que por suas carreiras eleitorais. A pandemia e a vacina não podem ser transformadas numa disputa partidária. A maior crise da nossa geração é uma questão humanitária.



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Guilherme Boulos

É professor, diretor do Instituto Democratize e coordenador do MTST e da Frente Povo Sem Medo.

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