Boletim Mensal de Política Econômica - Setembro 2021 – IREE

Análises e Editorial

Boletim Mensal de Política Econômica – Setembro 2021

Juliane Furno
Economista-Chefe do IREE



O Boletim Mensal de setembro de 2021 com todas as análises da equipe do Centro de Estudos de Economia do IREEj á está disponível!  Clique aqui para acessar!

A última edição do Boletim Semanal traz a análise sobre Crescimento Econômico, Setor externo e Câmbio.

Crescimento, câmbio e setor externo

A economia brasileira segue com comportamento oscilante e despontando uma trajetória de recuperação heterógena entre os setores e os grupos sociais. Não somente do ponto de vista doméstico, mas também no tange ao cenário internacional, as disparidades globais denotam uma posição errática do Brasil.

Tal elemento pode ser constatado pelo cenário projetado pelo FMI de crescimento mundial na ordem dos 4,9% para 2022. Isso é bastante superior às expectativas para a economia brasileira.

O Ibre/FGV prevê um crescimento de 1,6% no Brasil para 2022, em consonância com outros avaliadores para o cenário futuro. A Consultoria MCM reduziu, recentemente, sua estimativa para o PIB brasileiro de 2022 de 2,1% para apenas 1,4%. Caso se confirmem as expectativas, o crescimento da economia brasileira será deveras inferior à média mundial, mesmo o Brasil aproveitando-se do cenário de expansão global pelo seu papel relevante na exportação de commodities.

Alguns elementos concorrem para explicar a má performance da economia brasileira, nos quais subsistem elementos de caráter conjuntural e estrutural. Entre os estruturais está a estrutura produtiva brasileira, os gargalos de oferta, a baixa capacidade de investimento em inovação e a baixa produtividade dos fatores. Entre os conjunturais despontam o desemprego e subemprego elevados, as incertezas políticas, a questão aliada ao risco fiscal, a inflação, a escassez e o encarecimento de matérias-primas, a indústria e os juros elevados.

Pesquisa recente da OCDE confirma que o Brasil teve o pior crescimento entre os países do G20 no 2º trimestre de 2021. Os indicadores antecedentes da economia brasileira, portanto, são piores e ensejam maiores e mais profundos desafios do que as demais economias, incluso as periféricas. Ainda nesse estudo da OCDE, o Brasil vigora como a única grande economia que adentrou uma fase de desaceleração do crescimento. Em que pese países considerados pela OCDE como emergentes, como a China e a Rússia, estarem vigorando nas estatísticas de países com crescimento econômico acima da média, no caso da economia chinesa há um processo em curso de desaceleração do crescimento, ainda que a média permaneça elevada.

A taxa de câmbio é um elemento contraditório desse processo. Ao mesmo tempo em que a persistente desvalorização do real frente ao dólar estimula as exportações brasileiras e contribui com o PIB pelo lado das exportações e seria uma condição vantajosa para o desenvolvimento industrial, no cenário atual é, justamente, via câmbio que se dissipam os choques inflacionários, que são sobretudo de custos, uma vez que a demanda interna está bastante deprimida.

Falando em setor externo, o balanço de pagamentos do Brasil tem apresentado performance positiva em meio aos resquícios da pandemia. Contribuem para esse cenário a ainda persistente, embora em desaceleração, alta das commodities; a ainda não normalização completa das viagens de brasileiros ao exterior; a recuperação global e o câmbio desvalorizado. É bom fazer menção, no entanto, que apesar da melhoria dos fundamentos e das melhorias marginais das contas externas, como falamos acima, a taxa de câmbio segue sendo um elemento contraditório pela intensa desvalorização e elevada vulnerabilidade.

Segundo a última nota do Banco Central do Brasil sobre as estatísticas do setor externo, no mês de agosto de 2021 houve um superávit nas Transações Correntes de quase US$ 1,7 bilhões, o que reverteu a trajetória deficitária do mês de julho. Frente a agosto de 2020 o resultado também foi positivo, uma vez que na ocasião o salto foi de US$ 1 bilhão. O déficit em transações correntes nos 12 meses encerrados em agosto de 2021 somou US$19,5 bilhões (1,23% do PIB), ante US$ 20,2 bilhões (1,30% do PIB) em julho de 2021, e US$ 35,7 bilhões (2,26% do PIB) em agosto de 2020.

A balança comercial de bens também foi superavitária no mês de agosto. As exportações de bens totalizaram um montante de US$ 27,4 bilhões, apresentando um aumento de 56% em relação a agosto de 2020. As exportações, por outro lado, apresentaram um crescimento superior na comparação anual, de 72,4% demonstrando condições para a normalidade das contas externas. No entanto, ainda que crescendo proporcionalmente mais, em termos absolutos o superávit se expressa no fato de as importações terem totalizaram um valor de US$ 21,7 bilhões. Além do superávit na balança comercial total e na de bens, outro elemento determinante do comportamento superavitário das Transações Correntes foi o superávit na Renda Primária, que apresentou redução do déficit, na comparação interanual.

Por outro lado, no que tange à balança de serviços, as normalizações das atividades econômicas em nível global impõem a retomada do déficit estrutural das economias subdesenvolvidas nesse setor. As despesas líquidas de equipamentos somaram US$ 611 milhões no mês de agosto de 2021. As despesas líquidas de serviços de propriedade intelectual totalizaram um montante de gastos na ordem dos US$ 417 milhões, bastante superior aos US$ 277 apresentados na comparação interanual. Por fim, em linha com a expansão do volume de comércio, as despesas líquidas de transporte aumentaram US$ 291 milhões na comparação interanual, totalizando US$ 410 milhões em agosto de 2021.

Como já fizemos menção em outros boletins, essa situação favorável no Balanço de Pagamentos, especialmente nas Transações Correntes, têm fôlego curto. O câmbio apreciado, somado aos estímulos fiscais no bojo da recuperação das principais econômicas do mundo e da demanda por commodities ainda em alta, deverá seguir ditando um caminho de trajetória superavitária. No entanto, no próximo período, a reestruturação da normalidade na estrutura de oferta com a retomada das cadeias de suprimentos globais e com a desaceleração chinesa podem comprometer a única variável que tem sustentado o PIB brasileiro.

O Boletim de Política Econômica do IREE é produzido pela economista-chefe Juliane Furno e pelos assistentes de pesquisa Daniel Fogo e Lígia Toneto.



Por Juliane Furno