Boletim Mensal de Política Econômica - Março 2021 – IREE

Análises

Boletim Mensal de Política Econômica – Março 2021

Juliane Furno
Economista-Chefe do IREE



A última edição do Boletim Semanal de Política Econômica de março de 2021 produzido pela equipe do Centro de Estudos Econômicos do IREE traz as análises sobre Crescimento Econômico, Setor externo e Câmbio.

O Boletim Mensal de Março com todas as análises já está disponível e pode ser acessado aqui.

Leia também:

Boletim de Política Econômica Mar/21 – Políticas Fiscal e Monetária

Boletim de Política Econômica Mar/21 – Setores

Boletim de Política Econômica Mar/21 – Mercado de trabalho

Crescimento Econômico, Setor externo e câmbio

Retomada da economia e vacina: faces de uma mesma moeda

Recentemente fomos surpreendidos com uma “Carta de Economista” em tom de verdadeiro “manifesto” em favor da generalização da vacinação como forma mais eficiente, justa e barata de conter a propagação do novo noronavírus e restaurar as condições para a retomada do crescimento econômico. É nesse ponto que gostaríamos de nos somar e fazer coro aos nossos pares: não há possibilidade alguma de retorno à normalidade econômica na ausência de um processo coordenado e célere de vacinação em massa.

A dicotomia apregoada desde o início da crise sanitária entre “salvar vidas e salvar a economia” tem aspecto fundamentalmente falacioso. Em primeiro lugar porque a perda de vidas – além, e sobretudo, do aspecto subjetivo – incorre em elevados custos econômicos no que tange à contração da renda e à queda na produtividade média, uma vez que a letalidade é maior nas pessoas mais velhas, justamente aquelas que adquiriram maiores experiências profissionais. Como bem frisou Persio Arida, citando Nelson Rodrigues, “Não se improvisa uma derrota… ainda mais uma desse tamanho”.

Além disso, quanto mais lento for o processo de vacinação e quanto mais cambaleantes e descoordenadas forem as medidas de isolamento, mais as restrições legais e/ou voluntárias à livre mobilidade seguirá em curso, comprometendo – sobretudo – o setor de serviços, que amarga em situação calamitosa.

Dessa forma, quanto menos salvarmos vida, maior será o impacto econômico. A perda de tração no PIB é positivamente correlacionada com a necessidade de paralisia dos setores não essenciais, comprometendo o rendimento dos trabalhadores informais, conta própria e dos micro e pequenos empresários, que dependem – fundamentalmente – dos seus rendimentos para o capital de giro.

Segundo estimativas feitas pela IFI (Instituição Fiscal Independente), um mês de isolamento retiraria 1,0 ponto percentual do crescimento do PIB. Com isso reafirmamos que é necessário esse isolamento, no entanto, se não bem coordenado e em sintonia com a vacinação, esse 1 ponto tenderá a multiplicar-se por vários.

Não é possível apregoar o isolamento sem uma política efetiva de transferência de renda. O auxílio emergencial, nesse sentido, é condição sine qua non de garantia da sobrevivência na ausência de rendimentos do trabalho e no próprio estímulo ao crescimento, na medida em que essa alavanca fiscal, pelo efeito multiplicador, tende a exercer forte efeito positivo no PIB.

Medidas como uma campanha oficial pelo uso correto de máscaras, distanciamento social, higiene das mãos, vacinas e tantas outras, seriam mais baratas do que o gasto com superlotação de hospitais e com o próprio auxílio emergencial. Portanto, a estratégia troncha e negacionista de não coordenação de esforços e sem um plano de vacinação de médio e longo prazo custarão vidas e custará caro a economia nacional, principalmente pela necessidade de incorrer em mais endividamento público, tanto pelas políticas de transferência de renda – pelo lado dos gastos – quanto de queda na arrecadação – pelo lado das receitas.

Redução da projeção de crescimento econômico de 2021 pelo BC

O recrudescimento da pandemia levou o Banco Central a reduzir, mais uma vez, a projeção para o crescimento econômico de 2021. Há uma correlação positiva clara na experiência internacional entre países que melhor controlaram a propagação do vírus e avançaram na vacinação e taxas mais expressivas de crescimento do Produto. Enquanto as demais economias se recuperam, com atenção à própria economia estadunidense nos últimos meses, a economia vai amargar uma provável recessão técnica no primeiro semestre. A mediana das projeções do Boletim Focus de 26 de março para o primeiro trimestre é de –0,66%.

Em documento elaborado pela Secretaria de Política Econômica do Ministério da Economia, no entanto, figura de forma secundarizada a temática da vacinação e dos estímulos fiscais. Muito mais protagonismo é creditado às reformas estruturais como transformações necessárias para a retomada do crescimento econômico, nas palavras do próprio documento “O caminho para o maior crescimento econômico passa pela continuidade da agenda de reformas estruturais e políticas de consolidação fiscal.”

Ainda em conformidade com o relatório, avalia-se que a consolidação fiscal é o caminho para a manutenção de um melhor ambiente de negócios propício ao investimento, que deverá liderar a recuperação econômica. Além disso, a consolidação fiscal – segundo apregoa o documento – é a ancora da estabilidade da inflação e do risco-país minorado. Assim, conflui o documento “reformas pró-mercado vão dinamizar o crescimento de longo prazo da economia brasileira.”

O Banco central reduziu a projeção de crescimento econômico de 3,8% para 3,6%, segundo consta no Relatório Trimestral de inflação (RTI) divulgado no dia 25 de março. Duas questões merecem destaque: a primeira é o recuo de 3,8% para 2,8% de crescimento para o já cambaleante setor de serviços, e a segunda é a projeção que corrigiu para baixo o consumo do governo, passando de 3,1 para 1,2% no ano.

O Ministério da Economia sugere indicadores mais positivos para 2021, apontando o prosseguimento do movimento de recuperação da atividade econômica. No que tange à Agropecuária, a estimativa de safra (LSPA/IBGE) é da ordem dos 263,1 milhões de toneladas, o que perfaz um crescimento de 3,5% ante ao de 2020. Com isso, o Brasil bateria seu recorde anual de safra agrícola.

No entanto, em que pese a safra, o mesmo movimento que enseja o boom da agropecuária enseja a fome em território nacional. O elevado preço das commodities no mercado internacional e o real depreciado em relação ao dólar encarecem ainda mais a cesta básica. Na cidade de São Paulo o valor da cesta básica calculada pelo Dieese aumentou em 23% comparando fevereiro último com mesmo mês de 2020, enquanto a inflação acumulada no período foi de 5,46%.

O Ministério da Economia, em nota de Política Macroeconômica, ressalta os números positivos da indústria, que – a partir dos resultados apurados em janeiro – denotam a continuidade da recuperação, com alta de 0,4% ante ao mês anterior, feitos os ajustes sazonais. O destaque ficou com o setor de “Bens de Capital” com elevação de 4,5%.

Na esteira desse debate sobre as possibilidades de retomada da atividade econômica, preocupa o aviso do Banco Central de que irá seguir elevando a taxa básica de juros, à revelia das projeções baixistas para o crescimento. Além de jogar ainda mais água fria nas possibilidades de crescimento real, a alta de 0,75 pontos percentuais na taxa Selic ainda pode levar a um aumento de R$ 25 bilhões no custo da dívida pública no curto prazo.

Depreciação acentuada da taxa de câmbio

Com relação ao dólar, a depreciação da taxa de câmbio tem se acentuado nesses meses e, até o momento, a taxa de câmbio brasileira não tem dado respostas ao enfraquecimento do dólar. A moeda brasileira não está convergindo com as demais moedas dos países emergentes, visto pela evolução do “dólar index”, calculado pela Intercontinental Exchange (ICE). Nem mesmo a valorização do preço das commodities tem sido suficiente para que a entrada de moeda estrangeira freie o movimento de desvalorização do real. Espera-se que a subida dos juros equalize os diferenciais internacionais de juros e estimule o ingresso de mais divisas no Brasil.

Por fim, no que tange às contas externas, a Conta Corrente brasileira caminha para seu primeiro superávit desde o ano de 2007. O déficit na Conta Corrente – posição estrutural dos países emergentes – caiu para apenas 0,48% do PIB em fevereiro. O motivo, no entanto, não é sintomático de uma modificação estrutural da economia brasileira, senão que o atestado da nossa fragilidade.

O ajuste nas contas externas equivale a 2,5 pontos percentuais do PIB em apenas um ano, mas deve-se, sobretudo, ao fechamento do turismo internacional aos brasileiros e à forte desaceleração da economia, que foi responsável por não somente reduzir drasticamente as importações, mas também os lucros e remessas de resultados das empresas multinacional que atuam no território brasileiro.

O déficit em fevereiro, na Conta Corrente somou US$ 2, 326 bilhões. Ainda que seja negativo, o que apontamos aqui é que esse déficit é deveras distinto e menor do que o acumulado de US$ 4,662 bilhões do observado no mesmo mês em comparação com o ano de 2020.

O Boletim de Política Econômica do IREE é produzido pela economista-chefe Juliane Furno e pelos assistentes de pesquisa Daniel Fogo, Lígia Toneto e Matias Rebello Cardomingo.

Veja também:

Boletim Mensal de Política Econômica – Fevereiro de 2021

Boletim Mensal de Política Econômica – Janeiro de 2021

Boletim Mensal de Política Econômica – Dezembro de 2020

Boletim Mensal de Política Econômica – Novembro de 2020

Boletim Mensal de Política Econômica – Outubro de 2020



Por Juliane Furno