Boletim Mensal de Política Econômica - Maio 2021 – IREE

Análises e Editorial

Boletim Mensal de Política Econômica – Maio 2021

Juliane Furno
Economista-Chefe do IREE



A última edição do Boletim Semanal de Política Econômica de maio de 2021 produzido pela equipe do Centro de Estudos de Economia do IREE traz a análise sobre Crescimento Econômico, Setor externo e Câmbio.

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Crescimento, câmbio e setor externo 

No mês de maio foi divulgado o resultado referente a março do Índice de Atividade Econômica do Banco Central (IBC-Br), que é considerado como uma prévia do comportamento do PIB. Contrariando as previsões da imensa maioria dos analistas, o comportamento da economia brasileira foi muito melhor do que o esperado. Embora o indicador – para o mês de março – tenha apresentado uma queda de 1,59% na margem, em comparação com o mês anterior.

O primeiro trimestre de 2021, dessa forma, acumulou uma alta de 2,27% em relação aos três meses anteriores. Ainda assim, é bom lembrar que estávamos falando de uma base de comparação deveras deprimida, assim, o crescimento – ainda que relativamente expressivo – está muito envolto em carregamento estatístico e na variação a partir de um baixo patamar de crescimento pregresso.

Se no fim do ano de 2020 acumulávamos uma queda de 4% em relação ao padrão de crescimento pré-pandemia, com os resultados do primeiro trimestre agora estamos acumulando uma queda de 3,37%. Dessa forma, ainda precisaremos trilhar um longo caminho para restaurar as perdas da pandemia e rumar para um novo e longo ciclo de crescimento.

Importante ressaltar também que o padrão de recuperação da economia brasileira tem sido extremamente heterogêneo. A queda de 1,59% no mês e março foi marcada pela retração de 2,4% na produção industrial; 5,3% (já com ajuste sazonal) no varejo ampliado e 4% no setor de serviços. Os serviços, setor mais dependente do contato social, tem acumulado perdas persistentes e, quando desagregados os dados, percebe-se o quão desigual está sendo a recuperação. Os serviços pessoais prestados às famílias acumulam uma contração de 17,1% na comparação março de 2021 com relação a março do ano do anterior. Na comparação com o período pré crise (fevereiro de 2020) os serviços pessoais estão 44% abaixo.

Por fim, o que temos identificado desde o início da pandemia é um comportamento deveras volátil da economia brasileira. Se no período anterior – pós crise de 2015/2016 – a economia brasileira vivia um relativo marasmo, em uma situação de semi estagnação, o período marcado pela emergência da pandemia segue um padrão errático, com trimestres de alta expressiva seguidas de baixo crescimento quando não de retração. Não há fórmula desconhecida: nesse momento a imunização coletiva e feita de forma célere é o único caminho para preservar vidas e retomar a capacidade de crescimento equilibrado e sustentado.

No que tange à taxa de câmbio, estamos diante de um paradoxo: ao mesmo tempo em que avançam as exportações brasileiras e o preço internacional da sua transação, mantém-se depreciada a moeda doméstica. Pela formação da taxa de câmbio, era de se supor que o aumento das exportações, ao trazer dólares para a economia brasileira, apreciasse o real, contendo a desvalorização. Isso, no entanto, não aconteceu.

Como todo o movimento da taxa de câmbio, há determinantes locais, mas principalmente, internacionais, uma vez que os fluxos internacionais de capitais – em países com conta de capital bastante abertas – tendem a ter mais protagonismo na determinação do valor das moedas domésticas. Por isso, pode-se afirmar que a pandemia, não só no Brasil, interrompeu um padrão da economia global expresso pela tendência das moedas de países exportadores de commodities se valorizarem acompanhando a alta dos preços. Desde o início da pandemia houve um descasamento expressivo entre as divisas ligadas a essas mercadorias e o recente “boom” desses produtos.

Em que pese esse ser um fenômeno global, o Real tem se destacado negativamente como a moeda que mais se descolou das cotações das commodities. Ainda que a tendência seja de estancamento da desvalorização do real e até de redução desse descasamento em relação ao preço das matérias primas, para o ano de 2022 a perspectiva de um estudo do Itaú Unibanco é que a moeda brasileira voltará a se depreciar.

O que concorre para explicar a possível desvalorização ainda maior da moeda brasileira é, por um lado, a estabilização do ciclo de alta no preço nas commodities, que deve se normalizar com a retomada da estrutura de oferta, e os riscos envoltos na política fiscal norte americana, especialmente a possibilidade de o pacote Biden ter sido muito expansivo e já estar impactando a inflação doméstica, inclusive no preço dos serviços. Caso esse movimento se sustente e o FED precise atuar sobre os juros, a tendência é menor ingresso e mais fuga de capitais dos países periféricos, o que contribuirá para agravar a depreciação do real.

Ainda quanto à diferença entre a entrada de recursos estrangeiros e o movimento do real, alguns dados sugerem que o dólar “abre boca de jacaré” com exportação e pagamento de dívidas. Isso significa que mesmo ampliando a receita em moeda estrangeira muitas empresas anteciparam parte de suas receitas de exportação desde o ano passo e – aproveitando a taxa de câmbio desvalorizada – usaram esses dólares recebidos para quitar dívidas no exterior.

Isso é o que o se chama de “Boca de Jacaré” que se abre em função da diferença entre as importações físicas e o câmbio contratado de exportações. No ano de 2018, quando começou a abertura da boca, a diferença foi de US$ 5 bilhões. Já no ano de 2020 ela elevou-se para US$ 17 bilhões. Quando a isso, o diretor de Política Monetária do Banco Central, Bruno Serra Fernanda, avalia com otimismo que as empresas estariam findando o ciclo de pagamento de dívidas no exterior, dando ensejo a um movimento de fechamento da “Boca de Jacaré”.

O Boletim de Política Econômica do IREE é produzido pela economista-chefe Juliane Furno e pelos assistentes de pesquisa Daniel Fogo e Lígia Toneto.

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Por Juliane Furno