Boletim Mensal de Política Econômica - Julho 2021 – IREE

Análises e Editorial

Boletim Mensal de Política Econômica – Julho 2021

Juliane Furno
Economista-Chefe do IREE



A última edição do Boletim Semanal de Política Econômica de julho de 2021, produzido pela equipe do Centro de Estudos de Economia do IREE, traz a análise sobre Crescimento Econômico, Setor externo e Câmbio.

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No documento, o Centro de Estudos de Economia do IREE destaca que a economia brasileira recuou 0,43% em maio ante abril, segundo o IBC-BR, indicador de atividade do Banco Central, surpreendendo o mercado, que nas suas projeções esperava crescimento mensal de 1,1%.

Na comparação com maio do ano passado, o crescimento foi de 14,21%, que é expressivo por ter uma base baixa de comparação, já que maio de 2020 foi marcado como um dos meses mais críticos para a economia, com as restrições trazidas pela pandemia.

Leia também:

Boletim de Política Econômica Julho/21 – Políticas Fiscal e Monetária

Boletim de Política Econômica Julho/21 – Setores

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Crescimento, câmbio e setor externo 

O segundo semestre, que teve início em junho, trouxe um otimismo renovado. A palavra que sintetiza os ventos promissores chama-se: vacina. O avanço mais célere na imunização tem nos permitido visualizar uma saída para a grave crise em que se encontra a sociedade e a economia brasileira. O ritmo da vacinação superou a média de 1 milhão de doses por dia e os estoques de vacinas seguem elevados. O cenário de otimismo é ainda referendado com o recebimento de IFA (Ingrediente Farmacêutico Ativo) em quantidade suficiente para a produção de 30 milhões de doses, que foram entregues ao Instituto Butatan e à Fiocruz.

Em que pese o otimismo com relação à imunização generalizada da população brasileira e ao retorno pleno as atividades econômicas, elementos como o avanço das variantes, gargalos internos que permanecerão pós crise e questões do ponto de vista internacional, principalmente em relação à política monetária norte americana e seus efeitos no resto do mundo, permanecem como sinais a serem monitorados.

Como já temos apontado nos boletins passados, o comportamento da economia brasileira, no entanto, tem caráter muito errático e volátil. É isso que explica que no mês de maio, a despeito do maior avanço na vacinação; da existência do auxílio emergencial e do quase pleno retorno as atividades econômicas, a economia brasileira tenha apresentado uma retração de 0,43% em relação a abril, medida pelo IBC-BR, indicador de atividade do Banco Central. Vale mencionar que essa retração surpreende fortemente o mercado, que nas suas projeções esperava crescimento mensal de 1,1%.

Do ponto de vista interanual, no entanto, o crescimento é expressivo, com a marca de um avanço de 14,21% em relação ao mês de maio de 2020. O que explica esse indicador positivo, no entanto, chama-se “base de comparação”, uma vez que maio de 2020 foi marcado como um dos meses mais críticos da pandemia e das restrições a mobilidade social.

Boletim Mensal de Política Econômica - Julho 2021

Um adendo que precisa ser levado em consideração, no entanto, é a dificuldade dos economistas em tecer mais afinadas previsibilidades em função das revisões seguidas das séries, já que o impacto da pandemia tem sido tão expressivo que tem afetado os modelos de ajuste sazonal, aumentando a volatilidade dos dados mensais e dificuldade a análise do dado na ponta.

Outro elemento especialmente grave, segundo aponta o Ibre/FGV, versa sobre o fato de que as pesquisas mensais do IBGE, que aparecem na sessão dedicada aos setores no Boletim Mensal, contemplarem apenas o setor formal da economia, deixando de cobrirem atividades tais como saúde e educação. No entanto, essas foram atividades deveras impactas pela pandemia e afetarão, portanto, o cálculo do PIB e seu não acompanhamento setorial mensal nubla a capacidade de previsões mais precisas.

Como apontamos na parte dos Setores, o comportamento da abertura tende a inverter a trajetória de crescimento setorial, com recuo na indústria, que sofre as consequências da falta e do encarecimento de matérias primas e das consequências da crise hídrica e dos seus efeitos sobre o preço da energia. Por outro lado, o setor de serviços tem apontado crescimento, prioritariamente os serviços prestados as famílias, que dependem mais da interação social. Em que pese a contínua recuperação desse segmento – importante para a geração de emprego e correção desse importante gargalo ao crescimento de longo prazo – é bom lembrar que o setor, em maio, ainda está 29% abaixo do nível pré pandemia.

A síntese dessa reflexão, no que concerne ao crescimento, é a persistência de um padrão volátil de crescimento, caracterizado por forte heterogeneidade dos indicadores e um comportamento de “stop-and-go”, em que a trajetória mensal de crescimento não parece apresentar consistência e apontar para solidez de médio de longo prazo. Além da imunização coletiva, que nesse momento é condição necessária para o retorno à normalidade econômica, diversas medidas deverão entrar no radar interno para lidar com as consequências da herança dessa crise, principalmente no que tange a questão fiscal e do emprego, uma vez que ainda pesa significativamente na recuperação econômica o hiato no mercado de trabalho, que impõem desafios com relação a queda da massa salarial e do rendimento médio da população.

Embora a existência de uma taxa de câmbio mais vantajosa, num contexto de recuperação global e maior demanda pelos produtos brasileiros, é bom lembrar sua dimensão também cíclica e volátil, além de representar uma saída para a economia brasileira reafirmando uma padrão de estrutura em que a inserção competitiva não ocorre nas vantagens advindas da ciência, tecnologia e aumento da produtividade, e sim em vantagens agrícolas, que determinam um padrão de inserção subordinada e em que o mesmo fenômeno que determina uma melhor inserção externa – o câmbio desvalorizado – também compromete a produção interna pelo encarecimento do consumo intermediário.

É justamente essa situação da taxa de câmbio, somando a trajetória ainda recessiva da economia brasileira e com a adição de desorganização das cadeias globais de suprimento como decorrência da crise que tem marcado uma inflexão nas contas externas brasileiras. Mais uma vez o saldo nas Transações Correntes registraram superávit mensal, perfazendo o total de US$2,79 bilhões em junho desse ano. Ainda que o superávit tenha sido menor em relação ao mesmo mês do ano anterior, que chegou a US$ 3,1 bilhões, o resultado ainda é surpreende para os padrões do balanço de pagamento brasileiro e das economias subdesenvolvidas de forma geral.

Na comparação internacional, o superávit comercial teve um aumento de US$ 1,4 bilhão. As despesas líquidas de renda primária tiveram US$ 1,1, bilhão e o déficit na conta de serviços, por sua vez, apresentou US$ 0,6 bilhão. Ou seja, o que sustentou, fundamentalmente, esse resultado foi o bom desempenho da balança comercial, com um resultado superavitário de US$ 7,3 bilhões. Embora as importações tenham se mantido inferiores as importações, elas cresceram 86,1% entre junho de 2020 e junho de 2021. Esse resultado, portanto, decorre desses dois movimentos, a saber: a) bom desempenho das exportações, como resultado da demanda aquecida e do câmbio desvalorizado; b) crise, queda da renda nacional e o mesmo câmbio desvalorizado que reduz as importações.

A síntese, dessa forma, é que as características atuais do balanço de pagamento têm uma dimensão de ajuste recessivo e tão logo a economia retome um padrão de relativa normalidade as Transações Correntes tendem a retomar sua trajetória deficitária.

Para finalizar, outro elemento importante são os ingressos líquidos em investimento direito no país (IDP) que somaram apenas US$ 174 milhões em junho de 2021, valor bastante inferior em comparação ao mesmo período do ano de 2020, portanto, no bojo da mesma crise global, quando o ingresso líquido chegou a US$ 5,2 bilhões. Nos 12 meses encerrados em junho de 2021, o IDP totalizou 3,02% do PIB brasileiro ante o período anterior que foi de 3,98%.

O Boletim de Política Econômica do IREE é produzido pela economista-chefe Juliane Furno e pelos assistentes de pesquisa Daniel Fogo e Lígia Toneto.

Veja também:

Boletim Mensal de Política Econômica – Junho de 2021

Boletim Mensal de Política Econômica – Maio de 2021

Boletim Mensal de Política Econômica – Abril de 2021

Boletim Mensal de Política Econômica – Março de 2021

Boletim Mensal de Política Econômica – Fevereiro de 2021

Boletim Mensal de Política Econômica – Janeiro de 2021



Por Juliane Furno