Boletim Mensal de Política Econômica - Agosto 2021 – IREE

Análises e Editorial

Boletim Mensal de Política Econômica – Agosto 2021

Juliane Furno
Economista-Chefe do IREE



O Boletim Mensal de agosto de 2021 com todas as análises da equipe do Centro de Estudos de Economia do IREEj á está disponível! Clique aqui para acessar!

A última edição do Boletim Semanal traz a análise sobre Crescimento Econômico, Setor externo e Câmbio.

No documento, o Centro de Estudos de Economia do IREE destaca que o comportamento da economia brasileira segue errático, sem apontar um ponto de estabilização e que a trajetória de tímida recuperação ainda é muito desigual.

Crescimento, câmbio e setor externo

Como já temos reafirmado em boletins pregressos, o comportamento da economia brasileira segue bastante errático, sem lograr apontar um ponto de estabilização. Os indicadores medidos pelo IBCbr – que são uma espécie de próxy do PIB feito mensalmente pelo BC – apontam variações mensais positivas que quase se anulam com o mês seguinte, em que a variação passa a ser negativa.

Além do comportamento vacilante, que parece não ter encontrado um caminho de robusto soerguimento, a trajetória de tímida recuperação ainda é deveras desigual e esbarrará em diversos condicionantes internos e externos que poderão colocar “água no moinho” daqueles que apregoam uma recuperação sem percalços.

Dentre as novidades que já aventávamos nos boletins passados está a de que o comportamento dos setores segue com trajetória heterogênea de recuperação ainda que os termos tenham se modificado. Com o avanço da imunização e o fim quase completo das medidas de restrição oficiais os serviços passam a ser mais consumidos, proporcionalmente, do que os bens, invertendo a relação entre eles que vigorava do começo da pandemia até então. Como mostramos nesse mesmo boletim na parte dedicada aos setores, tanto a indústria quanto o comércio estão ou em trajetória de estagnação ou apresentando trajetória declinante, enquanto os serviços seguem crescendo.

Enquanto os serviços, de forma geral, recentemente alcançaram o patamar pré-pandemia, é bom lembrar que a categoria responsável por empregar os mais vulneráveis – especialmente as mulheres e as negras – ainda amarga com 22,8% de atividade abaixo do patamar pré-crise, em que pese os serviços prestados as famílias tenham fechado o segundo trimestre com um crescimento de 3,7%. Dessa forma, o que assistimos parece ser uma espécie de “cobertor curto” que precisa descobrir os pés para cobrir a cabeça. A migração do estilo de consumo por um lado contribui para recuperar o setor mais atingido pela pandemia, mas já causa preocupação no setor industrial e nas vendas no varejo, que, como temos afirmado, são fortemente dependentes da dinâmica do mercado interno.

Um indicador qualitativo importante é o Índice de Confiança empresarial e de consumidores realizados pelo Ibre/FGV. Em que pese a continuidade da tendência de alta, em agosto de 2021 o indicativo é de acomodação seguida de queda. No que tange a preocupação dos empresários, que sinalizaria um menor confiança na economia brasileira, a nova variante Delta e os custos de produção despontam como os principais. Já para os consumidores que tiveram um recuo mais significativo que o dos empresários no quesito confiança, o desemprego elevado e a inflação são as variáveis mais apontadas para frear a retomada da confiança e distanciar ainda mais a perspectiva entre consumidores e produtores.

Dando continuidade à tendência de alta da confiança empresarial e dos consumidores, os índices continuaram a subir em julho, mas sinalizam acomodação nas prévias de agosto. O Índice de Confiança Empresarial (ICE) subiu 3,1 pontos em julho, atingindo o maior nível desde junho de 2013, e recua 0,7 ponto na prévia de agosto. O Índice de Confiança do Consumidor (ICC) subiu 1,3 ponto e cai 1,7 ponto nos mesmos períodos. O resultado de agosto, caso confirmado, parece sinalizar principalmente a preocupação de empresas com os riscos de nova onda da Covid-19 com a variante Delta. Pelo lado dos consumidores, a inflação e as taxas de desemprego ainda elevadas também têm sido fatores a dificultar a retomada da confiança e contribuído para o grande distanciamento em relação aos níveis de confiança empresariais. Além disso, a diferença de confiança entre as rendas mais baixas e aquelas mais altas se encontra no maior nível da série histórica.

Outras questões internas que podem ser limitadoras do crescimento consistente e sustentado da economia brasileira – aquele que não depende apenas de variáveis externas – são a crise hídrica e a opção do Banco Central de conter a alta da inflação com contínuas elevações da taxa básica de juros. Diversos analistas têm apostado que na próxima reunião do Copom a taxa tenha um incremento de 1,25 pontos percentuais, refletindo a deterioração do quadro inflacionário que deve se agudizar com o aumento – ainda que muito pequeno – da inflação também nos serviços. Se essa opção se confirmar a política monetária passa de uma opção de perseguição de um juro neutro para uma política contracionista, aquela que desestimula a produção a consumo, dificultando as possibilidades de soerguimento da economia brasileira.

No que tange as contas externas, as transações correntes têm registrado um aumento do déficit, seguindo o movimento de retomada da normalidade das atividades econômicas. Na comparação interanual, o superávit que ainda se mantém na balança comercial também apresentou recuou; as despesas líquidas de renda primária cresceram e a conta de serviços apresentou redução. O déficit em transações correntes, portanto nos dozes meses que se encerraram de julho do presente do ano somou o montante de US$20,3 bilhões, o que corresponde a 1,30% do PIB, ligeiramente superior a junho de 2021 quando o mesmo perfazia o total de 1,26 do PIB, mas ainda inferior a julho do ano de 2020, quando estava em US$42,8 bilhões, ou 2,65% do PIB.

O déficit na conta de serviços totalizou US$1,3 bilhão em julho de 2021, redução de 34,0% em relação ao déficit de US$2,0 bilhões em julho de 2020. A conta de viagens internacionais registrou despesas líquidas de US$229 milhões no mês, ante US$127 milhões em julho de 2020. As despesas líquidas de aluguel de equipamentos somaram US$609 milhões em julho de 2021, redução de 48,4% na comparação com julho de 2020, influenciada pela nacionalização de equipamentos no âmbito do Repetro. As despesas líquidas de serviços de propriedade intelectual totalizaram US$325 milhões em julho de 2021, crescimento interanual de US$64 milhões. Em linha com a expansão do volume de comércio, as despesas líquidas de transporte totalizaram US$273 milhões em julho de 2021, aumento interanual de US$77 milhões.

No entanto, é bom fazer menção ao fato de que os fluxos de comércio internacional respondem a comportamentos distintos quando a chave de análise é entre os índices de preços e os volumes de vendas. Pela valorização das commodities exportadas pelo Brasil, nota-se que o crescimento em valor das nossas exportações tem como elemento de liderança os preços, que apresentaram elevação de 28,2% entre os meses de janeiro e julho de 2020 e 2021 enquanto o volume de exportações cresceu apenas 3,9% no mesmo período.

Recortando apenas o mês de julho tem-se que os preços avançaram muito mais, chegando a 44%, mas o volume, no entanto, apresentou recuo de 9%. Portanto, nosso saldo positivo na Balança Comercial está fortemente correlacionado a demanda internacional que amplia o preço das mercadorias, e muito menos na dinâmica interna de elevar a produção e o volume de mercadorias exportadas. Já no que tange as importações, é o volume que supera os preços.

Por fim, no que tange aos elemento exógenos que concorrem para a possibilidade de freio ao crescimento brasileiro ressaltam-se a redução dos fluxos de investimento direto no país e a estabilização do crescimento das principais economias centrais, com destaque para o recente recuo da economia norte americana, que sofre com questões relacionadas a gargalos de oferta.

O Boletim de Política Econômica do IREE é produzido pela economista-chefe Juliane Furno e pelos assistentes de pesquisa Daniel Fogo e Lígia Toneto.



Por Juliane Furno