Boletim Mensal de Política Econômica - Abril 2021 – IREE

Análises

Boletim Mensal de Política Econômica – Abril 2021

Juliane Furno
Economista-Chefe do IREE



A última edição do Boletim Semanal de Política Econômica de abril de 2021 produzido pela equipe do Centro de Estudos Econômicos do IREE traz as análises sobre Crescimento Econômico, Setor externo e Câmbio.

O Boletim Mensal de Abril de 2021 com todas as análises já está disponível e pode ser acessado aqui.

Leia também:

Boletim de Política Econômica Abr/21 – Políticas Fiscal e Monetária

Boletim de Política Econômica Abr/21 – Setores

Boletim de Política Econômica Abr/21 – Mercado de trabalho

Crescimento, câmbio e setor externo 

 Será uma estagflação?

“Estagflação” é um termo que faz referência ao comportamento de uma economia que reúne, simultaneamente, baixo crescimento econômico com níveis superiores a meta no que tange a inflação. Esse fenômeno costuma ser raro, uma vez que as crises econômicas afetam os níveis de consumo, o que tende a gerar uma pressão baixista nos preços, gerando impactos expressivos no setor produtivo que, para realizar a venda das suas mercadorias e serviços, costumam vende-los abaixo dos preços usuais, configurando uma baixa rentabilidade que afeta as decisões futuras de investimento e faz desenrolar um ciclo recessivo.

Esse foi o caso da Grande Depressão na década de 1930, por exemplo, quando a Grã-Bretanha vivenciou uma recessão de 5% e uma deflação de 4%, ou mesmo os EUA que, no mesmo período, amargaram uma recessão de quase 6,5% com uma deflação superior aos 9%.

No ano de 2020, em função da desaceleração e contração da economia brasileira prévia a crise do Novo Coronavírus e acrescida pelo cenário externo a ela decorrente, o Brasil passou a vivenciar sinais – especialmente após agosto – de baixo crescimento econômico com ligeira inflação de bens, penalizando – sobretudo – os trabalhadores mais pobres o que, por consequência – afeta a disponibilidade de renda para consumo do setor que logra, justamente, uma maior propensão a consumir. A interrupção dos programas emergenciais de combate a pandemia em dezembro de 2020 somada a segunda onda de contágio aguça esses dois elementos.

Indicadores recentes da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) indicam eu o Brasil é a única das grandes economias que desponta em trajetória de desaceleração, enquanto a demais já visualizam a inflexão na trajetória de contração do produto e passam a representar taxas constantes de variações positivas mensais ou em rota de aceleração. Em que pese o indicador de atividade do Banco Central (IBC-Br) ter surpreendido os analistas e fechado com alta de 1,7% na margem e crescimento de 0,98% na comparação com fevereiro de 2020, os sinais de retração no primeiro trimestre e recessão no primeiro semestre ganharam mais fôlego.

Isso porque, o crescimento da economia brasileira – embora em grande medida de beneficie do setor externo pela aceleração do crescimento global – o crescimento sustentado, que dependem da dinâmica das variáveis internas – embarra, ao nosso ver, em dois elementos centrais, a saber: Vacinação e estímulos fiscais/monetários. A generalização da vacinação é condição necessária para a retomada da normalidade, embora não seja suficiente. O mercado de trabalho está devastado; cresce o número de brasileiros em situação de extrema pobreza e a renda efetiva está ainda distante de alcançar a renda habitual, o que enseja limites do ponto de vista da renda, que é função do consumo e da dinamização e sustentação do comportamento do mercado interno.

A redução do valor e do escopo da nova rodada do Auxílio Emergencial parece demonstrar espaço reduzido para sustentar a queda da Produto, como foi no ano de 2020. A elevação e a sinalização de continuidade da trajetória de elevação da Taxa Selic também atua como um inibidor da demanda agregada, do investimento e de encarecimento do endividamento brasileiro. Por fim, a forma pouco coordenada e efetiva dos períodos de maior paralisia da atividade econômica não são capazes nem de estacar a questão sanitária da crise, nem mesmo de impor menores perdas a economia.

Segundo estudo recente do Centro de Estudos de Conjuntura e Política Economica (CECON/Unicamp), ações de distanciamento moderada, tais como estamos assistindo e coordenada apenas por Prefeitos e Governadores, logram grande impacto econômico negativo e não são capazes de reduzir substancialmente o crescimento das contaminações. Isso porque, enquanto não houver uma ação mais afetiva, os indivíduos mantêm-se relativamente isolados por decisão voluntária. Assim, um lockdown rigoroso teria impactos econômicos negativos apenas na margem, uma vez que a maior parte do impacto já foi produzido pelo distanciamento voluntário e pelas ações de distanciamento social moderadas decretadas em tempos em tempos.

Em nota publicada pelo Made-USP, analisando a resposta ao coronavírus em diversos países, destaca a importância de uma estratégia centralizada de contenção das contaminações. Os pesquisadores assinalam que os melhores resultados com relação à recuperação econômica foram os que pautaram sua estratégia em conceder suporte econômico – via expansão dos gastos fiscais – junto a políticas de redução da contaminação – a saber, o isolamento social.

Lembrando que o crescimento econômico deve ser uma preocupação das autoridades nacionais, uma vez que o Brasil amarga uma década perdida e acumula uma queda expressiva na renda per capita. O país caiu no ranking e perdeu a vantagem que acumulava sobre os países emergentes. Assim, crises e períodos de semi-estagnação da renda aprofundam danos de longo prazo na economia brasileira. Retomar o crescimento, portanto, deve ser parte de um plano que conjugue elementos emergenciais e estruturais. Na década que se iniciou em 2010 o Brasil saltou da posição 77 entre os maiores PIBs per capita globais em Paridade do Poder de Compra, e chegou – em 2020 – na posição 85, de acordo com dados do FMI.

Do ponto de vista da taxa de câmbio ainda não há grandes novidades. A expectativa do Banco Central é que os fluxos de dólares para o Brasil só irão de estabilizar em 2021 e em 20220, em função da ocorrência de uma virada na conta corrente. Não só isso, mas o BC acredita que deve ingressar mais dólares na economia brasileira dos grandes exportadores, que vinham deixando divisas no exterior para quitar empréstimos internacionais.

O diagnóstico do BC é que os bancos desmontaram posições excessivas para proteger o investimento em dólar no exterior, o chamado “overhedge”. Dessa feita, o início do aperto nos juros deve ter efeitos no câmbio. Em que pese o objetivo de manter a meta de inflação esteja vinculada a taxa de juros, a taxa de câmbio é um dos mecanismos de transmissão da política monetária. No entanto, o diretor de política econômica do BC parece contradizer essa nativa. Fábio Kanckuz afirmou, em uma live do jornal Valor Econômico a partir de um dos Box do Relatório de Inflação, que o nível de juros explica muito pouco da desvalorização e volatilidade cambial. Nas palavras de Kanckuz “Mesmo quando você tenta forçar os números para culpar a política monetária sobre o que aconteceu com o câmbio, você chega a influência muito pequena”. Ou seja, mesmo entre os membros do BC há descompasso em relação ao potencial da elevação dos juros conterem a inflação via valorização cambial.

Por fim, no que tange ao setor externo, há proeminência de uma relativa contradição. A valorização das commodities, ao mesmo tempo em que reforça a balança comercial e o menor déficit nas transações correntes, não consegue debelar a questão inflacionária, porque a entrada de moeda estrangeira não consegue fazer frente ao impacto inflacionário da elevação do preço dessas matérias primas.

A alta atual no preço das commodities contribuiu para o maior nível nos termos de troca desde 2011. Os preços de troca são dados pela relação entre os preços médios de exportação e os de importação. As commodities tiveram uma elevação, na média, de 13,8% entre os meses de janeiro e fevereiro de 2021 e responde por 65% das exportações brasileiras. No entanto, diferentemente de 2011, a melhora nos termos de troca não tem sido suficiente para apreciar a moeda brasileira, fazendo com que esses custos da elevação dos preços das commodities seja repassado aos preços finais.

O acelerado e robusto crescimento Chinês, seguido pelo despontamento da economia americana e de vários países da zona do euro parece sinalizar que as commodities seguirão valorizadas, em função da elevação da demanda e de focos de desorganização da estrutura de oferta global.

O Boletim de Política Econômica do IREE é produzido pela economista-chefe Juliane Furno e pelos assistentes de pesquisa Daniel Fogo, Lígia Toneto e Matias Rebello Cardomingo.

Veja também:

Boletim Mensal de Política Econômica – Março de 2021

Boletim Mensal de Política Econômica – Fevereiro de 2021

Boletim Mensal de Política Econômica – Janeiro de 2021

Boletim Mensal de Política Econômica – Dezembro de 2020

Boletim Mensal de Política Econômica – Novembro de 2020

Boletim Mensal de Política Econômica – Outubro de 2020



Por Juliane Furno