Boletim Econômico: Resultados setoriais não trazem motivo para otimismo – IREE

Análises e Editorial

Boletim Econômico: Resultados setoriais não trazem motivo para otimismo

Juliane Furno
Economista-Chefe do IREE



Confira aqui a análise sobre os últimos resultados setoriais produzida pelo Centro de Estudos de Economia do IREE, na edição semanal do Boletim Econômico de setembro de 2021!

Resultados setoriais não trazem motivos para otimismo

O resultado do PIB do 2º trimestre aumentou as incertezas com relação à retomada e reafirmou a necessidade de maior cautela nas projeções econômicas. Ou talvez, com mais realismo, maior pessimismo.

Depois de crescimento moderado no primeiro trimestre do ano, o PIB apresentou ligeiro recuo de 0,1% na margem. O cenário de crescimento em torno de 5,2% já escorregou para 5,04%, com viés de baixa. Em que pese relembrar que desses 5 pontos, estima-se que em torno de 3,6 p.p. sejam efeito de carregamento estatístico. Ou seja, se a economia estacionasse em dezembro de 2020, já cresceríamos algo próximo à 3,5%, dado o tombo do ano passado. Para o ano que vem, os cenários mais pessimistas já pintam até nova recessão.

Os resultados setoriais do mês de julho não trazem muitos motivos para retomar a dose de otimismo. Oscilações entre taxas negativas e positivas entre os setores acusam a fragilidade de uma economia sob uma corda bamba, que cada vez mais demonstra depender de resolução de questões antes estruturais do que apenas conjunturais. 

O elevado e persistente desemprego, o atraso na vacinação, a aceleração inflacionária e o desarranjo das cadeias produtivas têm demonstrado impacto relevante na atividade. Com exceção do atraso na vacinação, que tende a ter os efeitos mitigados com o avanço da população imunizada, os demais fatores não são mera questão de prazo. Outrossim, os ruídos na esfera política, provocados pela instabilidade política que marca o governo Bolsonaro desde o início e que têm se acirrado nos últimos meses, também não parece serem fatores pontuais tampouco terem efeitos desprezíveis sobre a economia.

Varejo

O varejo ampliado, que inclui as vendas de veículos, autopeças e material de construção, após queda no mês de junho apresentou ligeira alta em julho de 1,1%. O índice restrito, por sua vez, apresentou alta de 1,2% em julho, e teve as estatísticas de junho revisadas pelo IBGE de -1,7% para +0,9%. Observou-se queda no subsetor de combustíveis e lubrificantes, prejudicados pela alta dos preços, e do de supermercados, alimentos, bebidas e fumo, prejudicados também pela queda da massa de rendimento real das famílias.

 

Indústria

A indústria, cuja fragilidade é cada vez mais exposta, apresentou novo recuo na margem (livre de efeitos sazonais) de -1,3%. O principal fator identificado por analistas do setor é a pressão de custos, derivada do desarranjo das cadeias produtivas e da escassez de insumos.

Para Rafael Calgin, do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (IEDI), a desorganização produtiva é fruto da retomada desigual entre os subsetores. Agrava o quadro de elevação dos custos os impactos da crise hídrica no fornecimento e no preço da energia.

Finalmente, o quadro da demanda é fraco até para absorver a produção, quanto mais para enfrentar uma elevação de preços dos produtos finais. A combinação do desemprego elevado e elevado grau de subutilização da força de trabalho com a aceleração do nível de preços, que corrói o poder de compra dos consumidores, contribui para frear o poder de consumo das famílias e, consequentemente, a retomada da economia.

 

Consumo das famílias

De acordo com os últimos dados das Contas Nacionais, o consumo das famílias permanece 1,6% abaixo do patamar pré-pandemia. Com esse cenário pouco animador, era de se esperar que o apetite de investidores não lograsse alta, reduzindo o potencial do investimento para a retomada. Resultado disso foi o Investimento ter recuado 3,6% no 2º trimestre na margem, livre dos efeitos da sazonalidade.

Serviços

O efeito dos custos também impactou os serviços de motoristas de aplicativos, que até o momento tinham sido uma categoria em relativamente constante expansão, desde o início da pandemia. A escassez de empregos empurrou uma massa de trabalhadores, da ordem de 2 a 4 milhões para os trabalhos em aplicativos. O que em um primeiro momento se apresentava como um “bico” ou emprego provisório, passou a ser a fonte principal de rendimento de milhões de brasileiros.

Todavia, a baixa regulação do setor onera demasiadamente os motoristas pelos custos do trabalho. Por um lado, a alta dos combustíveis espremeu substantivamente a margem de remuneração dos trabalhadores. Por outro, a escassez de insumos e elevação dos preços dos produtos da indústria automobilística – de peças a carros novos e semi-novos – também pressiona os custos de manutenção dos veículos, cujo patamar exigido é em muitos casos inconciliável com a renda mensal.

Pesquisa realizada pela Associação de Motoristas de Aplicativos de São Paulo (Amasp) aponta que em 2021 houve redução de cerca de 25% dos trabalhadores de aplicativo na capital paulista, cidade com maior contingente de trabalhadores da categoria no Brasil.

Obstáculos relevantes estão impostos pelo quadro estrutural da economia brasileira. O desemprego elevado, a ameaça de apagão (e os crescentes preços da energia), a desarticulação das cadeias produtivas e escassez de insumos, e a aceleração da inflação e aumento do nível dos juros provocaram maior cautela nas análises econômicas. A instabilidade política também é, sem dúvida, um elemento adicional considerável. Esses fatores não só têm rebaixado as expectativas como têm feito com que os setores da economia se movimentem sob uma corda bamba, ora ligeiramente positivos, ora ligeiramente negativos, contudo, sem perspectiva de estabilidade ou crescimento a longo prazo.

O Boletim de Política Econômica do IREE é produzido pela economista-chefe Juliane Furno e pelos assistentes de pesquisa Daniel Fogo e Lígia Toneto.



Por Juliane Furno