Boletim econômico: Produção industrial se distancia do patamar pré-pandemia – IREE

Análises e Editorial

Boletim econômico: Produção industrial se distancia do patamar pré-pandemia

Juliane Furno
Economista-Chefe do IREE



Confira aqui a análise sobre os últimos resultados setoriais, com destaque para a produção industrial, produzida pelo Centro de Estudos de Economia do IREE, na edição semanal do Boletim Econômico de outubro de 2021!

A economia brasileira vem lutando para se recuperar da Covid-19. Mas, assim como os pacientes que conseguem superar a doença, enfrenta sequelas de curto, médio e longo prazo e uma trajetória de fragilidade. Um dos principais sintomas da recuperação do coronavírus é o cansaço, que demora a passar. Da mesma forma, nossa economia – como um paciente que aos trancos e barrancos sobreviveu a essa trágica e fatal doença – demonstra perda de fôlego e expectativas decadentes com relação ao crescimento. Segundo o Boletim Focus, do Banco Central, a projeção para o PIB para 2021, que já estava em 5,28% há dois meses, está atualmente em 5,04%. Para 2022, a projeção que há 2 meses era de 2,04%, hoje é de apenas 1,54%.

Queda da produção industrial

Em agosto, a produção industrial apresentou nova queda, recuando 0,7% na comparação livre de efeitos sazonais com o mês de julho. Dos 26 ramos analisados, apenas 9 registraram resultados positivos, e foi o primeiro mês do ano que registrou queda na comparação anual, recuando 1,6% relativamente a agosto de 2020. Em 2021, apenas janeiro e maio manifestaram resultados positivos na margem, de 0,2% e 1,2%, respectivamente. A produção industrial acumula queda de 6,0% em comparação com dezembro. O resultado de agosto, mais uma vez, frustrou as expectativas do mercado, que projetavam queda de até 0,4%, o que motivou mais uma vez o rebaixamento das expectativas para o PIB Industrial do ano.

produção industrial

O quadro não é simples. A demanda doméstica está desaquecida com o elevado e persistente desemprego. Mesmo assim, puxada pela alta dos preços dos insumos em decorrência da desarticulação das cadeias produtivas e pela apreciação da taxa de câmbio, a inflação vem se agravando mês a mês, e espera-se que encerre o ano acima de 8%. Sem recuperação do emprego tampouco dos salários, a alta dos preços age como um imposto sobre os mais pobres, que veem seu poder de compra corroído. E se só uma boa alimentação garante uma boa recuperação, a dificuldade fica ainda maior em um país que enfrenta a volta da fome – que têm uma população cada vez mais vulnerável socialmente com poucas condições de mover a recuperação econômica.

Assim, quem vê de fora também não tem muitos motivos para esperar uma recuperação robusta da economia brasileira. O Fundo Monetário Internacional (FMI) revisou suas projeções para o avanço da atividade global, e aponta para descolamento do Brasil do restante do mundo. Enquanto espera-se um crescimento de 6,3% em 2021 para os países da América Latina e de 3,0% em 2022, o Fundo projeta apenas 5,3% para o Brasil neste ano e 1,5% no próximo. Para a China, as previsões são de +8,0% e +5,6%, respectivamente, para 2021 e 2022.

Bom desempenho das exportações

Nesse cenário, se o combustível doméstico está muito caro e escasso para ligar o motor da retomada, os melhores indicadores econômicos – e respectivos resultados setoriais – estão sendo movidos pelo combustível internacional, com o bom desempenho das exportações. O movimento dos preços das commodities tem favorecido setores exportadores, que viram os preços médios de exportação subirem 30,6% entre janeiro e setembro, e o volume exportado expandiu-se 4,1%.

De acordo com o Canal Rural, a soja, um dois principais produtos da pauta de exportações brasileira, tem projeção de crescimento da safra em torno de 5% em comparação com o ano passado, enquanto o crescimento esperado para o faturamento com os embarques é da ordem de 46%, também ante 2020, pela alta dos preços das commodities, mas, sobretudo, pela desvalorização do real frente ao dólar.

Com relação ao petróleo, os dados da ANP indicam que enquanto as exportações em volume no acumulado do ano até setembro tiveram ligeira retração de 5% com relação ao mesmo período do ano anterior, as receitas com exportações acumularam alta de 44%, na mesma comparação. O minério de ferro, por sua vez, também tem sido impactado com a alta dos preços e do câmbio, que têm motivado uma expansão em volume das exportações, que cresceram 16% no acumulado do ano, até setembro, segundo dados da Secex. A expansão das receitas é projetada em até 60% no ano.

Essa expansão tem provocado um aumento da participação de commodities, em especial dessas três destacadas, na pauta de exportações brasileiras. Em setembro, as commodities representaram quase 70% da pauta de exportações brasileiras. Levantamento realizado pelo Valor Econômico indica que isso significa quase 10 pontos percentuais a mais do que em 2019. O trio petróleo, soja e minério representa hoje sozinho 43,7% da pauta. O outro lado da balança é a perda de participação dos produtos industrializados, que até 2005 eram mais de 50% da pauta, em 2019 eram 37,4% e em 2021 estão em 32,8%.

Precisamos lidar com as sequelas da Covid-19 para recuperar a saúde da economia brasileira. Enquanto o país conviver com desemprego elevado, volta da fome, escalada do nível de preços, desarticulação das cadeias produtivas, o pouco fôlego que pudermos ter para a retomada dificilmente vai ser doméstico.

O Boletim de Política Econômica do IREE é produzido pela economista-chefe Juliane Furno e pelos assistentes de pesquisa Daniel Fogo e Lígia Toneto.



Por Juliane Furno