Boletim Econômico Junho/21 – Setores – IREE

Análises

Boletim Econômico Junho/21 – Setores

Juliane Furno
Economista-Chefe do IREE



Confira aqui a análise sobre setores produzida pelo Centro de Estudos de Economia do IREE, na edição semanal do Boletim Econômico de junho de 2021!

Recuperação sem empregos: um resultado setorial

O resultado do PIB do 1º trimestre de 2021, acima do esperado, motivou algumas análises mais otimistas com a recuperação da economia. Mesmo em meio à segunda onda da pandemia, a alta surpreendeu positivamente caracterizando a recuperação em “V” da atividade. Contudo, os empregos seguem patinando, registraram queda no mesmo período, e a população ocupada ainda está distante do patamar pré-pandemia. A taxa de desemprego atingiu nível recorde da série histórica, chegando a quase 14,7%, correspondendo à quase 15 milhões de brasileiros. 

O Gráfico 1 demonstra a trajetória do produto e do mercado de trabalho. Enquanto o produto apresenta uma recuperação em “V”, o mercado de trabalho apresenta uma trajetória mais lenta, que dificilmente pode-se chamar de recuperação. O formato da curva, que se assemelhava a um “U”, após a nova queda no 1º trimestre de 2020, apresenta formato difícil de encontrar similar no alfabeto ou na história. O ano de 2020 foi marcado pela severa saída de pessoas da força de trabalho – isto é, pessoas que haviam desistido de procurar emprego ou não se encontravam disponíveis para trabalhar. No primeiro trimestre de 2020, a taxa de desemprego foi impactada por dois movimentos: tanto a perda de empregos, quanto pelo reingresso de pessoas à força de trabalho que, contudo, não encontraram emprego.

Esse descolamento das curvas, em muito, pode ser atribuído à performance setorial da economia brasileira no último período. Esse resultado, confirma e agrava a preocupação apresentada no Boletim de março, que pode ser acessado aqui, de uma recuperação sem empregos. Se lá havia apenas um descolamento dos movimentos – mas que caminhavam em mesmo sentido – o último resultado trimestral acusa a abertura de uma “boca de jacaré”, caminhando atividade e empregos em sentidos contrários. 

A alta do PIB no 1º tri de +1,2% foi puxada, sobretudo, por atividades de baixa intensidade em trabalho. Mais uma vez, o melhor desempenho coube à agropecuária, que apontou alta de 5,7%. O setor foi beneficiado pela alta dos preços das commodities e pelas boas safras de produtos com peso significativo na pauta de produção, como é o caso da soja, que apresentou expansão de 8,6%.  Todavia, pode-se observar pelo Gráfico 2 que, embora tenham crescido os empregos no setor, eles não acompanharam a aceleração do produto. Isto porque na agropecuária o emprego é pouco relacionado com o valor da produção a preços de mercado por ser um setor com baixa intensidade em trabalho, e pelo resultado do PIB setorial ser muito mais impactado por condições climáticas, tecnológicas e o movimento dos preços internacionais das commodities combinado à taxa de câmbio. 

A indústria também apresentou ligeira alta no valor da produção no trimestre de 0,7%, em relação ao último trimestre de 2020, na comparação livre de efeitos sazonais. Entretanto, o motor dessa expansão foi o resultado positivo da indústria extrativa (+3,2% na mesma comparação), que é o segmento de menor intensidade laboral. Na mesma toada da agropecuária, o crescimento foi impulsionado pela recuperação dos preços das commodities, com destaque para o petróleo. A produção de petróleo também foi beneficiada pela retomada da atividade em importantes plataformas, devido à concentração de paradas para manutenção no segundo semestre de 2020, em especial, das bacias do pré-sal – principais produtoras do país. A partir da ótica da demanda, a importação de plataformas também impactou positivamente a formação bruta de capital fixo, que tem sido um dos principais contribuintes para a expansão do PIB no trimestre a partir dessa perspectiva. 

A indústria de transformação, todavia, apresentou retração de -0,5% no primeiro trimestre do ano, em comparação com o trimestre imediatamente anterior. Esse segmento da indústria é responsável por 90% dos empregos no setor, importantes não só para o segmento, como para a economia como um todo por representarem, em geral, empregos de maior remuneração. Ou seja, por trás da recuperação do valor da produção industrial, está uma diferente recuperação intra-setorial, a qual possui impacto direto nos empregos industriais. Como é possível observar no Gráfico 3, o emprego na indústria estagnou apesar do crescimento do valor adicionado. 

O setor de serviços, por sua vez, apresentou estabilidade na margem (+0,4%), representando um cenário de difícil recuperação para o setor, que foi o mais prejudicado pela pandemia. Assim como os demais, os melhores desempenhos intra-setorias que levaram ao crescimento do valor da produção couberam às atividades que possuem menor intensidade em emprego. É o caso de serviços de intermediação financeira (+1,7%), de informação e comunicação (+1,4%) e de transportes, armazenagem e correio (+3,6%). Por outro lado, mais uma vez, as atividades mais intensivas em trabalho foram as maiores prejudicadas, como é o caso de “outras atividades de serviços” – que inclui serviços domésticos prestados às famílias – que permaneceu estável, em patamar deprimido, registrando +0,1%. O resultado no setor foi ainda mais preocupante que na indústria apontando uma retração da população ocupada no setor.

Desagregando a atividade comercial do PIB dos serviços, o segmento apresentou expansão de +1,2%. Também aqui, contudo, os empregos apresentaram retração, deveras impactados pela interrupção do auxílio emergencial e das medidas de proteção aos empregos. A segunda onda do coronavírus, que exigiu novas medidas de isolamento social, também prejudicou o desempenho das atividades do setor que são mais intensivas em emprego – aquelas presenciais – sendo dessa forma, fundamental para a recuperação destes, a rápida vacinação da população.

Como pode-se observar, os resultados sobre o valor da produção no primeiro trimestre caminham em sentido contrário ao emprego em todos os setores. Onde o emprego não retraiu, tampouco ele cresceu. A estrutura setorial e intra-setorial da atual recuperação é fundamental para explicar esse resultado.

Analisando os indicadores de volume da produção em abril – resultados mais recentes disponíveis – a atividade apresentou sinais ambíguos. Em comparação com março de 2021, descontados os efeitos sazonais, a indústria recuou -1,3%, o comércio apresentou alta de +1,8% e os serviços se mantiveram estáveis, +0,7%. 

Mesmo que em valor reduzido, o auxílio emergencial mostrou-se mais uma vez determinante para a recuperação das vendas do varejo, que vinham registrando baixas nos últimos meses com o interregno do benefício. Nesse sentido, cabe destacar que o índice, que havia alcançado patamar 7,9% superior ao pré-pandemia em outubro do ano passado, hoje encontra-se novamente muito próximo a este, apenas 2,0% acima de fevereiro de 2020. Com exceção do segmento de hipermercados e supermercados, todos os demais apresentaram expansão. O melhor desempenho coube ao segmento de “móveis e eletrodomésticos”.

A produção industrial, em outro sentido, registrou o quarto mês consecutivo de retração. Em comparação com o mês de março, na comparação livre de efeitos sazonais, o setor apresentou recuo de 1,3%. Na comparação com dezembro o setor acumula queda de 4,2% e volta a encontrar-se em patamar inferior ao anterior à pandemia. A situação só não é pior porque a indústria extrativa, beneficiada pelo movimento positivo das commodities, apresentou nova alta no mês (+1,6% em abril após +5,7% em março). A indústria de transformação que, como apontado anteriormente, responde pela larga maioria dos empregos no setor, registrou queda de -2,2% em abril, após -3,1% em março.

No mês, a ligeira alta na margem dos serviços foi puxada, sobretudo, pelo segmento de “serviços prestados às famílias” que registrou +9,3% na comparação com março de 2021. O desempenho do segmento foi beneficiado pela retomada do auxílio emergencial e pelo relaxamento de políticas de isolamento social em diversos estados. De todo modo, esse resultado deve ser analisado com maior cuidado: o segmento havia registrado queda de 28% em março. Dessa forma o volume de serviços prestados às famílias ainda encontra-se  40% abaixo do patamar de fevereiro de 2020 (anterior à pandemia), como pode ser observado no Gráfico 7. Mais uma vez, esse segmento é o com maior intensidade em mão de obra, reforçando a dificuldade de recuperação do mercado de trabalho.

O atual quadro do descolamento entre atividade econômica e emprego é, dessa forma, um reflexo da performance setorial da economia no período recente. Esse desempenho traz preocupações relacionadas tanto à sustentabilidade das taxas de crescimento, dado o comprometimento da demanda, assim como repercussões sobre a desigualdade social. Uma recuperação econômica sem empregos, é uma recuperação que não é sentida pelo conjunto da população.

O Boletim de Política Econômica do IREE é produzido pela economista-chefe Juliane Furno e pelos assistentes de pesquisa Daniel Fogo e Lígia Toneto.

Veja também:

Boletim Mensal de Política Econômica – Maio de 2021

Boletim Mensal de Política Econômica – Abril de 2021

Boletim Mensal de Política Econômica – Março de 2021

Boletim Mensal de Política Econômica – Fevereiro de 2021

Boletim Mensal de Política Econômica – Janeiro de 2021

Boletim Mensal de Política Econômica – Dezembro de 2020

Boletim Mensal de Política Econômica – Novembro de 2020

Boletim Mensal de Política Econômica – Outubro de 2020



Por Juliane Furno