Boletim econômico explica divergências entre PNAD e CAGED – IREE

Análises e Editorial

Boletim econômico explica divergências entre PNAD e CAGED

Juliane Furno
Economista-Chefe do IREE



Confira aqui a análise sobre Mercado de Trabalho, Desigualdade e Políticas Sociais produzida pelo Centro de Estudos de Economia do IREE, na edição semanal do Boletim de agosto de 2021!

Controvérsias entre a PNAD e o CAGED

No Brasil há duas pesquisas principais de mensuração das condições do mercado de trabalho. A Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (PNAD), que é realizada de forma mensal e contínua pelo IBGE, e o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (CAGED), realizado pelo Ministério do Trabalho. A primeira tem maior abrangência, coletando informações sobre emprego, desemprego, renda e outras variáveis. No entanto, a PNAD é uma pesquisa amostral, com menor precisão e que, por questões sanitárias, tem sido realizada por telefone.

No que tange ao CAGED as informações não precisam ser ponderadas, uma vez que são feitas exatamente para cada trabalhador admitido e demitido e lançadas pelas empresas. No entanto, para o CAGED, apenas registros formais são lançados, o que torna a pesquisa – em que pese mais precisa – de menor abrangência, posto que mais da metade do mercado do trabalho brasileiro encontra-se em uma situação – lato sensu – de informalidade, que abrange não somente trabalhadores da iniciativa privada que não detém registro em carteira de trabalho, senão que, também, outros vínculos informais, tais como trabalhadores por conta própria, empregadores sem CNPJ, trabalhadores domésticos sem carteiras e até mesmo trabalhadores do setor público sem registro.

Soma-se à diferença de escopo, as mudanças metodológicas recentes no CAGED, que não somente impedem comparações de médio e longo prazo sem ponderações quanto inflam o que é considerado “emprego formal” na medida em que o registro passou a considerar bolsistas, dirigentes sindicais e outras ocupações que anteriormente estavam fora do nível de abrangência.

As divergências entre as duas pesquisas não são apenas numéricas quanto apontam para sentidos opostos: enquanto o CAGED apresenta mensalmente recordes de geração de emprego, a mensuração de postos de trabalho formais coletados pelos registros da PNAD também mantém uma trajetória ascendente mas essa, no entanto, aponta no sentido da permanência e ampliação do desemprego.

Na esteira da polêmica, recentemente o Ministro da Economia, Paulo Guedes, disse que a PNAD está “na idade da pedra lascada” em um claro tom de deslegitimação metodológica da pesquisa realizada pelo IBGE.

O aumento da mobilidade social, com o avanço da imunização e a queda das restrições ao funcionamento de quase a totalidade das atividades econômicas fez crescer o nível de emprego, concomitantemente, faz crescer o contingente de pessoas que voltaram a procurar trabalho. Soma-se a abertura da economia à queda expressiva do valor do auxílio emergencial e o encarecimento do nível de vida pelo impacto inflacionário.

Dessa forma, o contingente de pessoas sem renda ou necessitando complementar a renda familiar pressiona os níveis de participação, que comporta tanto um aumento no nível de ocupação quanto de desocupação, lembrando que a taxa de ocupação é o total das pessoas ocupadas no mercado de trabalho – que hoje está em 48,9% – e o total de pessoas que está procurando emprego, cifra que perfaz o total de 14,6%. Isso tudo sobre o total da população em idade para trabalhar.

 

Outros indicadores trazidos na análise do fechamento desse trimestre móvel (março/abril/maio) ainda preocupam e colocam freio ao crescimento sustentado da economia brasileira. O rendimento real médio efetivo das pessoas ocupadas teve uma queda de 9% em relação ao trimestre anterior, o que sugere que as admissões estão sendo realizadas em patamar salarial mais rebaixado em relação ao período pré-crise. Por fim, o aumento tímido no nível de ocupação, no entanto, também tem sido acompanhada de persistente elevação na taxa composta de subutilização da força de trabalho, que chegou – no último trimestre móvel – ao patamar de 29,3% da população. Esse indicador também sugere que as admissões estão concentrando-se em empregos de menor jornada de trabalho, o que impacta o total recebido pelos trabalhadores, ensejando dificuldades à retomada interna da acumulação.

O Boletim de Política Econômica do IREE é produzido pela economista-chefe Juliane Furno e pelos assistentes de pesquisa Daniel Fogo e Lígia Toneto.

Veja também:

Boletim Mensal de Política Econômica – Julho 2021

Boletim Mensal de Política Econômica – Junho de 2021

Boletim Mensal de Política Econômica – Maio de 2021

Boletim Mensal de Política Econômica – Abril de 2021

Boletim Mensal de Política Econômica – Março de 2021

Boletim Mensal de Política Econômica – Fevereiro de 2021

Boletim Mensal de Política Econômica – Janeiro de 2021



Por Juliane Furno