Boletim Econômico Abril/21 - Mercado de Trabalho, Desigualdades e Políticas Sociais – IREE

IREE - Instituto para Reforma das Relações entre Estado e Empresa

Análises

Boletim Econômico Abril/21 – Mercado de Trabalho, Desigualdades e Políticas Sociais

Juliane Furno
Economista-Chefe do IREE



Confira aqui a análise sobre mercado de trabalho, desigualdades e políticas sociais produzida pelo Centro de Estudos Econômicos do IREE, na edição semanal do Boletim de abril de 2021!

O emprego formal apresentou trajetória ascendente no mês de janeiro, segundo dados do Novo Caged. A verificação dessa informação foi recebida com relativa desconfiança para os estudiosos do mercado de trabalho que, munidos das informações disponíveis, têm apontado a deterioração das condições laborais.

Para compreender o saldo de 260 mil novos trabalhadores é necessário atentar para as mudanças metodológicas que circunscrevem o universo da pesquisa.

Em 2020 o Caged passou por uma mudança na metodologia de conferência entre admitidos e demitidos do mercado de trabalho formal brasileiro. O Novo Caged, instituído pelo Ministério da Economia, agora é alimentado por informações captadas pelos sistemas eSocial, Caged e Empregador Web (onde são registrados os pedidos de Seguro Desemprego).

Ocorre que, diferentemente da metodologia de coleta de informações anterior, no eSocial agora são contabilizados empregados formais bolsistas, temporários, agentes públicos e dirigentes sindicais, avulsos, autônomos, cooperativados e servidores públicos, modalidades que estavam de fora da contabilização anterior.

Dessa feita, não é possível estabelecer trajetórias comparativas com relação a série histórica que se inicia em 1992. No entanto, segundo anunciado pela Casa Civil, janeiro foi o mês que apresentou “o melhor da série histórica para o referente mês desde 1992”. Paulo Guedes também fez coro com as análises mais entusiásticas e comemorou o que seria “a menor perda de empregos desde 1995”.

Além disso, é possível que os dados do Novo Caged estejam subestimados em função da quantidade expressiva de empresas que fecharam as portas e podem não ter, ou estejam demorando, para reportar os dados agregados.

No entanto, essa hipótese pode perder força quando se observa que o nível e o comportamento dos desligamentos estão alinhados aos requerimentos do Seguro Desemprego, que agora estão cruzados na mesma pesquisa.

Quando comparado com a PNAD Contínua, os números divergem fortemente dos elencados pelo Novo Caged.

O gráfico sugere que devem persistir as taxas de desocupações mais elevadas nos próximos meses, pela análise da PNAD C, uma vez que o crescimento da oferta de trabalho crescendo menos intensamente.

A dinâmica do mercado de trabalho dependerá – necessariamente – da vacinação e de um conjunto de políticas próprias para o setor e do crescimento da economia de forma agregada.

Quando desmembramos o desemprego por faixas etárias identificamos as feridas profundas que as sucessões de crises têm sobre a população mais jovem.

Desde 2015 verifica-se uma elevação no contingente de pessoas de até 29 anos na situação de desemprego. Parte desses jovens sofrem com as demissões e dificuldades de alocação no mercado de trabalho, porém, o que explica – fundamentalmente – o crescimento do desemprego entre os jovens é que eles voltaram a procurar emprego.

Na primeira década dos anos 2000, a melhora na dinâmica econômica, o desemprego em queda e a elevação da renda média permitiram que milhares de jovens pudessem adiar sua entrada no mercado de trabalho, passando a fazer parte do contingente fora da força de trabalho, que dedicava-se ao estudo em detrimento do trabalho.

A reversão do ciclo e a necessidade de complementação da renda familiar obrigaram parte expressiva da juventude mais pobre a se recolocar no mercado de trabalho. Esse fenômeno afeta a pressão no mercado de trabalho como um todo e a desigualdade e mobilidade social, uma vez que são menores as possibilidades de qualificação profissional para a juventude que precisa mediar o tempo entre trabalho e estudo.

Para a economista Julia Braga, o prolongamento da recessão na economia brasileira gera uma “histerese”, um termo emprestado da Física para explicar que, mesmo que o país volte a crescer, o desemprego ainda seguirá por muito tempo elevado.

Esse processo, além de efeitos deletérios para a juventude e sua inserção laboral, enseja limites ao próprio desenvolvimento, na medida em que essa juventude não está à disposição da sociedade para gerar riqueza.

O desemprego entre jovens é substancialmente maior que a média nacional de desempregados perfazendo o percentual de 43%, índice deveras elevado e motivo de preocupação.

A única política pública que mira o combate ao desemprego da juventude foi, ainda em apreciação, Carteira de Trabalho Verde Amarela, uma política que não somente restringe ainda mais os direitos da juventude senão que parte da mesma premissa equivoca da Reforma Trabalhista de 2017, compreendendo que a determinação do nível de emprego está na legislação trabalhista e não na atividade econômica.

Além disso, o desemprego só não foi mais elevado em função da queda substancial dos jovens na força de trabalho, que fica explícito no primeiro trimestre de 2020 como sugere o gráfico abaixo.

O Boletim de Política Econômica do IREE é produzido pela economista-chefe Juliane Furno e pelos assistentes de pesquisa Daniel Fogo, Lígia Toneto e Matias Rebello Cardomingo.

Veja também:

Boletim Mensal de Política Econômica – Março de 2021

Boletim Mensal de Política Econômica – Fevereiro de 2021

Boletim Mensal de Política Econômica – Janeiro de 2021

Boletim Mensal de Política Econômica – Dezembro de 2020

Boletim Mensal de Política Econômica – Novembro de 2020

Boletim Mensal de Política Econômica – Outubro de 2020



Por Juliane Furno



Leia também