Boletim de Política Econômica do IREE - Novembro – IREE

Análises e Editorial

Boletim de Política Econômica do IREE – Novembro

Juliane Furno
Economista-Chefe do IREE



Clique no link abaixo e leia o Boletim de Política Econômica do IREE de Novembro, produzido pela economista-chefe Juliane Furno!

Boletim IREE de Política Econômica – Novembro de 2020

Confira os principais temas abordados:

ESPECIAL ELEIÇÕES AMERICANAS (EDIÇÃO SUPLEMENTAR)

Além do escopo dos temas tratados mensalmente, o Boletim de Política Econômica do IREE de Novembro traz uma análise suplementar sobre os possíveis impactos da vitória de Joe Biden para a Presidência dos Estados Unidos para a economia brasileira. O Brasil está no seu pior momento nas relações com os EUA. A pandemia já nos deixa de herança um déficit comercial oito vezes maior do que o pré-pandemia. O programa também protecionista de Joe Biden e a política de obtenção interna da segurança alimentar norte-americana devem contribuir ainda mais para a manutenção da fragilidade comercial do Brasil.

Se por um lado Trump representava um risco a um conjunto de exportadores brasileiros – por elevação das tarifas de exportação e questionamentos das regras da OMC –, por outro lado Joe Biden deve imprimir sanções ambientais aos produtos brasileiros. Democratas e Republicanos parecem representar muito mais continuidades do que rupturas, principalmente do ponto de vista econômico e das relações externas. A disputa entre EUA e China deve seguir e comprovar que se trata de uma relação bipartidária e muito mais ligada ao Estado do que ao governo da Casa Branca. (…)

CRESCIMENTO ECONÔMICO E SETOR EXTERNO

A última projeção oficial, externada no Boletim Macrofiscal do Ministério da Economia, prevê uma queda do PIB brasileiro de 4,5% em 2020 e um crescimento de 3,2% em 2021. Se confirmada, essa será a celebração da movimentação em “V” que tem apregoado o Ministro da Economia, Paulo Guedes. A estimativa mais favorável em relação à projeção passada de queda de 4,7% no PIB brasileiro deve-se aos dados de crescimento da indústria e do comércio.

No agregado, a atividade econômica até agora encolheu 4,93%, segundo o indicador IBC-Br, que é uma espécie de prévia do PIB e é feito e divulgado pelo Banco Central. Com a reabertura das atividades a partir da flexibilização do isolamento social, a atividade econômica tem que se recuperado na comparação mês contra mês, ainda que não tenha sido suficiente para retomar o patamar pré-pandemia. (…)

 MERCADO DE TRABALHO, DESIGUALDADES E POLÍTICAS SOCIAIS

A redução do Auxílio Emergencial, principal política social do período, para R$ 300 em setembro fez elevar a taxa de pobreza para 19,4%, o que representa um aumento de 41,1 milhões de pessoas vivendo, outra vez, na pobreza, pela estimativa feita pelo Ibre/FGV. A possível segunda onda da COVID-19 preocupa pelo potencial que ela tem de agravar ainda mais esse quadro. Frente a isso, o Ministro da Economia, Paulo Guedes, sinalizou que, se houver uma nova onda, o Auxílio Emergencial pode voltar.

Segundo Guedes, foram digitalizados os dados de 64 milhões de brasileiros, o que faz com que o governo saiba melhor quem são, onde estão e o que precisam essas pessoas para sobreviver. Guedes está sinalizando uma piora no padrão já baixo de geração de emprego após o período mais crítico da pandemia. Embora preveja uma desaceleração no emprego, o ministro afirmou que ainda assim o saldo final de desempregados será mais brando do que o da última crise, que abarcou a economia brasileira entre os anos de 2015 e 2016. (…)

POLÍTICA MONETÁRIA: JUROS E INFLAÇÃO

Os juros futuros tiveram forte alta com a desconfiança dos agentes em relação à situação das contas públicas brasileira. A taxa de DI para janeiro de 2022 subiu de 3,29% no ajuste anterior para 3,37%, e a de DI para janeiro de 2023 avançou de 4,98 para 5,1%. Assim, na sexta-feira, 20 de novembro, a curva de juros teve um dia de recomposição do prêmio de risco sobre toda a sua estrutura.

Ainda no tema dos juros, a ata da última reunião do Copom sinaliza que o BC pode voltar a subir a taxa de juros da economia, ainda que se mantenha a âncora fiscal do Teto dos Gastos. Segundo consta na ata, manobras fiscais para elevar o gasto – ainda que formalmente não mexam no teto – seriam já suficientes para o BC rever o compromisso de não alterar a Selic. Vozes destoantes, como por exemplo a do economista André Lara Resende, questionam o peso excessivo que tem sido dado ao equilíbrio fiscal de curto prazo. Em entrevista recente ao Jornal O Estado de São Paulo, Lara Resende chegou a dizer que “Investimento público é mais importante que juro baixo tanto na recessão como no longo prazo”. (…)

POLÍTICA FISCAL

A novidade positiva é que o Brasil ganhou um fôlego de dois anos para que a dívida atinja os 100% do PIB, segundo estimativa da Instituição Fiscal Independente (IFI). A previsão em junho era que esse patamar seria alcançado já em 2022. Ainda que essa nova projeção represente um fôlego, na avaliação do IFI a trajetória de déficits primários seguirá até 2030. Assim, serão 17 anos consecutivos de rombo fiscal.

Na avaliação de Alvaro Mollica, do Citi, a evolução da dívida é mais importante que o teto de gastos. A manutenção da atual regra fiscal é um detalhe menos importante do que a sinalização para a evolução da dívida pública. Na esteira da mesma análise que relega menos relevância ao teto de gastos para a retomada do equilíbrio, um artigo na revista The Economist apregoa que a análise dos déficits orçamentários deveria depender menos dos estoques de dívida e mais da taxa de desemprego. Políticas de redução do desemprego são essenciais para suprir uma demanda social, que está no bojo dos direitos, e também ensejar a possibilidade de reequilibrar as contas públicas na chave da elevação da arrecadação, ao invés da insistência no corte de gastos. (…)

SETORES (INDÚSTRIA, SERVIÇOS, COMÉRCIO E AGROPECUÁRIA)

O IPEA projetou um crescimento do PIB agro em 1,5% para 2020. O setor será o único a ter crescimento para o ano marcado pela pandemia. As exportações do agronegócio tiveram uma alta de 6% no acumulado do ano. (…)

A Fiesp constatou que no acordo comercial de livre-comércio selado entre Mercosul-União Europeia, o setor privado brasileiro reivindicou muitas políticas de redução tarifárias e pouco se avançou em instrumentos de defesa comercial, tais como medidas antidumping e antissubsídios, entre outras. Assim, a nova reivindicação dos empresários do setor é por reforço nas medidas de defesa comercial não só nesse, mas em todos os demais acordos. (…)

No setor financeiro, a Bolsa de Valores Brasileira superou em novembro os 106 mil pontos pela primeira vez desde março de 2020. A Bolsa teve o 12º pregão consecutivo de entrada de novos estrangeiro, que totalizou um saldo líquido positivo de R$ 25,73 bilhões em novembro, resultado obtido pela diferença entre R$ 226,69 bilhões de compras e R$ 200,96 bilhões de vendas. (…)

O setor de serviços ainda não conseguiu retomar o nível de produção pré-crise mesmo com a quase plena retomada das atividades. Portanto, a trajetória – ainda que seja de variação positiva mês a mês – não conseguiu se igualar ao padrão pré-crise, expresso pelos dados de março desse ano. (…)

O setor do varejo, que está ressurgindo no país, alcançou escala inédita no meio digital, com forte expansão das vendas. No entanto, essa retomada ocorre de forma heterogênea no país. Levantamento feito pelo Valor Econômico mostra que 16 grandes varejistas já movimentaram neste ano, até setembro, uma cifra recorde de R$ 97,93 bilhões em plataformas (sites e aplicativos). (…)



Por Juliane Furno