Boaventura de Sousa Santos é o novo colunista do IREE! – IREE

Análises

Boaventura de Sousa Santos é o novo colunista do IREE!

Samantha Maia
Diretora de Comunicação do IREE



Temos a honra de anunciar que Boaventura de Sousa Santos, um dos maiores sociólogos da atualidade, é agora colunista do IREE! Muito em breve contaremos com suas análises por aqui!

E em homenagem a essa importante parceria, trazemos um pouco do que foi a participação do sociólogo em um webinar realizado em junho de 2020. Nesse encontro com o Presidente do IREE, Walfrido Warde, Boaventura falou da crise da democracia, sobre os limites da ciência e sobre a crise da esquerda no Brasil e no mundo.

Confira!

Crise da democracia

Boaventura de Sousa Santos falou sobre o conceito de contrato social e sobre como a democracia é ameaçada a partir da deterioração das bases desse contrato, que são os vínculos vertical, das obrigações entre Estado e cidadãos, e horizontal, das obrigações entre os cidadãos.

“Uma sociedade não funciona se essas duas obrigações não estiverem coordenadas, e elas devem ser o mais democratizadas possível. A democracia representativa liberal, de fato, só buscou democratizar o vínculo vertical, e isso foi o grande problema desde o início, porque deixou muita gente fora do contrato social, como mulheres e negros”, disse o sociólogo.

A partir de um olhar histórico, Boaventura explicou como os dois vínculos vêm sofrendo uma degradação progressiva, e citou como um marco simbólico do rompimento do vínculo entre os cidadãos a máxima de Margaret Thatcher de que “não há sociedade, apenas indivíduos”.

“Isso veio a terminar no empreendedorismo, um termo que apareceu por último nas nossas ciências sociais e políticas, como se fôssemos todos empreendedores. Para alguém ganhar, alguém tem que perder, e o ser humano se tornou inimigo do outro ser humano”, disse ele.

As três sociedades civis: íntima, estranha e incivil

O sociólogo chamou atenção para as consequências da degradação do contrato social, entre elas a existência de governos de poucos para benefício de poucos, com a interferência crescente dos valores econômicos sobre a esfera política, e a formação de três tipos de sociedade civis: a íntima, a estranha e a incivil.

“Quando essa degradação total dos vínculos se dá, forma-se o que eu chamo de as três sociedades civis. Há uma sociedade civil íntima, que está tão próxima do Estado que nem precisa do Direito, têm privilégios, são as elites; temos uma sociedade civil de todos nós, que realmente não tem privilégios, mas tem direitos, deveres e credibilidade para acessar o sistema de garantias que permite que seus direitos sejam respeitados, é o círculo que simboliza um pouco a própria democracia liberal. E há um terceiro arco, cada vez mais amplo, que é a sociedade civil incivil, que está separada das duas primeiras por uma linha abissal, e que, apesar de formalmente ser considerada cidadã, não tem qualquer possibilidade de invocar os seus direitos. É tratada como subgente, não é verdadeiramente humana, e essas pessoas descartáveis estão por toda a parte”, explicou.

Boaventura citou a situação do americano negro George Floyd, assassinado pela polícia, e dos imigrantes que morrem no Mediterrâneo tentando chegar à Europa como exemplos da existência de uma sociedade civil incivil. “A sociedade incivil são aqueles a quem não é reconhecida a humanidade. Em um sistema desse tipo, a democracia não funciona.”

Discurso sobre as ciências

Boaventura falou sobre suas reflexões a respeito dos limites da ciência e sobre a importância da pluralidade no pensamento científico. Segundo ele, esses questionamentos apenas reforçam a importância da ciência, e de nada têm a ver com o negacionismo.

“Essa incerteza é o que nos dá entusiasmo a continuar a ser cientistas, mas por vezes é aproveitada por aqueles que negam a eficácia ou a importância da ciência, os negacionistas. Tem coisas onde a ciência avançou que não colocamos em causa, só dizemos que ela não é um conhecimento completo, porque há coisas que a ciência não conhece e há coisas que a ciência não pode conhecer”, explicou.

O sociólogo contou que, a partir do período em que realizou pesquisas no Brasil, na favela do Jacarezinho (RJ), nos anos 1970, e nos mocambos do Recife, nos anos de 1980 com Dom Hélder Câmara, passou a valorizar mais o conhecimento que recebia nas conversas com as pessoas, sobre a sabedoria da vida. Foi daí que surgiu suas reflexões sobre o que viria  a chamar de as “epistemologias do Sul”, termo cunhado por Boaventura e que busca ser uma alternativa ao paradigma epistemológico da ciência moderna.

Essa linha de pensamento enfatiza a necessidade de um diálogo e de um resgate de outras formas de saberes. No evento do IREE, Boaventura abordou a questão da pluralidade interna e externa da ciência.

“A interna é que a ciência pode ser feita de muitas formas e não temos nenhuma razão para invocar que uma teoria é errada em favor de outra. E a externa é quando chego à conclusão de que é preciso haver um pluralismo entre a ciência e outros saberes.”

A crise da esquerda no Brasil e no mundo

Boaventura falou sobre a crise da esquerda no Brasil e no mundo. Segundo ele, o grande problema para a esquerda responder aos desafios da sociedade hoje é pelo fator de ter a mesma matriz civilizacional da direita, que valoriza o individualismo sobre a comunidade, que vê a natureza como algo a ser explorado, e que não compreende a importância da religiosidade.

“A esquerda e a direita têm a mesma matriz civilizacional, e é esse o problema para a refundação de uma esquerda, porque essa matriz civilizacional sempre favorece a direita. A esquerda continua a acreditar que é melhor criar consumidores que criar cidadãos. Portanto a esquerda tem que ser ecológica, tem que ter outro modelo de desenvolvimento”, disse.

Sobre a questão da religiosidade, Boaventura citou a Teologia da Libertação como uma exceção da atuação da esquerda nas periferias, movimento que acabou sendo proibido pela Igreja Católica e que, segundo o sociólogo, teve como reação da direita o financiamento das igrejas neopentecostais, com apoio dos Estados Unidos.

“As igrejas neopentecostais são as formas mais conservadoras da religião, é a teologia da prosperidade. Em 1977 é criada a Igreja Universal do Reino de Deus, que é hoje um império. Esse é um projeto imperial para ocupar as camadas periféricas. E a esquerda deixou de saber falar com as periferias, quem fala com as periferias são os pastores, que confortam, mas nunca dizem que a causa do sofrimento é a opressão, é o capitalismo financeiro voraz.”

Boaventura finalizou fazendo uma crítica à esquerda brasileira, que, segundo ele, está muito preocupada com os cálculos eleitorais. “É a cegueira típica das esquerdas porque não se renovaram, não têm escolas de quadros. Espero que os movimentos sociais tenham a capacidade de fazer formação política desde a base. Sou um entusiasta da renovação da esquerda, e há algumas vitórias, mas há muito caminho ainda.”

Assista o vídeo na íntegra abaixo!



Por Samantha Maia