Belluzzo: Brasil precisa de plano estratégico para a indústria – IREE

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Entrevistas

Belluzzo: Brasil precisa de plano estratégico para a indústria

As dificuldades de desenvolvimento da indústria brasileira têm levado o setor a perder, ano a ano, o seu peso na atividade econômica do País. Em 2018, a participação da indústria da transformação na composição do Produto Interno Bruto (PIB) caiu para 11,3%, o menor percentual em toda a série histórica iniciada em 1947. Para se ter uma ideia, no fim dos anos 1980, a indústria de transformação chegou a ter uma fatia próxima de 30% do PIB.

As perspectivas para 2019, por sua vez, não são boas. O ano começou com desempenho fraco da indústria e sem sinais de recuperação. Houve recuo da atividade industrial em relação ao ano anterior e o governo ainda não apresentou um plano para o setor.

O IREE conversou com o economista Luiz Gonzaga Belluzzo sobre esse cenário e sobre os caminhos possíveis para a recuperação da indústria brasileira.

Segundo o economista, é preciso ter um olhar histórico e evitar as análises de curto prazo.

“A discussão sobre se vai crescer 1,5% ou 2% é absolutamente desprezível. Qual é o projeto para crescimento da economia brasileira dentro do contexto mundial?”, questiona.

Na entrevista ao IREE, Belluzzo falou sobre o momento atual de redefinição das políticas industriais ao redor do mundo e da importância do Brasil também traçar um plano estratégico para o setor.

Confira os principais trechos a seguir.

Quais são as perspectivas para a indústria brasileira neste ano?

Luiz Gonzaga Belluzzo: Precisamos olhar de uma perspectiva mais longa e mais ampla, porque um dos problemas das análises econômicas é focar um tempo curto. A queda da participação da indústria vem desde os anos 90, com a política de taxa de juros alta e câmbio valorizado. Essa combinação causou um dano muito grande à indústria brasileira. Isso num momento em que a China estava começando a acelerar seu desenvolvimento industrial. Hoje a China é responsável por 25% da produção manufatureira global, enquanto que o Brasil perdeu participação. A indústria brasileira encolheu. As pessoas não se lembram, mas nós exportávamos computadores. Perdemos posição em eletroeletrônica, em bens de capital.

Estamos observando um fenômeno de longo prazo. O Brasil teve momentos de respiro entre os anos 2003 a 2012 provocados pelo impacto positivo de demanda da China e do consumo dos Estados Unidos. Nesse momento o Brasil conseguiu crescer por conta de políticas doméstica de reajuste do salário mínimo, do crédito consignado. A queda do preço das manufaturas permitiu que os que ascenderam começassem a participar do padrão de consumo contemporâneo. Isso se dissipou quando o Brasil resolveu fazer um ajuste fiscal desatinado, no segundo governo de Dilma Rousseff, que jogou o Brasil numa depressão.

A aprovação da Reforma da Previdência pode melhorar o ambiente de investimento para a indústria?

Luiz Gonzaga Belluzzo: O governo de Michel Temer e agora o de Jair Bolsonaro colocaram a Reforma da Previdência como uma panaceia. Claro que a reforma é importante, fazer uma reforma fiscal também, mas é como se fundisse o motor do seu carro e você estivesse consertando a lataria. O motor de todas as economias, que é a indústria, fundiu.

Na Europa os países estão passando por redefinições das políticas industriais. O Donald Trump é sintoma disso, essa suposta guerra comercial é uma reação à perda de hegemonia tecnológica dos Estados Unidos. De uma maneira tosca, ele está tentando fazer isso. Aqui o debate é fraco.

E qual deve ser o debate aqui? O governo fala sobre redução de impostos para as empresas como forma de melhorar a competitividade e depois abrir o mercado.

 Luiz Gonzaga Belluzzo: Não tem como mobilizar a indústria sem um projeto de desenvolvimento industrial. A competitividade da indústria não vai ser recuperada com a abertura da economia. Os chineses articularam um programa de exportação com investimento em tecnologia e infraestrutura interna. Eles não abriram a economia massivamente, tiveram políticas ativas industriais.

Eu fico pasmo de ver as pessoas defenderem que tem que haver fim dos subsídios para industrialização. O Brasil está chegando no trágico, as discussões estão completamente fora de seu contato com a realidade do mundo.

Qual o papel do Estado no desenvolvimento industrial?

Luiz Gonzaga Belluzzo: A Europa está preocupada com o avanço tecnológico, a indústria 4.0, que só vai avançar se, além de ter instituições capazes em ciência e tecnologia, conseguirem transferir isso para as empresas. Por causa da financeirização, isso não acontece espontaneamente, é preciso criar horizonte para que as empresas possam crescer.

Estamos no avesso do que a indústria brasileira precisa para se recuperar, que tem muito a ver com a visão das pessoas que estão no poder a respeito do mundo, economia e sociedade. O mundo inteiro está preocupado com a letargia da economia. Os países estão retomando uma ação mais enérgica dos Estados nacionais no sentido de promover políticas que deem dinamismo à economia, que faça ela se mover.

O senhor enxerga algum cenário possível de recuperação?

Luiz Gonzaga Belluzzo: É preciso definir o setor onde é possível ter mais vantagem, os que são mais sensíveis à demanda que o País vai criar pelo investimento, por exemplo, na infraestrutura. Não dá para fazer um projeto de industrialização que abranja todos os setores. O Brasil tem um agronegócio dinâmico e tecnificado. Como eu aproveito esse dinamismo para mobilizar a reindustrialização brasileira? Como uso a carência em infraestrutura para gerar investimento, renda e demanda para a economia brasileira?

É um plano possível, mas tem que ter um programa. O Brasil está numa situação muito difícil. Como a indústria regrediu, as exigências da recuperação são muito maiores. E no governo não se fala em reindustrialização.

A discussão sobre se vai crescer 1,5% ou 2% é absolutamente desprezível. Qual é o projeto para crescimento da economia brasileira dentro do contexto mundial? O Brasil tem que se livrar de preconceito de que governo não pode gastar. Você tem renda se alguém está gastando na frente, gerando emprego. Quem tem o controle do crédito e dos meios de produção é que determina a renda. É o Estado ou as empresas que fazem isso.



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