As seleções de futebol são o retrato da nova Europa? – IREE

Análises e Editorial

As seleções de futebol são o retrato da nova Europa?

12 de junho de 2026

A Copa do Mundo de 2026 expõe um paradoxo que vai além das quatro linhas. Enquanto governos europeus adotam medidas mais rígidas para controlar a imigração, muitas das principais seleções do continente são formadas por jogadores filhos ou netos de imigrantes, refletindo transformações demográficas, culturais e históricas que marcaram a Europa nas últimas décadas.

A França é um dos exemplos mais emblemáticos desse fenômeno. Estima-se que cerca de dois terços do elenco francês tenham origem familiar africana. A equipe reúne atletas com raízes em países como Camarões, Mali, Argélia, Benin, Congo, Costa do Marfim, Senegal e Mauritânia.

Entre eles estão Kylian Mbappé, filho de pai camaronês e mãe de origem argelina; Ousmane Dembélé, cujas origens familiares passam por Mauritânia e Mali; Aurélien Tchouaméni, descendente de camaroneses; Ibrahima Konaté, filho de malineses; Jules Koundé, filho de pai beninense; Randal Kolo Muani, com raízes no Congo; Désiré Doué, descendente de pai marfinense; e Michael Olise, que possui ascendência nigeriana e argelina.

 

 

O fenômeno, no entanto, não se limita à França. Seleções como Inglaterra, Alemanha, Holanda, Bélgica e Suíça também contam com jogadores nascidos em outros países ou descendentes diretos de imigrantes.

Essa diversidade é resultado de processos históricos que incluem a expansão colonial europeia, a exploração econômica de territórios ultramarinos e sucessivas ondas migratórias ao longo do século XX e início do século XXI. Em muitos casos, as antigas relações coloniais contribuíram para a formação de comunidades migrantes que hoje fazem parte da sociedade europeia.

Apesar de serem fundamentais para o sucesso de suas seleções, muitos desses atletas continuam tendo sua identidade nacional questionada. Quando vencem, são apresentados como símbolos do orgulho nacional. Quando perdem, frequentemente são alvo de ataques racistas e têm sua origem familiar usada para colocá-los na condição de estrangeiros, mesmo tendo nascido e crescido nos países que representam.

Após eliminações recentes da França em competições internacionais, por exemplo, atletas negros foram alvo de ataques racistas nas redes sociais e em setores da imprensa, reacendendo debates sobre identidade nacional, integração e discriminação.

O contraste se torna ainda mais evidente diante do cenário político europeu. Na França, o debate sobre imigração tem incluído propostas para endurecer regras de permanência e restringir o acesso de estrangeiros a benefícios sociais. Na Alemanha, autoridades reforçaram o controle das fronteiras em resposta ao aumento dos pedidos de asilo. No Reino Unido, protestos anti-imigração reuniram milhares de pessoas em 2025. A União Europeia, por sua vez, tem avançado em propostas para acelerar deportações e ampliar mecanismos de retorno de migrantes, incluindo a possibilidade de criação de centros de processamento fora do território europeu.

Dessa forma, o futebol oferece uma imagem de união que nem sempre se repete fora das quatro linhas. Enquanto as seleções celebram a diversidade como parte de sua força, o continente segue dividido sobre o lugar que imigrantes e seus descendentes devem ocupar na sociedade europeia.



Por IREE

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