6 de março de 2025
Identidade é uma palavra central nas negociações simbólicas e na manutenção dos regimes discursivos hegemônicos, havendo hoje um intenso debate sobre a dimensão e participação da ideia de identidade na construção das partilhas públicas. Para ajudar a pensar nuances e complexidades do tema, trago aqui um filme e uma exposição.
Se o tema vem pautando muitas conversas, manter acesa a chama do diálogo é algo que não pode ser retirado do horizonte das trocas. Particularmente, não gostaria de tomar a discussão em termos que considero um tanto quanto maniqueístas, em que os lados se colocam em posições opostas, com perspectivas “identitária” ou “anti-identitária”. O termo me parece, de entrada, ter conotações complicadas. Prefiro pensar em uma terminologia que leve em conta a identidade como algo vivo, pulsátil, múltiplo, uma “política da identidade” que sustente as marcas singulares de um lugar de enunciação e de um território. Considero que precisamos construir coletivamente um pensamento que não seja sem identidade (como se o sujeito fosse algo etéreo) e nem eclipse sua mobilidade.
Impossível negar que o decolonialismo está abrindo caminhos para o entendimento dos impactos do colonialismo nos âmbitos da política e da arte. Também não há como não acolher a crítica ao imperialismo que domina e oprime mediante regimes discursivos, campo agora partilhado com atores que não aceitam mais o exercício de um poder que reproduz e reforça as desigualdades relacionadas a classe, gênero e raça.
Muitos autores já abordaram a “virada decolonial” que vem acontecendo de forma paulatina no sistema da arte brasileira contemporânea, com o surgimento expressivo de artistas que explicitam em suas poéticas as temáticas decoloniais, e a criação coletiva de espaços de representatividade como exposições, premiações, debates, livros e residências artísticas. Trata-se de uma mudança estrutural que acontece em vários países, revelada, por exemplo, no documentário “Dahomey” de Mati Diop, que expõe a necessária discussão sobre a reintegração, aos países explorados por colonizadores europeus, de peças culturais saqueadas, resgate de itens históricos de vital importância para a restituição da identidade cultural. O filme acompanha o retorno à origem de 26 tesouros reais do Reino de Daomé, saqueados por tropas coloniais francesas em 1892. Além da narração, que se dá criticamente, há também debates entre estudantes da Universidade de Abomey-Calavi. O lugar da enunciação se localiza como uma voz decisiva que sussurra o essencial: a voz brota dos tesouros culturais saqueados que adquirem o estatuto de sujeitos da história, frente ao saque perpetrado pelos invasores.
Não por acaso, o lugar de sujeito é central para a psicanálise. O tempo e o lugar em que estamos nos convocam a recolocar a ideia de sujeito, pois é preciso acolher a ideia de que não existe sujeito neutro. O sujeito da enunciação porta uma verdade que tem corpo e abriga questões do território. Para que a psicanálise não perca o bonde da história e possa responder com ética e à altura, é preciso que saia do refúgio do consultório e encare uma sociedade cujo pacto social se deu por uma ideia de exclusão e identidade universal, como assinala o psicanalista Douglas Barros: “O colonizador europeu é o primeiro identitário da história moderna”.
Uma exposição fundamental – Mupotyra: Arqueologia Amazônica – foi abrigada no Museu Brasileiro da Escultura e da Ecologia (MuBE), com curadoria de Carla Gilbertoni, Naine Terena, Eduardo Góes Neves, Guilherme Wisnik e Ricardo Cardim. Em Nheengatu, a “língua-geral” amazônica, Mupotyra significa “florescer”. O texto curatorial explica que a questão central da exposição foi, por meio da arqueologia, revisitar o passado como maneira de se repensar a história, e, assim, imaginar novos futuros. A mostra também recolocou a ideia de sujeito e revelou várias teias de relações multiespecíficas entre plantas, animais e humanos. Nessa chave, o patrimônio biocultural e a floresta amazônica podem ser lidas como uma espécie de monumento coletivo, marcado pela cultura da diferença e da abundância – paradigmas difíceis de compreender pelo pensamento homogeneizante do capitalismo. A exposição trouxe parte do acervo de peças do Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de São Paulo (MAE-USP), como artefatos arqueológicos, especialmente das culturas Marajoara e Tapajônica, além de conjuntos etnográficos de povos indígenas que vivem atualmente no território amazônico, e obras de artistas indígenas contemporâneos – como Denilson Baniwa, Gustavo Caboco Wapixana, Keila Palikur, Isaías Miliano, Jaider Esbell e Tainá Marajoara – que abrigam forte sentido da identidade indígena.
Estamos em um ponto decisivo, em que não há mais como recusar a identidade em nome da alteridade. O reconhecimento da lacuna território-tempo entre o surgimento da psicanálise e o tempo do agora torna necessário que a escuta aconteça também além do consultório, com a dimensão clínica sendo levada ao encontro do mundo. Trata-se de reinventar Freud a partir de sua genialidade como pensador da cultura. E, não apenas, como crítica da cultura a psicanálise deve ir além, como fez Jacques Lacan.
Félix Guattari perguntou à psicanalista Isildinha Baptista Nogueira, quando de sua ida à França: “Por que você quer usar a psicanálise para pensar a subjetividade do negro?”. A resposta, decidida e radicalmente humana, ainda ecoa e ensina: “A psicanálise não serve para pensar a humanidade e a cultura? Então, eu sou a humanidade”.
Os artigos de autoria dos colunistas não representam necessariamente a opinião do IREE.
Bianca Coutinho Dias
É psicanalista, escritora, ensaísta e crítica de arte, atua no território multidisciplinar da psicanálise, literatura, filosofia, teoria e prática artística. Mestre em Estudos Contemporâneos das Artes pela Universidade Federal Fluminense - UFF (2017). Especialista em História da Arte pela Faculdade Armando Alvares Penteado - FAAP (2011).
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