1 de julho de 2026
“Surrealismos: arte para além da razão” é uma exposição histórica que – com o livro produzido no seu âmbito – adensa um diálogo que, por mais de 100 anos, encontra eixo no tempo. A partir de novas relações, a mostra de curadoria de Max Perlingeiro e Tadeu Chiarelli – que abre as atividades da nova casa da Pinakotheke em São Paulo e acontece até 15 de agosto – se revela como uma das mais consistentes e interessantes exposições realizadas no país sobre o surrealismo. Trata-se de um verdadeiro banquete visual forjado daquilo que está para além da razão, que nos coloca diante de certa invenção do delírio e, também, do delírio como invenção.
Dada a rara oportunidade, apresento a extensa lista de artistas presentes na exposição, divididos em 3 grupos. No primeiro, temos artistas europeus: Alberto Giacometti, André Masson, Arpad Szenes, Ferdinand Desnos, Fernand Léger, Francis Picabia, Giorgio de Chirico, Hans Bellmer, Henry Moore, Jean Arp, Jean Cocteau, Joan Miró, Leonor Fini, Léon Tuntundjian, Marc Chagall, Marcel Duchamp, Louise Bourgeois, M.C. Escher, Max Ernst, Pablo Picasso, René Magritte, Salvador Dalí e Victor Brauner.
No grupo de artistas latino-americanos: Antonio Berni, Carlos Mérida, Diego Rivera, Grete Stern, Leonora Carrington, Matilde Poulat, Ricardo Salas, Roberto Matta, Rufino Tamayo e Wifredo Lam. Dentre os brasileiros, temos modernistas e contemporâneos: Alberto da Veiga Guignard, Alex Cerveny, Athos Bulcão, Cícero Dias, Cláudio Cretti, Emiliano di Cavalcanti, Erika Verzutti, Farnese de Andrade, Flávio de Carvalho, Flávio-Shiró, Helios Seelinger, Ismael Nery, Jorge de Lima, Kátia Maciel, Lenora de Barros, Letícia Parente, Lia Chaia, Maria Martins, Octávio Ferreira de Araújo, Oswaldo Goeldi, Sergio Lima, Tarsila do Amaral, Tunga, Vicente do Rêgo Monteiro, Walter Lewy e Zina Aita.
O terceiro núcleo apresenta obras de Man Ray, Francesca Woodman, Imogen Cunningham, Minnie Evans – autodidata afro-americana, uma das primeiras artistas negras exposta no Whitney Museum – e Préfète Duffaut – renomado pintor haitiano do século XX.
Os desafios de envelhecer no Brasil
São muitos os surrealismos e a mostra preserva o encantamento de quem pôde produzir, operando do espanto e da desnaturalização das coisas. Impossível não pensar aqui na abertura para a dimensão dos sonhos e do inconsciente como discussão fulcral para questões voltadas ao surrealismo. De formas secretas da natureza, passando por certa deformação da presença dos objetos até o pensamento em desordem que encontra na arte um modo de sistematizar o devaneio e mostrá-lo ao mundo, os artistas abrem-se ao mistério que se debruça aí, e encontram na arte um caminho para nos despojar corporalmente das formas essenciais, conduzindo-nos a metamorfoses, fazendo esquecer uma realidade dada de antemão. Tudo parece criar sentidos novos, cada artista e a “conversa” entre eles – proporcionada no conjunto da mostra – explode sentidos prontos e teorias postas, indo além da classificação das obras e do surrealismo como um gênero único.
A exposição demonstra que, nesse sentido, toda tentativa de encarceramento ou juízo de valor parece tão incompatível com o pensamento crítico contemporâneo quanto outras oposições extremistas a que fomos conduzidos ao longo do tempo: não há divisões estanques. Os artistas fazem vibrar um rico diálogo que dissolve a divisão dualista do mundo, entre razão e desrazão, e acaba por incluir o universo de possíveis que habitam o intervalo entre seus polos – a “zona de indiscernibilidade” de que fala Gilles Deleuze, composta por linhas (não exatamente) divisórias, mas tênues, pulsantes e permeáveis, criando uma rica trama de possibilidades, onde os extremos dão lugar a pontos de passagem, encontros, conexões impensáveis.
Trata-se, como acentuado por Tadeu Chiarelli, de tentar “definir o indefinível” a partir de múltiplas facetas do surrealismo, sustentando as ambiguidades e os enigmas instalados no centro dessa discussão. Sob a chave do surrealismo há artistas de territórios e linguagens diversos, de percursos múltiplos, e essa é a riqueza sintetizada a partir de uma citação precisa de Murilo Mendes: “O surrealismo subsiste justamente como elemento de criação de atmosferas poéticas. Este é o seu forte. E como tal, ele sempre existiu desde o começo do mundo, e continua a dar sua contribuição à temática e ao desenvolvimento de muitas obras de arte”.
Os surrealistas colocam em cena, frontalmente, a relação entre psicanálise e surrealismo. Não há como não evocar aquilo que desperta Sigmund Freud: o encontro com os sonhos, a estrutura fundadora da psicanálise, magistralmente tratada no belíssimo ensaio “Interpretação dos sonhos”. Sua pesquisa sobre o funcionamento inconsciente se amplia, abordando a “Psicopatologia da vida cotidiana”, que trata de outras formas de manifestação do inconsciente: esquecimento, erros, atos-falhos, que revelam o que foi chamado por André Breton de o “pouco de realidade” que nos constitui.
Outro aspecto importante salientado por Tadeu Chiarelli, através do olhar de Michael Lõwy, é o interesse dos surrealistas sobre comunidades não europeias. O caráter mágico dessa produção pode nos ajudar a pensar a arte surrealista de forma contra-colonial. Para o pensador, no surrealismo há uma necessidade de reencantar o mundo através das manifestações mágicas da “arte selvagem”. Embora possamos, a partir disso, encetar longas discussões – que estão sendo travadas no contemporâneo – muito devemos aos surrealistas que, como sublinhado por Walter Benjamin, “estavam mais interessados no pensamento sobre a viagem do haxixe que na viagem do haxixe, ela mesma”. Há aí um jogo importante, que faz e desfaz certezas e parece se sustentar pela dúvida extrema como ética: dúvida de uma realidade unívoca, pronta, consolidada, autorregulamentada por um pensamento único.
Passemos então pelos brasileiros e deixemos ressoar a pergunta que se abre: podemos falar de uma “tradição delirante” na arte brasileira? Aqui, não por acaso, coloco tradição ao lado de delírio. O texto de Dawn Adès refaz o caminho de Breton de pensar a arte surrealista como a justaposição de duas ou mais realidades distantes para criar uma nova imagem. Como sugere João Frayze-Pereira, esse é o mérito da exposição: uma implicação em um modo de pensar “entre-dois”. Ou, na escrita de Thiago Gil Virava, ao pensar a realidade brasileira: cabe pensar algo que é, a um só tempo, sintoma e cura, a ferida e a cicatriz de uma ruptura fundamental que não deixa de olhar para as origens, um enigma antropofágico mesmo.
Os artigos de autoria dos colunistas não representam necessariamente a opinião do IREE.
Bianca Coutinho Dias
É psicanalista, escritora, ensaísta e crítica de arte, atua no território multidisciplinar da psicanálise, literatura, filosofia, teoria e prática artística. Mestre em Estudos Contemporâneos das Artes pela Universidade Federal Fluminense - UFF (2017). Especialista em História da Arte pela Faculdade Armando Alvares Penteado - FAAP (2011).
Leia também
A cidade, a arte e a dimensão política
Continue lendo...
Lançamento do curso do KOPE: A Poesia das Canções de Gil, Caetano e Chico
Continue lendo...
Na Serra do Cipó, a cosmologia do inclassificável de Gisele Camargo
Continue lendo...