Argentina escolhe seu próximo Presidente – IREE

Análises e Editorial

Argentina escolhe seu próximo Presidente

Por Juliana Pithon e Samantha Maia

A escolha do novo presidente da Argentina será decidida no segundo turno da eleição presidencial, que será disputado no dia 19 de novembro de 2023 entre o governista Sergio Massa e o deputado federal de extrema-direita Javier Milei.

A apuração das urnas surpreendeu as previsões, com Massa ficando na frente no primeiro turno, com 36,6% dos votos válidos, seguido de Milei, com 30% dos votos, que aparecia em primeiro nas prévias. O resultado final, no entanto, permanece em aberto, em uma disputa que promete ser acirrada.

Conheça os candidatos e suas propostas

Sérgio Massa (Unión por la Patria)

Atual Ministro da Economia da Argentina, o advogado Sergio Massa é considerado o que há de mais ortodoxo no grupo que está no governo. É ligado historicamente ao peronismo e visto como um político de centro. Foi eleito deputado federal em 1999 e prefeito de Tigre em 2007, uma cidade da província de Buenos Aires.

Massa foi aliado de Nestor Kirchner e chefe de gabinete do governo de Cristina Kirchner. Em 2013, rompeu com o kirchnerismo e se posicionou como adversário do grupo. Tentando se apresentar como um peronismo independente, concorreu nas eleições presidenciais de 2015, vencida por Maurício Macri. Nas eleições de 2019, volta a se aproximar de Cristina e se une à aliança por Alberto Fernández Presidente e Cristina Kirchner vice. Vence como deputado federal, cadeira que ocupou até ser nomeado ministro em 2022.

Suas principais bandeiras de campanha são a estabilização da economia, o fortalecimento das exportações como forma de valorizar a moeda nacional, e crescimento do PIB para combater a pobreza e a inflação. Massa defende uma ampla renegociação de dívidas com credores e a criação de uma mesa de negociação com foco em crescimento, redução da inflação e melhoria dos salários.

Suas propostas incluem o fortalecimento de programas sociais, maior distribuição de renda e investimentos em educação pública, com foco no ensino superior. Massa também defende novos direitos nas leis trabalhistas, reformas no sistema educacional e políticas para reduzir as emissões de gases do efeito estufa e poluentes nas indústrias de óleo, gás e mineração.

Javier Milei (La Libertad Avanza)

Deputado federal por Buenos Aires, o economista Javier Milei é considerado um “outsider” na política. Autodenominado ultraliberal e “anarcocapitalista”, é conhecido por suas ideias e declarações polêmicas. Foi contra a quarentena na pandemia e se posiciona a favor da legalização da venda de órgãos humanos, contra a descriminalização do aborto e pelo fim da educação obrigatória.

Milei foi professor universitário e deu consultoria para grandes grupos financeiros e figuras proeminentes no meio empresarial, como Eduardo Eurnekian, um dos homens mais ricos da Argentina. Em 2017, lançou um programa no YouTube e na rádio onde atacava a corrupção e xingava políticos, o que o levou a ser chamado para programas de TV em horário nobre, onde ganhou fama pelo discurso politicamente incorreto. Em 2021, fundou o partido “A Liberdade Avança”, pelo qual foi eleito deputado.

Suas principais bandeiras de campanha são o corte de gastos públicos para até 10% do PIB, o corte de impostos e a privatização de empresas estatais como a YPF e a Aerolíneas Argentinas. Milei também defende fechar o Banco Central e trazer mudanças que permitam a dolarização a economia argentina.

Suas propostas incluem a redução do número de ministérios de 18 para 8, excluindo pastas como Cultura, Ciência e Meio Ambiente, a retirada de fundos da Conicet, uma agência de pesquisa científica, e uma reforma do setor elétrico. Ele também se posiciona pela liberalização do porte de armas e pela reversão da lei que descriminaliza o aborto no país.

Qual é o atual contexto econômico da Argentina?

O cenário econômico da Argentina é marcado por desafios significativos: o país enfrenta uma inflação extraordinariamente alta, atingindo 115,6% em 12 meses, e uma desvalorização acentuada da moeda, que perdeu quase 40% de seu valor em 2023. O PIB argentino caiu 4,9% no 2º trimestre deste ano. Dados referentes ao primeiro semestre apontam que 40,1% da população esteja vivendo na pobreza, e 9,3% em situação de indigência.

O país depende de importações para sua indústria, e a entrada de dólares está muito atrelada ao desempenho das exportações de commodities agrícolas, que estão em queda por, entre outros motivos, o impacto de uma grave seca e a instabilidade cambial do país. A Argentina mantém dezenas de taxas de câmbio como forma de controlar a saída de dólares do país e ter opções mais baratas para comprar a moeda. O FMI pressiona o governo para unificar as taxas de câmbio, mas há o risco da medida impactar ainda mais a inflação.

O mercado vê com cautela as propostas de Milei de dolarização e fechamento do Banco Central, que levariam a uma perda de controle do governo sobre a política monetária, tornado-a ainda mais dependente das decisões do Banco Central dos Estados Unidos.

Como o resultado pode impactar o Brasil?

O governo brasileiro acompanha com atenção as eleições da Argentina, seu 3º maior parceiro comercial, pois cada resultado representa cenários bastante diferentes para as relações bilaterais.

A retirada da Argentina do Mercosul e a dolarização da economia, propostas por Javier Milei, por exemplo, têm potencial de afetar de forma negativa as exportações brasileiras e prejudicar negociações do Brasil com outros blocos e países.

Já a eleição de Sergio Massa deve representar uma continuidade nas relações com o Brasil, mas a crise argentina continuará representando um grande desafio, com impactos para a economia brasileira, sem perspectivas de mudanças significativas no curto prazo.



Por Samantha Maia

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