4 de maio de 2026
Cresci vendo o mundo pelo ângulo certo, pelo menos era o que eu pensava. Os mocinhos falavam inglês, dirigiam carros enormes e chegavam sempre a tempo de salvar alguém que eu jamais conheceria, numa cidade que eu nunca visitaria, defendendo uma liberdade que eu, criança no Brasil, nem sabia ao certo o que era, mas aprendi muito cedo a reverenciar.
Os vilões tinham sotaque russo ou chinês, viviam em países sem cor e queriam destruir exatamente isso, essa coisa indefinida e sagrada que Hollywood nunca precisou nomear porque já havia me ensinado a sentir. Não foi uma educação política. Foi uma educação emocional, que é o tipo mais eficiente porque não precisa se anunciar como tal. Entra pela tela, pela música, pela adrenalina de uma cena de ação, e se instala antes que qualquer pensamento crítico tenha chance de se formar.
Aprendi a saber, antes de qualquer argumento, de qual lado estava minha simpatia e de qual lado estava meu medo.
Fui à China algumas vezes. E cada vez que voltei trouxe comigo um desconforto que demorei a nomear com precisão. Não era o desconforto do choque cultural, que existe e é real, mas o de uma outra ordem, mais difícil de admitir: o de descobrir que o mapa que me deram na infância estava errado de um jeito muito específico.
Encontrei uma sociedade que cuida dos seus idosos. Encontrei hospitalidade e acolhimento. Encontrei um país que pensa em gerações porque aprendeu, à força, que o tempo é longo e as apostas são altas.
Não estou romantizando um Estado, porque nenhum Estado merece romantização e a China tem suas próprias violências, suas zonas de silêncio, suas contradições que qualquer olhar honesto é obrigado a reconhecer. Mas há uma distância enorme entre um país com contradições, que é todo país que existe, e um inimigo da civilização, que é o papel que me ensinaram a reservar para aquele lugar. Era o país do qual eu deveria ter medo. E nele me senti mais segura do que em muitos lugares que aprendi a chamar de aliados.
Dito e explicado isso, importante notar que décadas depois de Rambos (que eu vi e revi inúmeras vezes), o presidente dos Estados Unidos ameaça anexar o Canadá, fala em comprar a Groenlândia como se fosse um imóvel e reivindica o controle do Canal do Panamá. É é exatamente nesse contexto que o Papa, americano, viaja a Camarões e, sem citar nomes mas sem nenhuma ambiguidade sobre a quem se refere, fala num punhado de tiranos que destinam bilhões à indústria da morte enquanto faltam recursos básicos para curar, educar e restaurar a dignidade humana.
Ele não estava falando da Rússia. Não estava falando da China. E o silêncio daqueles que durante décadas nos ensinaram a apontar para o leste como a direção natural de toda ameaça é, ele mesmo, uma forma de confissão.
Mas quero deixar claro que o problema não é Trump, embora Trump seja o tipo de figura que uma certa mitologia americana jamais deveria ter produzido se a mitologia fosse verdadeira.
O problema real é o que acontece com uma geração inteira educada numa narrativa que lhe ensinou não apenas o quê pensar, mas como sentir, e que agora precisa, em tempo real e sem manual, desaprender o suficiente para enxergar o que esteve sempre diante dos seus olhos. O imaginário não é neutro porque nunca foi concebido para ser neutro. Ele serve para justificar intervenções que precisavam parecer resgates, para legitimar sanções que precisavam parecer princípios, para construir consensos em torno de guerras que precisavam parecer inevitáveis.
A Rússia e a China foram os vilões convenientes de um roteiro que precisava de vilões para que os verdadeiros protagonistas do poder nunca fossem questionados com a seriedade que mereciam. E a eficácia desse arranjo se mede não pelo que nos fizeram acreditar, mas pelo tempo que levamos para duvidar.
O preconceito mais eficaz é o que não precisa se anunciar, o que já virou reflexo antes de virar pensamento. A prova de que este funcionou está em nós mesmos, na rapidez com que ainda sentimos, mesmo depois de tudo que sabemos, que uma notícia sobre a China ou a Rússia merece uma camada extra de desconfiança que não aplicamos automaticamente a uma notícia sobre os Estados Unidos.
Penso nisso quando vejo o Papa apontar para Washington com a serenidade de quem não tem mais nada a perder na equação diplomática. Penso nisso quando vejo aliados históricos dos EUA redesenharem suas alianças com a calma de quem finalmente leu o contrato até a última cláusula. E penso nisso quando imagino o que Nina vai herdar, não apenas um planeta em disputa por potências que jamais foram tão parecidas quanto fingem não ser, mas um modo de ver esse planeta que precisará ser desaprendido antes de poder ser substituído por algo mais verdadeiro.
Os artigos de autoria dos colunistas não representam necessariamente a opinião do IREE.
Danielle Zulques
É Diretora para assuntos de política e sociedade do IREE. Advogada formada pela FAAP e pós-graduada em Ciências Políticas pela FESPSP. É Coordenadora da CAUSA - rede que conecta advogadas a mães em busca de suporte legal.
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