Ao menos não atrapalhem: sobre tragédia, fake news e meio ambiente – IREE

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Ao menos não atrapalhem: sobre tragédia, fake news e meio ambiente

Marcos Rezende

Marcos Rezende
Vice-Presidente do IREE em Brasília



Nem a comoção internacional causada pelas inundações no Rio Grande do Sul nos últimos dias, que deixou um rastro de destruição em 397 cidades com mais de 100 mortos e milhares de desabrigados, foi suficiente para dar freio ao racismo perpetrado aos terreiros no país. Uma influencer evangélica, sem nenhum respeito pelo sofrimento de centenas de milhares de pessoas, usou as redes sociais para culpar as religiões de matrizes africanas pela catástrofe. Numa inequívoca atuação motivada por racismo religioso, a moça afirmou que o que estaria causando as enchentes no sul seria a “ira de Deus” contra o estado com maior número de terreiros do país. De todas as fake news produzidas pela extrema direita, esta me parece uma das mais cruéis. 

O problema maior desta fala – que é criminosa, diga-se! – não está em um discurso que pretende justificar o negacionismo climático do governo gaúcho. Ainda que a maioria das pessoas acredite num Deus que castiga, este não é o caso. Em meu entendimento, o que é mais grave na fala desta influencer está em que, diante do maior desastre climático da história gaúcha, as populações dos terreiros e das comunidades tradicionais, que são as vítimas mais vulneráveis deste episódio, ainda precisam lidar com o ódio de uma parcela dos evangélicos e dos governos de extrema direita que assolam o Rio Grande do Sul.

Segundo o Ministério da Igualdade Racial (MIR), que tem monitorado a situação das comunidades tradicionais e de terreiros e enviado ajuda humanitária e doações, o Rio Grande do Sul tem sete mil famílias quilombolas, 344 famílias ciganas e aproximadamente 1300 famílias de terreiros, das quais pouco se tem notícia. Segundo levantamento da Funai, 1.846 famílias indígenas foram atingidas diretamente, 5.415 indiretamente e 148 famílias estão ilhadas na Terra Indígena Rio da Várzea, no município de Liberato Salzano.

O site Nonada Jornalismo, uma organização que atua na área da cultura, tem noticiado a atuação de pais e mães de santo que, apesar das dificuldades, têm dado assistência e recolhido doações às populações tradicionais. Os relatos são dolorosos, não apenas porque os terreiros e comunidades tradicionais foram destruídos, mas porque essas populações têm sido preteridas no atendimento emergencial. “Nós, das comunidades de matriz africana, não estamos tendo suporte dentro do município com as autoridades. Se hoje temos uma roupa, uma coberta, é por conta dos nossos irmãos de axé e dos moradores da vizinhança”, relata a mãe de santo Ediandra de Obá, que tem reunido líderes de terreiros em Porto Alegre e cidades da região metropolitana, para oferecer socorro aos desabrigados. Ainda que algumas dessas comunidades, localizadas nos altos dos morros, tenham sido poupadas das inundações, as populações tradicionais também precisam lidar com a falta de água potável, gás, a escassez de gêneros alimentícios nos mercados e de remédios, com o agravante de serem preteridos pelas instituições públicas. O que demonstra que o racismo e o preconceito imperam até mesmo num cenário de tragédia e desolação.

As enchentes tem nos imposto uma reflexão sobre as muitas formas de matar, orquestradas pela extrema direita. Neste caso, não me refiro somente à avalanche de postagens mentirosas protagonizada pelos bolsonaristas, que elegeram prefeitos, deputados, vereadores e o governador no Rio Grande do Sul, sobre a situação dos mortos e desabrigados, que atrapalharam sobremaneira a ajuda humanitária às população. É preciso registrar que o desastre no sul do país é consequência da atuação do governador Eduardo Leite (PSDB), que está no seu segundo mandato e que, junto com a Assembleia Legislativa estadual, vem protagonizando o desmonte das leis de proteção ambiental no RS. Em 2019, o governador flexibilizou o Código Ambiental do estado com intuito de beneficiar empresários e “passar a boiada”, conforme fez o deputado federal Ricardo Salles, durante todo o tempo em que foi ministro do governo Bolsonaro. 

O fato é que foram modificadas 480 normas para garantir, em alguns casos, o autolicenciamento de empresas em áreas de proteção, o que comprometeu severamente o quadro ambiental no estado. Isso sem falar na falta de iniciativas para mitigação da degradação ambiental, políticas de investimento em infraestrutura e planejamento urbano sustentável – que são ações necessárias para preparar as cidades para as mudanças climáticas.

De acordo com o Sistema Integrado de Planejamento e Orçamento da União (Siop), que registra a destinação das verbas federais, apenas três deputadas, dos 31 deputados gaúchos, destinaram verbas para mitigação de desastres ambientais. São elas, Maria do Rosário e Reginete Bispo, ambas do Partido dos Trabalhadores, que disponibilizaram juntas R$ 800 mil para ações de educação ambiental, além de Fernanda Melchionna (PSOL) que destinou R$ 1,7 milhão para a elaboração de projetos de prevenção à erosão costeira e para gestão socioambiental.

Outro ponto importante é a atuação liderada pessoalmente pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que fez com que o governo federal disponibilizasse mais de 72 bilhões de reais em ações emergenciais. A mobilização presidencial tem influenciado que outros países do mundo também enviem ajuda humanitária às vítimas das enchentes. Essa rede de solidariedade conta com a atuação de cidadãs e cidadãos brasileiros, muitos de vida simples, que se mobilizaram para arrecadar alimentos, água, colchões e agasalhos  

O fato é que não dá para pensarmos apenas nas iniciativas necessárias para evitar a morte de pessoas. A ideia de que “não é hora de acharmos culpados” pela maior tragédia climática – anunciada! – do sul do país é mais uma estratégia de escamotear a realidade, tão comum à extrema direita. Há culpados, sim! Há responsáveis, sim! Negar a responsabilidade do negacionismo climático dos governos bolsonaristas é impedir que a população entenda que a gestão pública é o que garante (ou não) a vida das pessoas. Ainda que o momento exija pensarmos em alternativas com unidade, é preciso que se aponte que o Brasil inteiro está pagando – e ainda vai pagar muito mais – o preço desta tragédia. Afinal de contas, quando o governo federal faz um esforço de solidariedade dessa dimensão, visando amenizar o sofrimento das pessoas e reconstruir um estado inteiro, significa que os outros estados do país viverão momentos muito difíceis.   

Não é de hoje que o bolsonarismo tem jogado contra o Brasil. Neste caso, tem prejudicado de forma sistemática um dos estados da federação onde tiveram a maior quantidade de votos, espalhando fake news, trazendo prejuízos, desinformação e medo às pessoas que tem feito todos os esforços para salvar o sul do Brasil, ainda que há pouco tempo uma parte dos gaúchos pensassem em se separar do Brasil. Relembrar é viver, como já dizia a minha avó.

Enquanto não houver a compreensão de que a mudança climática nos exige a implementação de políticas públicas voltadas à prevenção e mitigação dos desastres ambientais e que estas políticas são de responsabilidade dos que administram o Estado, continuaremos assistindo ao show de horrores que a extrema direita vem proporcionando. É lamentável que diante de uma tragédia desta monta, quando o país precisa estar unido em prol dos desabrigados, os bolsonaristas estejam atrapalhando as ações que salvam vidas e ainda, de forma seletiva, estejam escolhendo quem recebe ou não a ajuda que tem chegado ao Rio Grande do Sul – excluindo os terreiros e as comunidades tradicionais. Que a sanha bolsonarista que se agrada com sangue e corpos estendidos, siga ao menos a máxima popular: se não pode (nem quer) ajudar, que ao menos não atrapalhe.



Os artigos de autoria dos colunistas não representam necessariamente a opinião do IREE.

Marcos Rezende

É vice-Presidente do IREE em Brasília, historiador e mestre em Gestão Social do Patrimônio (EA/UFBA); Doutorando em Direitos Humanos e Cidadania (PPGDHC/UNB), Fundador e Coordenador Executivo do Coletivo de Entidades Negras (CEN-Brasil)

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