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Antes que eles cheguem

9 de junho de 2026

Danielle Zulques

Danielle Zulques
Diretora de política e sociedade do IREE



Preciso ser honesta desde o início: acredito em extraterrestres. Não como metáfora, não como exercício filosófico, não com aquele ceticismo confortável de quem acha graça do assunto mas no fundo não leva a sério. Acredito de verdade, com a convicção tranquila de quem olha para a vastidão do universo e acha matematicamente improvável que toda aquela imensidão exista só para nos contemplar. Torço pela chegada deles. Acompanho os casos, os vídeos, as audiências no Congresso americano, os arquivos desclassificados. Sou, assumidamente, fã.

É exatamente por isso que estou preocupada.

Na quarta-feira, estreia nos cinemas brasileiros Dia D, novo filme de Steven Spielberg sobre extraterrestres. O diretor declarou ao Fantástico que o longa representa sua conclusão final de que não estamos sozinhos no universo, o que é uma afirmação considerável para alguém cujo trabalho consiste precisamente em convencer o público de que coisas improváveis são verdadeiras. Nas redes, a divulgação já foi suficiente para reacender o debate sobre o Caso ET de Varginha, episódio de 1996 em que moradores de uma cidade mineira afirmaram ter visto seres não humanos capturados pelo Exército Brasileiro, e Spielberg afirmou acreditar que o governo norte-americano se envolveu diretamente no caso, enviando representantes ao Brasil para retirar as supostas criaturas. O Brasil, como sempre, se descobriu no centro de um enredo maior do que imaginava.

 

 

O timing foi aprimorado pela realidade doméstica. Na mesma semana, um influenciador paranaense chamado Mayk Leão filmou do seu sítio em Campo Largo, na região metropolitana de Curitiba, o que descreveu como uma nave alienígena gigantesca pairando sobre a mata fechada próxima a um rio, emitindo luzes coloridas e um som semelhante ao de engrenagens. O vídeo mobilizou ufólogos, a Força Aérea Brasileira e, segundo documentos que circularam nas redes, a própria ABIN, e levou Mayk Leão de obscuro criador de conteúdo sobre resgate de animais a fenômeno nacional com mais de dois milhões e meio de seguidores em questão de dias. Os internautas mais céticos logo notaram que os sons registrados e os desenhos que Mayk fez da nave guardavam semelhanças perturbadoras com o trailer oficial de Dia D, levantando a hipótese de que o fenômeno intergaláctico pudesse ser, na prática, uma campanha de marketing. A FAB informou que nenhum objeto desconhecido foi detectado nos seus radares, o que ou confirma a inexistência do fenômeno ou confirma exatamente o que os entusiastas sempre disseram sobre os radares.

Seja como for, o episódio captura com precisão involuntária o espírito do momento.

Nos últimos meses, o Pentágono liberou dezenas de arquivos sobre objetos voadores não identificados prometendo “transparência sem precedentes”, o que na prática significou fotografias desfocadas e transcrições de cockpit que não resolvem nada, mas alimentam tudo. Profetas digitais repetem com crescente convicção que 2026 é o ano da grande revelação, não apenas sobre ETs, mas sobre os segredos das finanças, da religião, das estruturas de poder que mantêm a humanidade no escuro há séculos. Tudo junto, numa revelação cósmica, abrangente e extraordinariamente conveniente para qualquer teoria que precise de um culpado universal e de uma salvação que dispense esforço coletivo.

A questão relevante, diante de tudo isso, não é se os alienígenas existem. Para mim, essa parte já está resolvida. A questão é o que revela, sobre nós, a intensidade com que desejamos que apareçam para resolver o que não conseguimos resolver sozinhos.

A humanidade tem uma relação longa e bem documentada com a necessidade de depositar em outros a responsabilidade pela própria salvação. Durante milênios, essa função coube aos deuses, entidades superiores às quais se atribuía não apenas a criação do mundo mas também a capacidade de intervir nos seus rumos quando os humanos, invariavelmente, os conduzissem ao caos. Depois vieram os profetas, os messias, os líderes providenciais que carregariam sobre os ombros o peso coletivo que ninguém queria assumir individualmente. No século XX, a função migrou para as ideologias e para as revoluções que prometiam refundar a sociedade a partir de um ponto zero redentor, e depois para a tecnologia, que resolveria tudo sem que precisássemos mudar nada de nós mesmos. Cada vez que um salvador decepciona, a humanidade não revisa a necessidade do salvador. Ela simplesmente procura um novo endereço para depositá-la. E hoje, num momento em que os deuses estão em crise, os líderes desacreditados, as ideologias esgotadas e a tecnologia revelada como tão ambígua quanto tudo o mais que criamos, o endereço mudou de galáxia.

Os alienígenas ocupam hoje o lugar simbólico que já foi ocupado pelos deuses, e a estrutura da crença é a mesma: seres superiores, moralmente mais avançados, capazes de enxergar soluções que nós mesmos não conseguimos encontrar, que nos observam com benevolência e aguardam o momento certo para intervir. A narrativa é reconfortante precisamente porque nos absolve, porque sugere que há uma inteligência maior acompanhando nossa trajetória e que, no momento em que as coisas ficarem graves demais, alguém virá corrigir o curso. É o messias secular de uma civilização cansada de si mesma e, mais do que isso, cansada de se responsabilizar por si mesma. E há uma lógica extraordinariamente conveniente nessa fantasia, porque ela nos poupa de uma pergunta muito mais incômoda: o que fizemos, ou deixamos de fazer, para que a situação chegasse até aqui?

É aqui que a minha fé em extraterrestres e a minha preocupação com a humanidade se encontram. Porque se eles existem, e eu acredito que existem, então provavelmente são suficientemente avançados para avaliar o estado de conservação de um planeta. E o nosso estado, sendo honestos, não é exatamente o que gostaríamos de mostrar a uma visita. Desmatamos florestas, aquecemos o clima, conduzimos extinções em série, acumulamos guerras por recursos que já sabíamos escassos. Não precisamos imaginar uma civilização hostil para ter motivo de preocupação. Basta imaginar uma civilização criteriosa. O problema não é que eles possam nos invadir. O problema é que podem simplesmente nos achar irresponsáveis demais para merecer contato e, convenhamos, não seria uma conclusão difícil de alcançar.

A obsessão contemporânea com a chegada de seres de outros mundos revela, no fundo, menos sobre a existência deles e muito mais sobre a forma como enxergamos a nós mesmos, expondo uma crise silenciosa de confiança na política, na ciência, nas instituições e, sobretudo, na capacidade humana de construir futuros desejáveis sem auxílio de entidades externas. É sintomático que seja mais fácil imaginar uma civilização cruzando galáxias para resolver nossos problemas do que sustentar a crença de que nós mesmos seríamos capazes de fazê-lo. Essa inversão, mais do que qualquer arquivo desclassificado do Pentágono, é o fenômeno que realmente merece investigação.

Dia D estreia na quarta. O Caso Varginha voltou a circular nas timelines. Mayk Leão se tornou um fenômeno nacional filmando luzes numa mata paranaense que podem ser uma nave, podem ser um drone, podem ser uma campanha publicitária de Spielberg, e a ABIN achou importante entrar em contato. E eu, que acredito piamente que não estamos sozinhos neste universo, torço para que eles nos deem um tempo ainda. Não porque não queira o encontro — quero demais. Mas porque antes que eles cheguem, precisamos urgentemente cuidar do quintal.



Os artigos de autoria dos colunistas não representam necessariamente a opinião do IREE.

Danielle Zulques

É Diretora para assuntos de política e sociedade do IREE. Advogada formada pela FAAP e pós-graduada em Ciências Políticas pela FESPSP. É Coordenadora da CAUSA - rede que conecta advogadas a mães em busca de suporte legal.

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