Andrei Rodrigues: A democracia esteve sob risco – IREE

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Andrei Rodrigues: A democracia esteve sob risco

Em entrevista ao Podcast Reconversa que foi ao ar no dia 2 de outubro, o Diretor-Geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, falou sobre o funcionamento da instituição, deu detalhes sobre como acompanhou os fatos que desencadearam nos ataques de 8 de janeiro e alertou sobre os riscos que vê à democracia.

“Eu não tenho dúvida de que a democracia esteve sob risco, estamos em processo de investigação, ainda se vê movimentos perigosos acontecendo”, disse ele.

Segundo Rodrigues, a expectativa é que os resultados das investigações sobre a invasão das sedes dos Três Poderes em Brasília sejam apresentados à Justiça em alguns meses.

“Estamos investigando um fato e não vamos sossegar enquanto não desvendarmos todo esse desenho. Quem idealizou, mandou, pagou, quem fez ou quebrou. Nosso esforço vai no sentido de identificá-los e levá-los à Justiça com as provas que nós encontramos, sem perseguição, investigando os fatos que aconteceram”, afirmou. 

O Diretor-Geral da PF destacou que um dos principais objetivos da sua administração é restaurar a institucionalidade da corporação, reforçar o compromisso com a legalidade e encerrar qualquer associação da PF com a política partidária.

“A PF tem trabalhado com transparência, respeitando os princípios da ampla defesa e garantia dos direitos fundamentais, além de manter um rigoroso padrão de qualidade nas investigações, com foco na obtenção de provas sólidas.”

O Reconversa é apresentado pelo jornalista Reinaldo Azevedo e pelo Presidente do IREE, Walfrido Warde. As entrevistas vão ao ar toda segunda-feira, ao meio-dia, no Youtube. O vídeo completo pode ser visto aqui.

Confira a seguir os destaques do episódio!

“Era patente a todos que o movimento era crescente e violento”

Para Andrei Rodrigues, não é possível compreender o que aconteceu em 8 de janeiro sem um olhar desde as eleições. Segundo ele, que foi chefe de segurança do então candidato Lula da Silva, nunca houve tanta animosidade no período eleitoral. “Prendemos mais de 30 pessoas na campanha por ameaças e outros delitos. Ali começa a crítica ao sistema eleitoral, movimentos contra a Suprema Corte e o TSE”.

Rodrigues destaca acontecimentos graves como o quebra-quebra em 12 de dezembro de 2022, dia da diplomação do Presidente Lula, quando automóveis foram incendiados e a sede da PF foi invadida em Brasília, e a tentativa de explosão de um caminhão tanque no aeroporto de Brasília em 24 de dezembro.

“Era patente a todos que o movimento era crescente e violento. Não precisa ser gênio para compreender o cenário, qualquer pessoa, ainda mais sendo agente de segurança pública, tinha o dever de saber a gravidade do que estávamos enfrentando.

“É de uma absurdidade dizer que eu sabia e não avisei ninguém”

O Diretor-Geral da PF respondeu às críticas de que não teria tomado providências sobre os riscos de invasão dos prédios públicos. “A gente via em fontes abertas, bastava entrar em qualquer rede social, os caras estavam dizendo que iam tomar o poder, tinha cem ônibus chegando, eles vão fazer o quê? É de uma absurdidade dizer que eu sabia e não avisei ninguém, ou só informei na véspera.” 

Rodrigues destacou que, pelas atribuições das instituições, a Polícia Militar é responsável pelo policiamento ostensivo, e que o governo do DF foi avisado sobre a gravidade do movimento.

Ali nos acampamentos não tinha senhorinha com bíblia, tinham criminosos, bandidos urdindo um golpe de Estado. Bombas e dinamites saíram ali do acampamento do Quartel General, que já deveria ter sido desfeito há muito tempo.” 

“Ficou acertado que haveria contenção dessas pessoas”

Segundo Rodrigo, foi por entenderem – ele e o Ministro da Justiça, Flávio Dino – que os cuidados da Segurança do Distrito Federal para conter as ameaças não estavam no ritmo que deveriam, que foi convocada uma reunião no dia 7 de janeiro.

“Foi então que eu me reuni com o governo do Distrito Federal, com a Secretaria de Segurança Pública, representantes da PM, da Polícia Civil, e coloquei claramente: olha, esse povo que está lá é criminoso, eles vão invadir prédios públicos da Praças dos Três Poderes, e a PM não pode deixar eles saírem lá do acampamento. E isso está documentado. Encaminhei para o Ministro e ele encaminhou para o Governador do DF. Ficou acertado que haveria uma contenção dessas pessoas”, contou o Diretor-Geral da PF.

“Para o meu espanto, o que se viu foi a polícia escoltando os criminosos, e na barreira de contenção, uma brincadeira, meia dúzia de policiais com spray. O que se viu foi a barbárie, aquele absurdo”, complementou.

Cooperação internacional

Andrei Rodrigues falou sobre como a cooperação internacional é um ponto central na sua gestão, e deu como exemplo a cooperação com as autoridades americanas na investigação sobre venda de jóias, que eram patrimônio da União, nos Estados Unidos.

“Não há como enfrentar o crime organizado sem ter cooperação internacional. A gente atua hoje em 20 países, e posso asseverar que não tem nenhuma cooperação secreta com a CIA.”

Relação com o Presidente Lula

Rodrigues foi chefe da segurança da equipe de Dilma Rousseff na eleição de 2010 e secretário Extraordinário de Segurança para Grandes Eventos, responsável pela segurança da Copa do Mundo de Futebol de 2014 e dos Jogos Olímpicos e Paralímpicos Rio 2016.

Em julho de 2022, foi destacado para cuidar da segurança de Lula durante a campanha, momento em que Rodrigues conheceu o Presidente, com quem, segundo ele, não mantém nenhuma relação pessoal.

“Eu tenho uma relação absolutamente profissional, não podia ser diferente, com a hierarquia que nos separa, com o maior respeito e admiração que eu tenho pelo Presidente. Tenho uma trajetória de mais de 20 anos dentro da instituição que me habilitam a determinadas funções, e eu acho que essa da Direção-Geral da PF é uma delas.”

A Polícia Federal é política?

Andrei Rodrigues defendeu que argumentações sobre a Polícia Federal ser instrumentalizada politicamente não têm sustentação.

“É muito caro a nós manter a integridade. Se há acusação, que diga onde e como, represente para a corregedoria, para o controle externo, que nós vamos apurar. Agora, de maneira irresponsável, eu não aceito essa crítica.”

 



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