André Roncaglia: O sonho americano não é ter produtos baratos, é ter poder econômico – IREE

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André Roncaglia: O sonho americano não é ter produtos baratos, é ter poder econômico

15 de abril de 2025

Em entrevista ao Podcast Reconversa que foi ao ar no dia 15 de abril, o diretor-executivo do Brasil no Fundo Monetário Internacional (FMI) André Roncaglia, analisou a política tarifária de Donald Trump e afirmou que a estratégia não tem a ver com a busca por produtos mais baratos, e sim tentar recuperar a liderança econômica e tecnológica, mesmo que isso tenha um custo.

André Roncaglia leciona economia há 15 anos, com experiência no mercado financeiro e em consultoria econômica. Com graduação e mestrado pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e doutorado em Economia do Desenvolvimento pela Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo (FEA-USP), é professor da Universidade de Brasília (UnB), pesquisador associado do Instituto Brasileiro de Economia, unidade da Fundação Getúlio Vargas (Ibre-FGV) e foi professor da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Em agosto de 2024, foi indicado pelo Ministério da Fazenda para ocupar o posto de diretor-executivo do FMI, uma posição importante para representar os interesses do Sul Global.

O Reconversa é apresentado pelo jornalista Reinaldo Azevedo e pelo Presidente do IREE, Walfrido Warde. As entrevistas vão ao ar toda terça-feira, ao meio-dia, no YouTube. O vídeo completo pode ser visto aqui. 

Confira a seguir os destaques do episódio!

EUA, um Estado desenvolvimentista

Questionado sobre a mudança na política econômica norte-americana em direção a um modelo protecionista e de planificação, André Roncaglia destacou que os Estados Unidos sempre foram um Estado desenvolvimentista, com grandes investimentos públicos em universidades, inovação e tecnologia, que começa, no entanto, a ser dilapidado a partir dos anos 1980. 

“Quando vêm os anos 2010, a gente tem uma certa desacoplagem. A China ganha essa proeminência, começa a questionar o poder dos Estados Unidos como único polo, e o que acontece é que a gente tem a erosão muito acelerada dos princípios do neoliberalismo, quando os Estados Unidos realmente notam que aquela pax americana, baseada no comércio, na ideia de garantir bens de consumo baratinhos para toda a população, aquela sensação de bem estar, ali acabou. E você tem um processo que começa com o Trump e vai culminar com o Biden, de falar que vai fazer um financiamento trilionário da nova economia.”

Livre mercado, desindustrialização e o avanço da China

O economista falou sobre a importância estratégica dos bens intermediários no mercado globalizado e sobre como compreender essa dinâmica foi essencial para a ascensão econômica da China, enquanto os Estados Unidos exportaram suas fábricas para onde a mão de obra era mais barata.

“O problema é que eles confiaram demais que o mercado funcionaria da mesma maneira, seja no setor de bens finais, de bens de insumos, de bens intermediários ou no setor de bens de capitais. Esses setores não são idênticos. E o que acontece? A teoria econômica dos anos 80 e 90, que vira a nova teoria do crescimento, coloca que os bens intermediários são a chave do crescimento sustentado de longo prazo, porque é onde você domina a tecnologia. Quem foi que incorporou isso olhando de maneira planificada para 30, 40 anos? A China.”

A falta de consistência da política tarifária de Trump

Segundo André Roncaglia, a ideia do novo protecionismo dos Estados Unidos é erigir tarifas e deixar o dólar desvalorizado. O economista explicou qual é o arranjo dessa política, mas alertou que é algo difícil de parar em pé, por falta de consistência. Parte desse arranjo inclui atrair milionários para os EUA com isenção de impostos e criar um fundo de reserva em ouro e bitcoins para compensar a desvalorização do dólar. 

“O arranjo é o seguinte, ‘eu vou oferecer segurança, vou oferecer o meu mercado interno’, e os Estados Unidos têm 350 milhões de pessoas, um mercado muito forte. E o que eles querem em troca? Um dólar relativamente fraco, para poder exportar barato e neutralizar o efeito da tarifa”, disse o diretor-executivo do Brasil no FMI. 

O sonho americano não é ter produtos baratos, é ter poder econômico 

Roncaglia destacou que a estratégia econômica de Trump não tem a ver com buscar produtos mais baratos, e sim tentar recuperar a liderança econômica e tecnológica, mesmo que isso tenha um custo. O problema, segundo ele, é achar que essa política pode dar certo apenas com investimentos do setor privado em inovação.  

“Como o Bessent falou, o sonho americano não é ter produtos baratos, é liderança tecnológica, econômica. Poder é dizer para quem está na sua órbita o que interessa ao centro do poder. E é isso que ele está tentando retomar. (…) Mas, de qualquer maneira, é muito difícil, na minha visão, acreditar que a inovação americana vai continuar apenas com base no setor privado.”



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