Amelinha Teles: via crucis – IREE

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Amelinha Teles: via crucis

28 de setembro de 2026

Diego Jandira

Diego Jandira
Violonista e Cientista Social



Maria Amélia de Almeida Teles, conhecida como Amelinha Teles, nasceu em Contagem, Minas Gerais, em 1944, filha de uma família ligada ao sindicalismo e ao comunismo. Essa origem marcou sua trajetória: reuniões políticas e militância partidária fizeram parte do seu cotidiano desde cedo. Ainda jovem, ingressou no Partido Comunista Brasileiro e, anos depois, junto com a irmã Criméia, passou a integrar o Partido Comunista do Brasil.

O golpe civil-militar de 1964 atingiu, logo nos primeiros dias, sua família: o pai foi levado por militares, e as duas irmãs, ao tentar localizá-lo, também acabaram detidas. Esse episódio inaugurou décadas de enfrentamento com o aparato repressivo do Estado. Casada com César Teles, Amelinha viu a repressão se intensificar e passou a viver na clandestinidade, dedicando-se à imprensa política do partido.

Em 1972, Amelinha, o marido e o dirigente do partido comunista responsável pela imprensa clandestina foram sequestrados pelos órgãos de repressão. Um companheiro de militância foi torturado até a morte diante dela, episódio que a levaria, décadas depois, a testemunhar sobre a fabricação de versões oficiais para justificar assassinatos políticos. Amelinha permaneceu presa por cerca de dez meses, passando por diferentes unidades de repressão em São Paulo.

Durante a clandestinidade e o cárcere, o convívio quase exclusivo com homens tornava esse incômodo ainda mais agudo. Isso a fez perceber que faltava uma política voltada para as mulheres dentro da própria esquerda em que militava. Foi sobretudo na prisão que essa percepção amadureceu e virou ação coletiva. Ao sair, encontrou apoio decisivo em outras mulheres, entre advogadas, ex-perseguidas políticas e trabalhadoras em geral.

Nos anos seguintes, atuou na imprensa alternativa que resistia à censura e ajudou a construir um dos primeiros veículos feministas do período ditatorial, lançado em 1975, ano internacional da mulher. Com a redemocratização, envolveu-se na mobilização por direitos das mulheres durante o processo constituinte, participando da articulação que levou boa parte das reivindicações femininas para a Constituição de 1988.

Amelinha Teles morreu em uma terça-feira, no último dia 15 de setembro de 2026, aos 81 anos. Sua história pessoal, atravessada por prisão, tortura, perda, liberdade e recomeços, reforça a convicção de que sobreviver implica o dever de seguir denunciando, para que o passado autoritário não vire capítulo encerrado, mas advertência permanente ao presente democrático.



Os artigos de autoria dos colunistas não representam necessariamente a opinião do IREE.

Diego Jandira

É músico violonista, colunista, cientista social graduado pela Unifesp e pesquisador musical no projeto Violão Negro Brasileiro.

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