Amazônia: a tomada do Brasil, os índios e o futuro da humanidade – IREE

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Amazônia: a tomada do Brasil, os índios e o futuro da humanidade

Walfrido Warde

Walfrido Warde
Presidente do IREE



O artigo “Amazônia: a tomada do Brasil, os índios e o futuro da humanidade”  foi escrito originalmente pelo presidente do IREE, Walfrido Warde, para o IG na coluna “Poder para o Povo”.

O Presidente do Brasil disse: “O Pará é um grande Estado, por isso, vou falar, vamos legalizar o garimpo.”

Bolsonaro é, na minha opinião, um dos mais confiáveis políticos da história recente do país, ainda que tenha mentido, segundo um veículo de imprensa, ao menos 200 vezes desde a posse.

O discurso de ofensa escancarada aos avanços civilizatórios, que marcou a sua campanha e, antes da espetacular vitória eleitoral de 2018, a sua insignificante vida político-parlamentar, manteve-se, já Presidente da República, intacto, impávido e absolutamente incendiário.

As sandices diversionistas que lhe saem da boca se transformam em políticas públicas, para a perplexidade da elite culta e para o delírio da militância uniformizada (com as cores que tomou da bandeira nacional).

É para acreditar no diversionismo, para que dele não se duvide, para que o discutamos e que com ele nos entretenhamos, enquanto um rio de mudanças flui, subjacente e caudaloso, debaixo das barbas de uma oposição rouca e insuficiente.

Se ele diz que vai legalizar o garimpo, então, caras leitoras e caros leitores, acreditem, o homem, que ajudou seu pai a tentar fortuna na Serra Pelada, vai ao menos se esforçar para fazê-lo.

Essa fala, absurda e contra intuitiva (como o Presidente, encarregado de cumprir a lei e de proteger a pátria, pode ser favorável a algo tão devastador e inapropriado?), e a sua existência concreta são um ponto de inflexão.

São o desvio onde se encontram o caminho que alçou Jair Bolsonaro ao poder e, como acredito, a inevitável tomada do Brasil por potências hegemônicas.

Uma dominação estrangeira dos nossos meios de produção e, reflexamente, de nossas instituições mais essenciais, para nos devolver à condição colonial irreversível e ameaçar, por meio da gananciosa e descontrolada exploração da Amazônia, a existência da vida como a conhecemos e o futuro da humanidade.

Um vaticínio que exibe, de um lado, um grave perigo de morte e, de outro, a importância do Brasil e de seu Povo para o destino de todo o planeta Terra.

Bolsonaro foi eleito por uma náusea coletiva, que se instalou na boca do estômago de todos nós, à medida que a operação Lava-Jato revelava o que se exibiu como o maior e mais sórdido esquema de corrupção da história do país.

Um esquema que unia os principais partidos políticos, em especial o Partido dos Trabalhadores, mas também a sua base de sustentação pluripartidária, e os grandes conglomerados empresariais brasileiros, o grosso de nosso capitalismo de laços, a espinha dorsal de nossa economia.

Um esquema que se revelou sem que se distinguissem o lobby, organizado à margem da lei, em um país capitalista, de dimensões continentais, onde fazer política não prescinde de recursos, e a corrupção nua e crua, a corrupção da troca de favores estatais por dinheiro.

O combate puramente repressivo à corrupção (que não se interessa em atacar as suas causas), liderado por um magistrado de primeiro grau de jurisdição, pregou subliminarmente o expurgo da Velha Política, a proscrição de políticos e de partidos envoltos no lamaçal.

Fez mais, abriu as portas à demonização da pauta progressista, cultivada no curso dos governos Lula e Dilma, sob a memória, inconsciente e generalizante, de que, de algum modo, essa pauta se relacionava com a corrupção.

Tudo que dizia respeito à tutela de minorias (aos direitos dos negros, dos homossexuais, dos índios etc), ao feminismo, à tutela do trabalho, à tutela do meio ambiente, à atuação estratégica do Estado na economia, à preservação da Soberania ante à influência estrangeira, tornou-se, do dia para a noite, por meio de uma grotesca generalização, o “mimimi” do comunismo cultural.

Nessa vala, o Brasil também descartou os principais e mais importantes grupos empresariais, pela incapacidade de diferenciar as empresas de seus dirigentes e controladores.

As empresas foram destruídas e, com elas, riquezas e empregos, o conteúdo nacional, a arrecadação de tributos, a capacidade estatal de investir e de reagir a uma recessão brutal.

Hoje somos quase 40 milhões de desempregados e de precarizados. E boa parte do país ainda acredita, mesmo diante dos crescentes indícios de uma politização manipuladora da Justiça e da Lava Jato, que o desmantelamento do país decorre mais da corrupção e do que de seu combate atabalhoado e inconsequente.

Boa parte do país ainda culpa a Velha Política e acredita que na existência de uma Nova Política, sob a liderança de Bolsonaro, que será capaz de nos salvar.

Essa crença, ainda forte, abriu as portas para a entrega dos direitos de comercialização do pré-sal, há poucos anos um ativo intangível no balanço da Petrobras, à venda de suas subsidiárias, assim como à venda de outras estatais estratégicas, à erradicação de direitos trabalhistas e sociais, à adoção de inatingíveis critérios de elegibilidade para a aposentadoria, a pretexto de equilibrar as contas públicas e de atrair investimentos privados, já que o Estado, quebrado, é incapaz de fazê-lo.

É, mais uma vez, a exploração dessa crença que escora a promessa do Presidente de legalizar o garimpo, assim como a, também sua, vontade de flexibilizar o licenciamento ambiental e facilitar o desenvolvimento de atividade empresarial poluidora em todo o país.

A verdade, todavia, é que o garimpo é um mecanismo indutor do fato consumado. O garimpo destrói a cobertura vegetal e o relevo, polui com mercúrio os rios, mata a fauna e a flora e, ao fazê-lo, em meio à prostituição, ao tráfico de drogas e à violência desenfreada, exige uma intervenção estatal, para o erradicar por meio da sua substituição pela mineração empresarial mecanizada, o mais das vezes sob controle estrangeiro.

Foi esse o destino de Serra Pelada. O mítico garimpo de Curionópolis, cidade que homenageia Curió, o apelido pelo qual era conhecido o tenente-coronel Sebastião Rodrigues Moura, agente do Sistema Nacional de Informação (SNI), que foi senhor da Serra Pelada depois que exterminou a Guerrilha do Araguaia, em 1974, acabou nas mãos de empresas internacionais de mineração.

A mineração empresarial mecanizada, se atuar na Amazônia, irá destruir o pulmão do planeta, asfixiar a Terra e impor brutal sofrimento a uma massa humana crescente, pobre, despossuída e desassistida, até tornar inviável toda a vida.

A busca por taxas crescentes de lucro corresponderá à diminuição proporcional da Amazônia, até o seu esvanecimento, porque o dinheiro tem uma capacidade inigualável de capturar governos e de convencer agentes públicos.

Hoje, o principal obstáculo entre a ganância e o seu intento são os povos indígenas, os habitantes originários do Brasil, aqueles que a propaganda bolsonarista tenta antipatizar sob a pecha de vagabundos, aos quais uma suposta frouxidão dos governos anteriores atribuiu enormes extensões de terra. Vagabundos improdutivos, inúteis para o grande projeto do Brasil (qual projeto?), sentados sobre uma fortuna incalculável.

Foram eles que, na semana passada, defenderam a Amazônia brasileira dos garimpeiros, com o sangue do cacique Emyra Wajãpi, líder de uma das 90 aldeias Wajãpi no centro-oeste do Amapá.

Eu sempre acreditei que a tutela dos indígenas do Brasil não se confundia com a tutela do meio ambiente. Esta interessava a todos e cada um dos moradores da Terra, enquanto aquela importava mais às populações diretamente afetadas e ao Povo brasileiro.

Erro meu.

Sem índio não haverá Amazônia. E, sem Amazônia, será o fim.



Walfrido Warde

É advogado, escritor e presidente do Instituto para a Reforma das Relações entre Estado e Empresa (IREE).

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