Alimentação e moradia: a conta que não fecha para o brasileiro – IREE

Análises e Editorial

Alimentação e moradia: a conta que não fecha para o brasileiro

22 de julho de 2026

Como abordamos anteriormente nesta série especial sobre os temas que devem marcar as eleições de 2026, o aumento do custo de vida e a perda do poder de compra estão entre as principais preocupações da população brasileira. Indicadores econômicos positivos, como a redução do desemprego e o aumento da renda, convivem com a percepção de que as despesas do dia a dia estão mais pesadas no orçamento das famílias.

Por que o dinheiro parece render menos? Parte da resposta está nos gastos essenciais que mais comprometem a renda dos brasileiros. Alimentação e moradia estão entre as principais despesas das famílias e seus preços passaram por mudanças importantes nos últimos anos, pressionando o orçamento da população.

A Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF) do IBGE, a mais recente disponível, referente aos anos de 2017 e 2018, mostra o peso desses dois grupos nas despesas dos brasileiros, com impacto proporcionalmente maior entre as famílias de menor renda. Nas famílias com rendimento de até dois salários mínimos, 61% das despesas de consumo eram destinadas à habitação e à alimentação, sendo 39% para habitação e 22% para alimentação. Já entre as famílias com renda superior a 25 salários mínimos, a parcela destinada a esses dois grupos era bem menor, de 30,2% das despesas de consumo, com 22,6% destinados à habitação e 7,6% à alimentação.

Por que o aluguel sobe tanto?

Entre as despesas que mais pressionaram o custo de vida dos brasileiros nos últimos anos está o aluguel residencial. Após a pandemia, o mercado de locação passou por forte valorização. Segundo o Índice FipeZAP, a variação anual foi de:

2020: +2,48%
2021: +3,87%
2022: +16,55%
2023: +16,16%
2024: +13,50%
2025: +9,44%

Entre os fatores que ajudam a explicar esse movimento está a relação entre oferta e demanda por imóveis. Com os juros elevados, o financiamento da casa própria ficou mais caro, fazendo com que mais pessoas permanecessem no aluguel. Ao mesmo tempo, em muitas cidades, a oferta de imóveis disponíveis não acompanhou o crescimento da procura.

Mudanças no próprio mercado imobiliário também contribuíram para esse cenário. A expansão de studios e apartamentos compactos voltados para investimento aumentou a disputa por imóveis em regiões valorizadas. Em alguns municípios, a destinação de unidades para plataformas de aluguel por temporada também reduziu a oferta disponível para moradores.

Embora o mercado imobiliário tenha sua própria dinâmica, políticas públicas podem agir sobre alguns dos fatores que influenciam os aluguéis, como a oferta de moradias, o acesso ao crédito e o planejamento urbano.

A construção de moradias populares e o aproveitamento de imóveis vazios ou subutilizados, por exemplo, podem reduzir a pressão sobre os aluguéis ao ampliar a disponibilidade de moradia em determinadas regiões. A disponibilização de linhas de financiamento mais baratas para a compra da casa própria também tem impacto sobre a demanda por aluguel. Outra frente importante é o planejamento urbano, com investimentos em transporte e infraestrutura, que ajudam a conectar mais regiões a empregos e serviços, diminuindo a concentração da demanda por imóveis em áreas valorizadas.

O supermercado virou um termômetro da economia

Além da moradia, a alimentação tem grande peso sobre a percepção do custo de vida. Nos últimos anos, os preços dos alimentos oscilaram sob influência da pandemia, guerras, eventos climáticos extremos e outros fatores econômicos. A variação anual dos preços do grupo Alimentação e bebidas, segundo o IPCA/IBGE, foi de:

2020: +14,09%
2021: +7,94%
2022: +11,64%
2023: +1,03%
2024: +7,69%
2025: +2,95%

Entre os fatores que explicam essa trajetória estão choques externos e mudanças nas condições de produção e abastecimento. A pandemia de COVID-19 desorganizou cadeias de produção e transporte, elevando custos e afetando a disponibilidade de produtos. A guerra entre Rússia e Ucrânia, iniciada em fevereiro de 2022, aumentou os preços de fertilizantes, combustíveis e grãos, enquanto eventos climáticos extremos reduziram safras e afetaram a oferta de alimentos. Conflitos no Oriente Médio também tiveram impacto sobre o mercado de petróleo, contribuindo para a alta dos combustíveis e dos fretes. Além disso, a valorização do dólar encareceu insumos importados.

Enfrentar a alta dos alimentos passa por políticas públicas que ampliem a oferta, reduzam custos e aumentem a capacidade de resposta do setor produtivo. O apoio à produção, por meio de iniciativas como o Plano Safra e linhas de crédito para agricultura familiar é uma medida importante para estimular o cultivo de itens da cesta básica. Já os estoques reguladores, retomados em 2023 pelo governo Lula após anos de redução dessas reservas, permitem a compra e armazenagem de produtos como arroz e milho para equilibrar a disponibilidade e reduzir oscilações de preços.

Investimentos públicos em transporte também são essenciais para melhorar a logística e diminuir custos entre o campo e o consumidor. Outra frente que tem sido cada vez mais urgente é a adaptação às mudanças climáticas, com medidas como seguro rural, irrigação e tecnologias de manejo para reduzir perdas causadas por eventos extremos. Por fim, medidas de comércio exterior, como importações e redução de tarifas, ampliam a disponibilidade de produtos específicos em momentos de alta.

Diante desse cenário, o debate eleitoral de 2026 deve colocar em discussão as políticas capazes de enfrentar os fatores que pressionam o orçamento das famílias. A escolha nas urnas terá impacto sobre temas como acesso à moradia, segurança alimentar e capacidade de resposta da economia a novos choques.

Este é o oitavo material da nossa série especial sobre os temas que devem marcar as eleições de 2026. Siga acompanhando!



Por IREE

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