28 de outubro de 2025
Na foto, um homem aparece ajoelhado — não totalmente, porque está com o pescoço laçado a um cinto que também dá nó a uma grade, situada atrás e logo acima de seu corpo. Essa descrição de uma fotografia tirada no dia 25 de outubro de 1975, do jornalista Vladimir Herzog morto, despertou — como se fosse preciso “ver para crer” — um comportamento novo, surgido da indignação diante de tamanho ato de covardia.
Relatar as mortes, aperfeiçoar as minudências de cada ato de horror é, de certa maneira, fazer viver na memória mais as atitudes e vícios dos malfeitores do que a coragem daquelas pessoas que enfrentaram, em vida ou em morte, a situação. Estranhamente, nos movemos por um tipo de “governo dos mortos”, como nos mostra o quanto ainda mobiliza o nome de Marielle Franco. Aqui, são os mortos que guiam os caminhos dos vivos, empurrando a sociedade para o debate público da ausência ou presença de democracia em nosso tempo.
Ainda hoje, 50 anos após o assassinato de Vlado (como era conhecido por amigos e familiares), seu nome — e o de diversas outras vítimas do Estado brasileiro — movimenta a sociedade a exigir a real “abertura democrática” que não se realizou, escancarada no silêncio em relação a necessidade de trazer justiça aos diversos casos de tortura consentida pelos governos a partir de 1964.
O culto ecumênico realizado na Catedral da Sé, em 31 de outubro de 1975, conduzido pelo cardeal dom Paulo Evaristo Arns, o rabino Henry Sobel e o pastor Jaime Wright, que levou mais de 8 mil pessoas a protestarem “silenciosamente”, dadas as ameaças de repressão pelos militares presentes, tornou-se um marco na história da resistência democrática no país.
No último dia 25 de outubro de 2025 — portanto, cinco décadas após a primeira missa de sete dias da morte de Herzog —, um novo culto que homenageia e pede justiça por todas as vítimas da ditadura foi organizado. Contando com a realização da Comissão Arns e do Instituto Vladimir Herzog, e conduzido pelo arcebispo de São Paulo dom Odílio Scherer, pelo rabino Uri Lam e pela pastora Anita Wright, o ato ocorreu no mesmo local da cerimônia histórica, com a presença de autoridades políticas, artistas, amigos e familiares que aguardam até hoje por justiça.
A justiça brasileira ainda não julgou os milhares de crimes perpetrados nos porões da ditadura civil-militar por torturadores oficiais do Estado que, estejam vivos ou não, ainda não foram condenados por tudo o que fizeram. Para um acerto de contas verdadeiro com o nosso passado enquanto país, faz-se necessário que sejam revelados os pormenores do que ocorreu dentro das dependências de uma instituição que, “em tese”, independentemente das funções designadas, deveria zelar pela manutenção das vidas que adentraram caminhando por seus corredores.
Materiais inéditos sobre a vida e a produção intelectual e política do jornalista Vladimir Herzog, como o documentário “A vida de Vlado”, dirigido e roteirizado por Simão Scholz e produzido pela TV Cultura, reafirmam a importância de revisitar sua trajetória não apenas como um símbolo da luta pela liberdade de expressão, mas como um intelectual comprometido com a democracia. Ao iluminar novos aspectos de sua vida e obra, essas produções contribuem para manter viva a memória de quem ousou acreditar que o jornalismo e a cultura podem ser instrumentos de transformação social — lembrando-nos que a justiça e a liberdade permanecem tarefas inacabadas do nosso tempo.
Os artigos de autoria dos colunistas não representam necessariamente a opinião do IREE.
Diego Jandira
É músico violonista, colunista, cientista social graduado pela Unifesp e pesquisador musical no projeto Violão Negro Brasileiro.
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