"Ainda Estou Aqui" e a força ativa da memória – IREE

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“Ainda Estou Aqui” e a força ativa da memória

27 de novembro de 2024

Diego Jandira

Diego Jandira
Violonista e Cientista Social



A memória é uma arma quente. É um instrumento capaz de servir tanto para a consolidação da justiça, quanto para a derrocada e ruína de todo um povo. Mais de uma vez, já se apontou na cultura brasileira sua debilidade em lidar com o que deveria se manter preservado na lembrança nacional.

Talvez isso ocorra porque o Brasil, na essência de sua formação social, cultural, econômica e humana, é constituído por diversas formas de esquecimento. Ao serem arrancados de África e trazidos compulsoriamente ao “novo mundo”, diversos povos daquele continente tiveram de alguma maneira que esquecer seu passado, sua terra, sua família, riquezas e ocupações, até perderem da memória seu próprio nome. Indígenas sequestrados de sua sociabilidade para com o território, sequestrados de sua relação livre com seu corpo e suas vestimentas, sofreram (e sofrem) a política contínua do esquecimento quando têm apagadas do mapa as suas terras pelas demarcações limítrofes do progresso. A terra arrasada das memórias do Brasil é um dos mais eficazes e antigos programas políticos do país.

Em “Ainda Estou Aqui”, livro publicado em 2015 e escrito por Marcelo Rubens Paiva, a memória é uma força ativa que, servindo para desnudar o passado, acaba por modificá-lo, atando pontas soltas, iluminando cantos escuros e trazendo à tona para o nosso tempo presente a história de uma família que é entrelaçada profundamente com um dos momentos mais escusos do Brasil, a ditadura civil militar.

Engenheiro e deputado federal pelo Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), Rubens Paiva tem seu mandato político cassado a partir do golpe de 1964, o que fez com que seu nome, da noite para o dia, fosse inserido na lista de inimigos públicos do regime que os militares implantaram no país naquele momento. Nas memórias do filho, as palavras do pai: “[…] no nosso país existe uma porção de gente muita rica que finge que não sabe que existe muita gente pobre, que não pode levar as crianças na escola, que não tem dinheiro para comer direito, e às vezes quer trabalhar e não tem emprego”. Este senso de justiça do pai, o grande ausente de todo o romance autobiográfico, está presente do início ao fim deste que se insere nos grandes épicos de família da literatura.

São muitas as histórias conectadas à ausência do pai. De certa forma, Rubens Paiva simboliza a ausência de todos aqueles presos, torturados, mortos e desaparecidos que têm suas famílias muitas vezes destruídas aguardando por respostas. É um livro de questões. É um livro sobre o amor de mãe, expresso na pessoa imensa de Eunice Paiva, advogada, militante e mãe, figura que brigou incansavelmente contra o sistema em busca de justiça pelo reconhecimento de que Rubens Paiva, pai de seus quatro filhos, havia sido morto pela política da ditadura militar nas imediações do DOI-CODI em 1971.

É também a história da decadência de uma família que encontra na persona da mãe a base e a estrutura para que tudo não se desmorone. E nesse ponto, Eunice Paiva encontra-se com diversas mães pobres e pretas que muitas vezes são a única fonte de sustentação psicológica, moral e econômica da família. Fortalezas. Mulheres grandes demais, em mais um ponto onde o livro se relaciona com as feridas profundas do Brasil.

Decolonial no seu acerto de contas com as mentes do presente, o livro faz um “apelo” para que nossas ações não repitam o retrocesso de 1964. O apelo está na dor vivida pela família, na rebeldia e escrita por vezes doce e irascível de Marcelo Rubens Paiva, na pequena história da tortura presente em suas páginas, nas perguntas sem respostas como “Quem matou Tayná?”, “Onde está o Amarildo?”, o que demonstra que os assassinos, os sequestradores, os porões dos torturadores ainda estão aqui.

Marcelo Rubens Paiva afirma sua contemporaneidade quando nesses tempos sombrios nos alerta dos perigos que insistem em nos rondar (lembremos 2018, nos atentemos a 2026). “Ainda Estou Aqui” nos lembra que todos nós carregamos no fundo algo que, embora não saibamos bem o que seja, sentimos que não deveríamos nunca esquecer.



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Diego Jandira

É músico violonista, colunista, cientista social graduado pela Unifesp e pesquisador musical no projeto Violão Negro Brasileiro.

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