A visita à aldeia da cacica Maria Guajajara – IREE

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A visita à aldeia da cacica Maria Guajajara

Guilherme Boulos

Guilherme Boulos
Coordenador do MTST



Certa vez, numa conversa informal no Rio de Janeiro, Sonia Guajajara falava da importância da luta das mulheres indígenas. Paula Lavigne, com seu estilo direto e reto, questionou: “Então eu quero ver se tem uma cacica”.

A brincadeira ficou no ar.

Na semana passada visitei a região de Amarante no Maranhão, a convite da Sonia, para conhecer o território indígena Arariboia, onde vivem mais de 12 mil guajajaras. Na verdade, estava pagando uma “dívida”, que vinha desde a campanha eleitoral, de conhecer a aldeia onde Sonia morava.

Chegamos de noite à aldeia Lago Quieto. Só no dia seguinte que soube que ali vivia a cacica Maria Guajajara.

Mulher forte, vivida, nos contou da organização da aldeia, que tem poucas casas, a maioria feita de barro com cobertura de palha. Todas elas com espaços abertos fora, em geral reservados à cozinha.

No centro da aldeia está uma escola indígena, que – como todas as da região – é bilíngue: português e guajajara. A cacica mostrou ainda com orgulho seu trabalho de confecção de uma rede, todo manual, e executado com incrível de perfeição.

Falou dos dons, necessários à vida coletiva, que ela “transmitiu” a outras três mulheres da aldeia.

O “dom da fala” foi transmitido, é claro, para Sonia, que vocaliza no país e no mundo a importância da causa indígena. Aliás, neste momento está num giro por 11 países europeus para denunciar os ataques de Bolsonaro aos povos indígenas. Sem dúvidas, a cacica Maria transmitiu para a pessoa certa.

O “dom da cura” e o “dom do parto” foram também transmitidos a outras duas mulheres. Surama, responsável pela cura, fez curso de enfermagem e é procurada por todos que precisam ali. É nela que confiam, inclusive para confirmar a palavra do médico oficial da cidade.

A cacica Maria pediu um tempo. Foi para sua casa se pintar e voltou dançando. Brincou no vídeo que fizemos: “Boulos não trouxe meu batom”. Nem precisava. Qualquer batom seria ofuscado com a tradicional pintura do corpo e os belos colares da cacica. Um deles feito de tiririca, uma semente do capim, cujo processo de preparação e, depois, do furo para a feitura de colares e pulseiras é incrivelmente trabalhoso.

O dia a dia na aldeia

De noite fomos todos para a festa da “Menina-Moça” ou do “Moqueado”, ritual que marca a passagem das meninas indígenas após a primeira menstruação. Foi na aldeia vizinha. Festa bonita e emocionante. Após a noite inteira de dança, a caça só pode ser servida as 5 horas da manhã.

Mas a vida da aldeia não é só de festas e dons. É também de trabalho, privações e de resistência.

Para evitar a invasão de madeireiros no território, formou-se o grupo de Guardiões, que faz uma espécie de patrulha e luta contra as queimadas em todo a área. Conheci um deles, Fred da aldeia Juçaral, que me presenteou com um colar de tiririca para proteção do corpo contra os males.

A base do Ibama de combate a incêndios, sediada numa das aldeias, é insuficiente e mal equipada. Certamente já sofre com o desmonte do órgão promovido por Bolsonaro e Ricardo Salles, que cortaram 24% do orçamento do Ibama de 2019.

Passei dois dias com Sonia, a cacica e o povo da aldeia. O que mais me impressionou foi a preservação dos valores indígenas e do modo de vida comunitário. Aqui não se trata de romantizar ou pregar a ausência de contato com o resto da sociedade. Não há fartura, as pessoas passam dificuldades e precisam – muito mais do que hoje é oferecido – de políticas públicas do Estado brasileiro.

Os jovens da aldeia querem acessar a internet e as redes sociais e, ainda que com a precariedade do sinal, acessam. As artesãs querem vender seus produtos aos visitantes, para poder comprar o que precisam. A grande questão não é o isolamento social ou cultural. É preservar suas raízes mesmo com o contato.

Foi o que vi na aldeia. Há um ponto comunitário em que recentemente foi feita a instalação de um sinal de internet. Mas ninguém fica lá o dia inteiro, ao contrário, nós visitantes fomos mais vezes à “casa da internet” do que os moradores. A internet está ali, as pessoas usam, mas podem viver sem ela.

Escolhemos pulseiras na casa da artesã e, quando fomos buscar o dinheiro, ela disse para levarmos depois porque agora iria almoçar a tinha afazeres. Precisava vender, mas não estava desesperada pelo dinheiro. A relação com o tempo e com os bens materiais é outra. Os guajajara trabalham, mas não vivem para trabalhar. Também se divertem, tomam banho no rio e descansam nas redes.

Esse modo de vida nos faz refletir sobre nossas escolhas enquanto sociedade. Que valores abandonamos e quais outros assumimos como tão naturais.

O capitalismo faz a sociedade girar em torno do trabalho e do consumo, impõe um ritmo frenético em que “tempo é dinheiro” e estabelece o reinado do lucro acima da vida, do individualismo acima da solidariedade e das relações virtuais acima da convivência. Os povos indígenas mostram que é possível viver de outro modo. E isso num país em que precisam todos os dias lutar para manterem-se vivos.



Guilherme Boulos

É professor, diretor do Instituto Democratize e coordenador do MTST e da Frente Povo Sem Medo.

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