8 de setembro de 2025
Costumamos ouvir que chegou a vez da China. Essa ideia aparece em relatórios econômicos, em discursos políticos e nas manchetes da imprensa como se estivéssemos diante de uma novidade, mas o que ela revela é muito mais sobre a nossa forma de olhar do que sobre a realidade chinesa. A China não chega agora, porque sempre esteve. O que existe é a dificuldade do Ocidente em reconhecer que já não ocupa sozinho o centro do mundo.
Com mais de quatro mil anos de história contínua, a civilização chinesa foi responsável por invenções que mudaram o rumo da humanidade, como o papel, a pólvora, a bússola e a imprensa de tipos móveis. Enquanto a Europa atravessava a Idade Média, a China já possuía cidades planejadas, sistemas agrícolas sofisticados e uma administração capaz de coordenar milhões de pessoas. O que hoje chamamos de ascensão chinesa é apenas o retorno de uma centralidade que escolhemos esquecer.
Estive algumas vezes na China e em todas voltei deslumbrada. Não apenas com a sofisticação tecnológica ou com a velocidade das transformações urbanas, mas com a forma como a coletividade se manifesta no cotidiano. Em praças e parques, multidões dançam, praticam exercícios, convivem sem pressa. Crianças e idosos dividem os mesmos espaços e as mesmas rotinas. Essa experiência me mostrou de perto que, ao contrário do que vivemos em sociedades capitalistas marcadas pela competição individual, ali o indivíduo se realiza no coletivo.
Os números ajudam a compreender o alcance dessa lógica. Segundo o Banco Mundial, desde o fim dos anos 1970 a China retirou mais de 800 milhões de pessoas da pobreza extrema, o maior processo de redução da miséria já registrado na história. Hoje é a segunda maior economia do mundo, com um PIB de cerca de 18 trilhões de dólares em 2023, e responde por aproximadamente 18% do produto global. Lidera também setores estratégicos para o futuro. A Agência Internacional de Energia aponta que mais da metade da capacidade solar instalada no mundo está em território chinês e o país é responsável por mais de 50% dos veículos elétricos em circulação. Em Shenzhen, toda a frota de ônibus já é elétrica, enquanto em várias democracias ocidentais ainda se discutem metas distantes de eletrificação.
Esses avanços não são apenas resultado de decisões econômicas, mas de uma filosofia que privilegia o comum sobre o individual. A China trabalha com planos nacionais desde 1953, sempre revisados a cada cinco anos, e projeta metas que chegam até meados do século XXI. Enquanto aqui estamos presos a ciclos eleitorais curtos, a disputas fragmentadas e à lógica imediatista do mercado, lá o horizonte é pensado em décadas. Enquanto a China expande sua infraestrutura verde, muitas democracias ocidentais recuam em compromissos ambientais, reféns de populismos de curto prazo e negacionismos oportunistas. Essa diferença talvez seja o maior abismo entre nós.
Não se trata de idealizar nem de negar contradições. Há tensões sociais internas, desigualdades regionais e desafios enormes que também precisam ser enfrentados. Mas reduzir a China a caricaturas de fábrica barata ou ameaça distante é uma forma de não encarar a realidade. O que mais impressiona não é apenas o crescimento econômico, mas a maneira como a coletividade organiza a vida, permite avanços em escala e sustenta uma visão de futuro comum. O que o Ocidente chama de milagre econômico talvez seja apenas o resultado de um princípio simples: quando o coletivo é prioridade, o futuro se constrói com mais força.
Minha impressão, depois de estar lá e observar de perto, é que quando dizemos que chegou a vez da China estamos na verdade reconhecendo o nosso atraso. A China sempre esteve aí.
Os artigos de autoria dos colunistas não representam necessariamente a opinião do IREE.
Danielle Zulques
É Diretora para assuntos de política e sociedade do IREE. Advogada formada pela FAAP e pós-graduada em Ciências Políticas pela FESPSP. É Coordenadora da CAUSA - rede que conecta advogadas a mães em busca de suporte legal.
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