A Vergonha, as Línguas e as Drogas – IREE

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A Vergonha, as Línguas e as Drogas

4 de junho de 2025

Ricardo Dias

Ricardo Dias
É luthier, escritor e músico



Bolsonarista trata a vergonha como uma roupa amarrotada: mal vê uma e quer logo passar. Fui acusado de ser intransigente, pois sou contra a anistia. Outro me acusa de destruir amizades “por causa de política”. Como se fascismo tivesse a ver com política!

Não posso fazer nada. Tenho nojinho dessa gente. Os acharia engraçados se não fossem tão perigosos. Digamos que são ridículos como o bigodinho do Hitler – que fica ótimo no Chaplin. 

Falando nisso, temos o Duda Little Banana, nosso traidor favorito. 

-Eduardo, faça áudios se incriminando e passando ridículo!

-É pra já!

E lá vai ele, passando a habitual vergonha, não nos deixando sentir saudades. Imagine se Trump souber que ele anda se jactando de dirigir a política externa dos EUA! 

Alguém conte, por favor.

E tivemos a divulgação de mais trechos do zap do dedo duro mais querido do Brasil, El Cid. Dizem que no juízo final, Deus vai reunir toda a humanidade e divulgar as mensagens de todos em praça pública. Se for assim, confesso que vai ser bem divertido. 

Epa, pera, não…

Voltando ao pecador, parece que dona Michelle não era das figuras mais queridas. Até suspeitas sobre seu passado foram levantadas, e logo corrigidas. Honestamente, o passado dela não me importa, me importa o futuro. Mesmo porque eu prefiro uma pessoa mais, digamos, assanhadinha, que essa santarrona chata falando em idioletos pretensamente capixabas. Do Espírito Santo, quero dizer. 

Fico imaginando ela de presidente e Damares de vice.

-Olha, presidente, precisamos cuidar das pessoas. 

-Ragalanigava! Baravanica! Cavacavacavaca!

-Então, pensei em distribuirmos dentaduras para as meninas de Marajó que tiveram seus dentes arrancados para fazerem sexo oral!

-Bagavadniva! The king of the power! Caracaracava!

-Também pensei em abrirmos um site para denunciarmos vítimas de estupro que abortarem. Precisamos parar com esses abusos.

-Saravá! Sarav… 

-Presidente!!!!!!!!

 Mas com tudo isso a nossa brava imprensa prefere apostar no caos. O apoio a Tarcisio chega às raias da idolatria. Tudo que o governador de todos os paulistas faz é incensado, lembra muito alguém, que também teve esse apoio todo: Fernando Collor. A nossa imprensa é fiel, está sempre do lado errado. E também têm especial predileção pela Janja. De fato nossa primeira dama de vez em quando exagera, mas sejamos justos: qual o problema? Os que se dizem não machistas ponderam que não se viam declarações do marido de Thatcher ou de Angela Merkel. O que eles querem dizer com isso? Que Janja deveria se comportar como um homem? Não fica muito claro. A moça viaja muito, sim, mas ao que se saiba não leva seu cabeleireiro junto. A gente não sabe muito bem como lidar com ela. Mas a imprensa, essa sabe muito bem, claramente prefere Michelle – os editoriais solenes são sempre sobre a sra Lula da Silva. Sempre contra.

-Não é sobre machismo! É sobre a posição da primeira dama!

-Mas a primeira dama é mulher?

-Claro que sim!

-Então é sobre a posição da mulher?

-Sim! Epa, pera, não…

Ainda nas hostes bolsonaristas, quando o bom menino Nikolas fez um vídeo mentindo sobre o pix, houve quem dissesse que a mudança que ele acabou desencadeando favoreceria os narcotraficantes. Agora se descobre que um primo seu é narcotraficante. O vídeo antipix teria sido nepotismo? Ou nepotismo foi o milhão e pouco que ele destinou à cidade na qual seu tio – pai do primo – foi candidato a prefeito? Nikolas sempre teve uma posição muito firme contra as drogas.

-Cadeia! Pena de morte para os traficantes!

-Mas teu primo…

-Epa, pera, não…

Justiça seja feita, depois da notícia ele na verdade disse que bandido tem que ir para a cadeia, seja quem for. Palmas pra ele que ele merece. Só que ele defende os bandidos do 8 de janeiro.  Acho que os almoços de domingo em família vão ficar meio esquisitos. Pelo menos passa a ter algo em comum com Michelle, cuja avó se dedicava ao mesmo mister.

Para terminar, não posso deixar de mencionar Israel. Que trabalho incrível. Pegaram tudo o que aprenderam na segunda guerra e estão aplicando com enorme sucesso. Ainda não fizeram câmaras de gás, mas não duvido nada que acabem fazendo. O Gueto de Varsóvia está sendo reproduzido fielmente, só falta o gran finale. 

Por coincidência, encontrei Simon Wiesenthal no mercadinho kosher da esquina. Saudei-o polidamente, sua busca incessante pelos criminosos de guerra nazistas o fazia um de meus ídolos. Mas me preocupava sobre sua posição diante dos acontecimentos atuais. Ele certificou-se que eu não era nenhum infiltrado ariano e relaxou um pouco. Não quis comentar nada diretamente, mas disse temer que no futuro houvesse um Wiesenthal palestino.

PS: Acabei de saber que a Zambelli escafedeu-se. Parece que conseguiu 260 mil no pix dos otári, digo, seguidores, e se mandou para a Itália. Como o dinheiro é pouco, parece que ela talvez tenha que se mudar para a Espanha.

PS2: O “humorista” Leo Lins foi condenado à prisão por conta do teor de suas “piadas”. O acho horroroso, deprimente, nojento – mas censura, não. Quem, como eu, foi criado durante a ditadura, e viu coisas como metade da música de Rita Lee ser proibida (“mulher é bicho esquisito: todo mês sangra”) com o argumento da famigerada dona Solange, chefe da censura: “Ah, uma música tão bonita, falando uma coisa tão feia, de tanto mau gosto…”, não gosta de ver esse tipo de coisa.



Os artigos de autoria dos colunistas não representam necessariamente a opinião do IREE.

Ricardo Dias

Tem formação de Violonista Clássico e é luthier há mais de 30 anos, além de ser escritor, compositor e músico. É moderador do maior fórum de violão clássico em língua portuguesa (violao.org), um dos maiores do mundo no tema e também autor do livro “Sérgio Abreu – uma biografia”.

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