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A Vaza Jato e a inabilidade parlamentar da extrema direita

Carolina de Paula

Carolina de Paula
Cientista Política



Desde o começo de junho o Brasil tem sido surpreendido pela divulgação de uma série de troca de mensagens instantâneas atribuídas aos principais agentes do Judiciário e Ministério Público envolvidos na Operação Lava Jato.

Divulgadas pelo veículo jornalístico The Intercept Brasil, sob a liderança do jornalista norte-americano Glenn Greenwald, as revelações são minuciosas e tratam de supostas triangulações e coordenação de ações entre o ministro da Justiça Sergio Moro, então juiz responsável pelo julgamento dos acusados na operação, e o promotor Deltan Dallagnol.

Ações estratégicas relativas à visibilidade da operação na imprensa também foram reveladas. Se confirmadas a veracidade das mensagens, temos um grave caso de violação dos limites legais nos processos designados à dupla Moro – Dallagnol. 

O caso, sagazmente apelidado de Vaza Jato, despertou uma série de questionamentos sobre a validade das prisões e julgamentos realizados no âmbito da Operação Lava Jato. A maior delas, é claro, diz respeito à legalidade da prisão do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, tendo em vista as mensagens explícitas do manejo do caso entre juiz e promotor.

Afora a urgente investigação desses supostos desvios de conduta, gostaria de ressaltar um outro fato proporcionado pelas divulgações da Vaza Jato: a incapacidade do uso elementar dos instrumentos legislativos pela base governista.

Em 12 de junho, o deputado Daniel Silveira (PSL-RJ) protocolou um requerimento na Comissão de Segurança Pública e Combate ao Crime Organizado para que Greenwald prestasse esclarecimento sobre suposta prática de crimes contra Sergio Moro por irregularidade na divulgação de mensagens privadas.

Famoso por ter quebrado uma placa em homenagem à vereadora Marielle Franco, o deputado retirou o requerimento horas depois, visto que a oposição considerou extremamente positiva a oportunidade de uma visita do jornalista à Câmara.

Dias antes do pedido de Silveira, deputados da base governista se manifestaram via redes sociais com difamações dirigidas ao jornalista Greenwald.  Em tempos de fortes agressões virtuais, o jornalista, que tem pública a sua orientação sexual e é casado com o deputado federal David Miranda (PSOL), vem sofrendo ameaças e todo tipo de ódio digital.

No dia 25 de junho, Greenwald esteve em audiência promovida pela Comissão de Direitos Humanos e Minorias. O que se viu ali, no que diz respeito às ações da base governista, foi um sumiço dos agitadores e “corajosos” das redes.

Poucos membros da bancada do PSL ou mesmo dos partidos aliados se mostraram dispostos a discutir face a face com o jornalista. Sobrou para o deputado José Medeiros (PODEMOS-MT) protagonizar um ataque preconceituoso à Greenwald, ao levantar questionamentos de cunho privado e irrelevantes para o maior entendimento do caso. 

Portanto, para além dos problemas revelados na relação entre Judiciário, Ministério Público e imprensa, a Vaza Jato traz lições quanto ao funcionamento do Legislativo no Brasil atual, ao ressaltar a falta de traquejo dos novatos da extrema-direita referente à dimensão institucional do mandato. 

É certo que a comunicação direta serve de combustível para um eleitorado apaixonado e movido a ódio, e tais parlamentares encaram as redes sociais como seus picadeiros de visibilidade. Porém, a inabilidade na dimensão institucional certamente cobrará seu preço. 



Carolina de Paula

É doutora em Ciência Política pelo IESP/UERJ, Diretora Executiva do DataIESP e pesquisadora sênior do NECON (Núcleo de Estudos Sobre o Congresso). Foi consultora da UNESCO, coordenadora da área qualitativa em instituto de pesquisa de opinião e big data, com atuação em campanhas eleitorais e pesquisas de mercado. Escreve mensalmente para o IREE.

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