A Vale, Tom Jobim e Os Leões do Coliseu – IREE

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A Vale, Tom Jobim e Os Leões do Coliseu

Ricardo Dias

Ricardo Dias
É luthier, escritor e músico



Falar mal do governo é fácil. Então o negócio é aproveitar, já que está tudo MUITO difícil! O problema é que o IREE se destina a tentar achar soluções para esse enrosco chamado Brasil, então não faz muito sentido esbravejar ou repetir o que todo mundo sabe e vivencia. E estamos na editoria de Cultura, que nada pode fazer nesse momento contra esse estado de coisas, a não ser talvez jogar livros no presidente.

Mas mesmo tomando cuidado, a gente cai no lugar comum: cultura = livros. Sim, é a melhor forma de repassar conhecimento, sem dúvida, mas como disse na coluna anterior, Cultura tem um escopo mais amplo. Disse que ela nada pode fazer contra esse estado de coisas, mas pode, e é a ÚNICA possibilidade: impedir a repetição. E aí nós entramos. Vejamos um exemplo óbvio: metalurgia e futebol. Nem preciso explicar de tão evidente, certo? Mas, para os distraídos, desenvolvo.

Produzíamos, como diziam os antigos, de um tudo no campo da metalurgia. Aí um gênio resolveu vender a Vale. O dono enriqueceu, o mercado aplaudiu, todos ficaram felizes, mas passamos a produzir apenas matéria-prima. Nos desindustrializamos, na contramão da história e do bom senso.

No futebol, éramos os melhores do mundo. Aqui no Rio de Janeiro colocávamos 200 mil pessoas no Maracanã, e gente de todo tipo: os mais pobres de pé, na geral, os classe média sentados nas arquibancadas, os melhorzinhos de grana nas cadeiras, a elite na tribuna. O fato é que todos assistiam. Guardem essa informação, por favor, vou utilizá-la em breves momentos.

Os campeonatos regionais lotavam os estádios. As grandes rivalidades, Fla x Flu, Corinthians x Palmeiras, Atlético x Cruzeiro, surgem nos estádios e nas cidades. Mesmo cidades menores tinham seus clássicos, que mexiam com a comunidade. O jogador surgia, a torcida ouvia falar que no juvenil havia uma promessa, começava a ficar de olho e assistia ao crescimento do craque nos anos vindouros.

Um belo dia, começou a ser comum esses craques saírem do país, em busca de campos mais verdes. Ok, tinham o direito de fazer seu pé de meia, o futebol não pagava o que paga hoje. Mas agora a criança desmama, aprende a andar, o pai dá uma bola e entra um empresário pela janela com um contrato.

O leitor, astuto que é, já viu onde quero chegar. Não exportamos mais jogadores, exportamos matéria-prima. Os estádios, onde cabiam todos os bolsos, agora foram reduzidos, e os preços foram na direção inversa. As torcidas, antes coloridas, agora são brancas, nórdicas, retrato de nossa pirâmide social. Quando o jogador fica mais velho, sem velocidade, volta (na Roma antiga, os leões que enjoavam de comer cristãos, já sem dentes, eram enviados para espetáculos nas províncias mais afastadas). Os produtos que vinham da fábrica da esquina agora têm um selinho oval e dourado avisando que veio da China.

E daí? E daí que temos problemas mais profundos, mais basais, que mostram que Bolsonaro não é só causa, é consequência, também. Os exemplos que dei são encontráveis em TODAS as nossas categorias, de forma mais dolorosa na ciência. Na agricultura também, estamos virando produtores de soja apenas, com todos os riscos que a monocultura oferece.

E faço um pequeno parágrafo-parêntese para falar de minha profissão, a luteria (ver artigo anterior) e de música. Como dizia Jobim, a melhor saída para nossos músicos é o aeroporto (por conta dessa frase é que o Aeroporto do Galeão foi rebatizado com seu nome), especialmente os ditos “eruditos”.

Os “populares” passam por processo igualmente danoso, mas sobre o qual falarei em coluna futura, aguardem, ansiosos. Mas na minha linha, temos toda uma tradição de construção de instrumentos, feitos para uma certa forma de tocar que nos destacou no mundo. Porém, cada vez mais, migramos para uma forma de construção que não tem raízes em nosso tocar. A Europa, nesse caso, manda. E nós, vassalos, obedecemos.

Portanto, chegamos a hoje. Anos e anos de burrice institucionalizada, obedecendo ao Deus Mercado, oferecendo-lhe sacrifícios – humanos. O capitalismo – cujo antônimo NÃO É o comunismo, é o humanismo, apesar do que repete nossa culta Direita – conseguiu a proeza de convencer os explorados que o certo é isso – e oferece como chamariz a “possibilidade” do escravo virar senhor. E é aí a perversão maior do capitalismo, ela não faz o escravo sonhar com um mundo livre: ela o faz sonhar com um mundo idêntico, mas no qual ele reina sobre seus ex-iguais.

Uma vez peguei um taxi, e o motorista contava que tinha sido demitido de uma estatal. Precisou virar taxista, e pagava uma exorbitância de aluguel do carro ao dono da frota. Ficava quase sem dormir, 60% do tempo era para pagar a diária, 20% para o combustível (ainda não havia o gás) e o resto para ele. Fiquei MUITO tocado com o relato. Mas, concluiu, depois de muito sacrifício ele conseguira comprar seu próprio carro e estava em vias de comprar outro.

-Agora vou à forra, vai ser MINHA VEZ de tirar o couro de alguém!

 

Ok, Ricardo, você escreveu tuas platitudes, muito bem, mas e a cultura? Onde entra nisso? Cultura impede falta de caráter? Cultura gera bondade, empatia?

Obviamente não. Gente culta votou num defensor da tortura. Gente culta apoiou a ditadura de 64. Mas uma NAÇÃO culta vai querer mais da vida que meramente morar em Alphaville. Uma nação culta vai entender que é melhor se todos comerem um prato por dia que meia dúzia comendo tudo, inclusive os pratos, os talheres e as mesas. Que o mundo é melhor se todos comerem essa refeição debaixo de um teto, que radicalismo não é invadir um prédio público abandonado, é ver gente morrendo na rua como no Gueto de Varsóvia e achar normal. As fotos do Gueto chocam, as de Copacabana, não. Chocarão apenas quando estiverem nos livros de história, quando virem fotos de gente morrendo de fome pelas ruas e perguntarem: como deixaram isso acontecer?

É o que me pergunto todos os dias. Me perguntei sobre o nazismo, me pergunto sobre hoje.



Os artigos de autoria dos colunistas não representam necessariamente a opinião do IREE.

Ricardo Dias

Tem formação de Violonista Clássico e é luthier há mais de 30 anos, além de ser escritor, compositor e músico. É moderador do maior fórum de violão clássico em língua portuguesa (violao.org), um dos maiores do mundo no tema e também autor do livro “Sérgio Abreu – uma biografia”.

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