A separação do Centrão e a indefinição da base do Presidente – IREE

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A separação do Centrão e a indefinição da base do Presidente

Carolina de Paula

Carolina de Paula
Cientista Política



Jair Bolsonaro foi eleito em 2018 com um forte discurso antipolítica e antipolíticos, porém, ao ser empossado se viu em uma encruzilhada: precisava continuar negando as instituições políticas para se manter fiel ao seu eleitorado cativo, e demandar seus projetos para apreciação do Congresso.

Não se trata de nenhuma novidade que o Presidente evitou a todo custo formar uma coalizão partidária mínima que garantisse alguma estabilidade e governabilidade. É fato que no Brasil o Executivo e Legislativo são faces centrais da governabilidade, dado o alto poder de agenda de ambos. Assim, enquanto via sua base de apoio popular cair vertiginosamente logo nos seis primeiros meses de governo, o Legislativo, capitaneado em boa medida pelo presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM), nunca foi tão atuante, conseguindo inclusive o protagonismo da tão sonhada, pelo Planalto, Reforma da Previdência.

Em meados de maio passou a circular na imprensa que Bolsonaro finalmente teria uma coalizão para chamar de sua, e que estaria ancorada no fluido bloco partidário do “Centrão”. De fato, aconteceram diversos acenos nessa direção, como a nomeação de membros de partidos do bloco para cargos de destaque e o exemplo mais concreto: a recriação do finado Ministério das Comunicações, através da nomeação do deputado federal Fábio Faria, do PSD, um importante partido do bloco (35 cadeiras na Câmara).

Alguns problemas derivados dessa decisão merecem destaque. O “Centrão”, em seu significado mais substantivo, não passa de uma ficção. Trata-se de um bloco com finalidades procedimentais da Casa, como a distribuição de posições de liderança e para o cálculo de vagas em comissões parlamentares. Ou seja, hipoteticamente haveria até mesmo dificuldades em organizar uma reunião oficial com os seus membros, já que diversos parlamentares fogem dessa alcunha, dada sua péssima imagem na mídia e em fatias do eleitorado.

Outro problema é a (in)fidelidade desses partidos ao Executivo. Esta questão pode ser vista pelo índice de “governismo”, ou seja, uma medida que mensura até que ponto tais partidos apoiam as iniciativas do Presidente no Congresso. Dados iniciais do Observatório do Legislativo sugerem que não se trata de um bloco partidário sólido.

Na recente votação da “PL das Fake News” (PL 2630/20), um tema caro ao Executivo, parlamentares do MDB e do DEM votaram majoritariamente contra o governo. Pouco tempo depois as duas legendas anunciaram que não fariam mais parte do bloco, posicionando-se agora de modo independente (há especulações de que está em formação um “novo Centrão”).

É certo que não há um rompimento total com os pleitos do Executivo. Os dirigentes de ambas as siglas já afirmaram que seguem alinhados em algumas pautas, em especial no que tange à agenda econômica. Contudo, após breve tentativa, fica nítido que a formação de uma base de apoio ao Presidente fracassou.

A separação do “Centrão” com a saída do MDB e do DEM traz outro problema para o Executivo: a perda da maioria em um possível processo de impeachment. Mas isso já é assunto para uma próxima discussão.



Carolina de Paula

É doutora em Ciência Política pelo IESP/UERJ, Diretora Executiva do DataIESP e consultora da UNESCO. Coordenou o "Iesp nas Eleições", plataforma multimídia de acompanhamento das eleições de 2018. Foi coordenadora da área qualitativa em instituto de pesquisa de opinião e big data, atuando em diversas campanhas eleitorais e pesquisas de mercado. Escreve mensalmente para o IREE.

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