12 de setembro de 2025
Tenho um certo orgulho, um tanto infantil, de nunca ter desejado o mal a ninguém. Porém, no julgamento de Bolsonaro, me peguei torcendo não por justiça, mas por vingança. Acho que consegui me curar, afastar esses pensamentos da cabeça. Acho.
Essa criatura conseguiu, até para nós que nunca o seguimos, nos fazer piores.
Nós, de minha geração, sempre acreditamos que o lado azul da borracha apagava escrita de caneta. Nunca comprovamos, mas acreditávamos. Tínhamos a caneta, tínhamos a borracha, tínhamos o papel, mas nunca somamos os 3. Preferíamos, sonsos, declarar que o lado azul da borracha apagava canetas.
O caso Bolsonaro não é lawfare
Walfrido Warde: “Julgamento de Bolsonaro testa instituições”
Assim são os bolsonaristas. Não podemos, pois, reclamar deles. Atire a primeira borracha, etc. Mas eles capricham. Depois de 10 anos de governo Lula continuam dizendo que ele vai implantar o comunismo. Bolsonaro queria fazer igual a Chávez na Venezuela, nos deixou economicamente parecidos com ela – mas é Lula quem nos venezuelizará – quem repetir isso em voz alta 3 vezes sem errar ganha uma lata de pessegada virtual. Dizem que não dá para aguentar a vida, mas estamos com pleno emprego, deflação mês passado, saímos do mapa da fome. Mas tem uma subespécie que está começando a ficar perigosa: os Cyrominions. Tudo que Lula faz é errado. Eles consideram que Cyro é o novo Messias – lato e stricto sensu.
Esta coluna, teoricamente – e bota teoricamente nisso! – é de humor. Mas perdemos Verissimo, perdemos Jaguar, o mundo ficou mais burro. É como se orixás pudessem morrer, nos deixando desprotegidos. Mesmo a condenação não trouxe felicidade, já me recuperei do surto, fico triste com o sofrimento alheio. Mas me pego pensando no desperdício, o sujeito consegue a proeza de se tornar presidente, e só faz o mal. Podia ter saído da pandemia como um herói, saiu como um idiota responsável por mais mortes que qualquer brasileiro na história. Acabam de noticiar que uma pesquisadora da UFRJ conseguiu reverter paraplegia – e ele só fez combater a universidade pública (e gratuita). Sempre fomos exemplo mundial na vacinação, e ele nos excluiu. Nem a ditadura fez isso, ela garantiu a aplicação universal – era no tiro, mas funcionava.
Isso, acho, o define: em termos práticos, foi pior que a ditadura. Não torturou, apesar de ser favorável, provavelmente deixou isso para seu período seguinte que, mercê de Deus, não veio. Deixou o país basicamente tão quebrado quanto os golpistas de 64, mas naquela época tínhamos esperança, uma causa comum. Agora somos um país dividido. Famílias separadas. Amizades destruídas. Máscaras caídas.
Meu Deus, tenho que escrever alguma coisa engraçada!
Já sei, o voto de Fux! 12 horas… Citou milhares de juristas, jurisprudências, decretos… Tudo para tentar, talvez, achar naquela mixórdia um perdão pelo que estava fazendo. Me lembrou Einstein (o penteado até era tão volumoso quanto, mas o do alemão era de verdade): editaram um livro chamado “100 Autores Contra Einstein”. Ele respondeu:
-Para que tantos? Se eu estivesse errado, bastaria um…
Ok, continuo sem graça. No máximo, engraçadinho.
Xavê, Fux condenou os patriotários, condenou Mauro Cid, e absolveu os chefes… Aí pode ter material, afinal para fazer gracinhas, in Fux we trust… Mas não tem, a coisa se esgota por si, nada a extrair. 400, 500 pessoas condenadas por alguma coisa que não houve e que além do mais não teve chefe. Na idade média supunha-se que os ratos nasciam de geração espontânea. Não conheciam as regras da fecundação, além de serem péssimos observadores, então achavam que os ratos surgiam espontaneamente do lixo: junta-se um pouco e voilá, temos ratos. É mais ou menos a tese do bom juiz.
Ratos? Lixo? Well, talvez faça sentido.
E se eu fosse o Xandão? Declararia minha condenação assim:
-Pela memória do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, que ficou impune, condeno Jair Messias Bolsonaro….
É, acho que não fiquei totalmente curado.
Estava na loja de produtos de umbanda e encontrei, na seção de charutos, Sir Winston Churchill. Com aquele ar de eterno mau humor, mas que certamente disfarça uma enorme simpatia, respondeu à minha saudação rosnando, e com os dois dedos em V – mas com a palma da mão virada para dentro. Achei estranho, vou checar no google o que isso significa.
Continuei puxando assunto, até que ele cedeu.
-Sir Winston, estou preocupado.
-Not my problem.
-Mas tem a ver com o fascismo…
Ele suspirou. Prossegui:
– Bolsonaro será preso. Mas tenho medo, afinal outros que foram presos, ao serem libertados se tornaram presidentes: seu desafeto Gandhi, Mandela, o próprio Lula…
-This comparison…
-Em português, por favor. Nossos leitores não necessariamente falam inglês.
-Se não falam inglês, não devem ter importância. Mas como ia dizendo, a comparação é indevida. Os que você citou foram presos políticos. O teu presidiário atual é um político preso, e de segunda categoria. Lembra mais um cabo que foi preso na Alemanha nos anos 30.
-Meu Deus!
-Pois é. Fiquem de olho caso ele resolva escrever um livro na cadeia sobre Sua Luta.
PS: Daqui meus melhores votos de melhoras para Reinaldo Azevedo. Isso não é hora de ficar sem voz, vampará de fumar imediatamente!!!!!!
Os artigos de autoria dos colunistas não representam necessariamente a opinião do IREE.
Ricardo Dias
Tem formação de Violonista Clássico e é luthier há mais de 30 anos, além de ser escritor, compositor e músico. É moderador do maior fórum de violão clássico em língua portuguesa (violao.org), um dos maiores do mundo no tema e também autor do livro “Sérgio Abreu – uma biografia”.
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