A Revolução, O Golpe e A Sardinha – IREE

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A Revolução, O Golpe e A Sardinha

Ricardo Dias

Ricardo Dias
É luthier, escritor e músico



A nostalgia é um sentimento amoral. Ela não faz qualificação de nada, apenas te remete a um momento em que, por alguma razão, houve uma âncora qualquer.

Por exemplo, mesmo com o asco habitual, sinto um certo conforto ouvindo Bolsonaro falar. Ele me remete à 5ª série. Eu sequer era feliz, vivia deslocado, era tímido, mas sei lá, era todo mundo jovem e ninguém estava morto e a felicidade era uma coisa certa como uma religião qualquer – desculpe, Pessoa. Mas vejo nosso presidente e aguardo, ansioso, o momento em que ele vai pregar um rabinho de papel na calça do Mourão, ou dar uma sardinha no bumbum da Zambelli. Ops, me dei conta que poucas pessoas lembram, ou mesmo sabem, o que significa isso. É dar uma espécie de chicotada com o indicador e o médio na bunda alheia, arde bastante. Sucesso inigualável na quinta série. 

Minha quinta série foi durante a ditadura. Falei dela na quinzena passada, quando contei que me refugiei na biblioteca para fugir de uma surra. Curioso, minha primeira lembrança da época foi justamente a possibilidade de apanhar… Viver naquele período implica coisas distintas. Por exemplo, se não me policiar, falo “Revolução”, não ditadura militar. A gente aprendia a ter medo de milico, a não falar o que pensava, era um tempo muito bom. Nós sabíamos que havia problemas, mas que todos seriam superados quando a transamazônica ficasse pronta, assegurava Amaral Netto, o Repórter, nas noites de domingo. Mais tarde virou deputado, cuja única plataforma era a pena de morte. O bom Amaral nadava com o boto cor de rosa, dançava com os índios, tinha orgasmos com a Pororoca e defendia o governo. 

Estudei no Colégio Pedro II, federal, fiz prova, tudo direitinho. Meus pais, em busca de uma boa educação, consideraram me inscrever no Colégio Militar. Pânico total, fui salvo pelo regulamento, que restringia as vagas para os filhos de militares. Sim, eles cuidavam dos seus, queriam uma casta própria. Aliás, fazendo as contas, esse pessoal que está aí é tudo meu contemporâneo. Puxa, perdi uma boquinha no governo, certamente haveria uma vaga para mim entre essas 7 mil que os militares ocupam. 

Mas, voltando, estudei em um colégio onde não havia elite. Nos considerávamos um pouco assim, passamos numa prova difícil, TODOS vindos de escolas públicas, mas entre nós não havia distinções. Meu pai era gerente de banco, meus melhores amigos eram o filho de um porteiro, de um comerciário, de um motorista de taxi, de uma alta funcionária do governo… Um alegre comunismo, todo mundo igualzinho, o mesmo uniforme, o mesmo sapato Vulcabrás, e a maioria dos professores, vejo hoje, de esquerda. Posso dizer que o ambiente do colégio me moldou, me ajudou a ser o que sou hoje, de bom e de ruim. Comecei a fumar lá, por exemplo (já parei); a namorar também (estou parando). 

Tivesse eu transmitido para alguém o legado de minha miséria – agora roubei de Machado, é uma tentativa desesperada de dar algum conteúdo a essa coluna – gostaria que estudasse num colégio assim, democrático, onde a pessoa se destacaria pelo que fosse, não por ser filho de alguém. 

Mas que não se pense que sofro de milicofobia! Tive parentes e amigos militares, gente digna, que honrou a farda. E, por circunstâncias da vida, criança, estive tanto na formatura de Bolsonaro quanto na de Mourão. Ambos estudaram na mesma turma de parentes meus. Como não podia prever o futuro, eles escaparam de levar uma cabeçada no saco, no mínimo. Mas não consigo entender o discurso de “naquele tempo é que era bom”. Já tive essa experiência diversas vezes: o cidadão teve seu auge econômico nos governos Lula. Foi à Disney – coisa que abomino, diga-se – comprou carro, fazia churrasco dia sim, outro também, os filhos se formaram, tudo direitinho. Mas exige a prisão do responsável por isso. No governo militar, inflação absurda, taxa para deixar o país (“depósito compulsório”), gente sumindo, é que era bom. Ou seja, o energúmeno acredita mais no que via na TV que no que vivia. Esse fenômeno precisa ser estudado com profundidade: o cara toma um tiro, se na TV aparecer que está tudo bem, ele sai caminhando e cantarolando, feliz. 

Então, essa história toda é para agradecer ao presidente. Vê-lo me renova, vê-lo me dá alegria. Sou reportado à infância, àquele período maravilhoso em que piadas racistas, machistas e homofóbicas nos faziam rolar de rir. Em que o Brasil era o país do amanhã, em que não havia corrupção nos noticiários, em que a vida seguia tranquila e o Brasil era para ser amado ou deixado. Por isso, sempre que vejo algum imbecil contando como era bom no período da ditadura, penso no velho William e  dou um novo sentido à frase “A vida é uma história contada por um idiota, cheia de som e fúria, sem fazer nenhum sentido”.

Com isso encerro a coluna dessa quinzena. Se falarem mal dela, estarão falando mal de Pessoa, Machado e Shakespeare, não terá sido culpa minha. 

E fico ansioso aguardando o presidente, em alguma live próxima, se referir ao Sunda.



Os artigos de autoria dos colunistas não representam necessariamente a opinião do IREE.

Ricardo Dias

Tem formação de Violonista Clássico e é luthier há mais de 30 anos, além de ser escritor, compositor e músico. É moderador do maior fórum de violão clássico em língua portuguesa (violao.org), um dos maiores do mundo no tema e também autor do livro “Sérgio Abreu – uma biografia”.

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