A Redentora, os Mosquitos e o Inferno – IREE

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A Redentora, os Mosquitos e o Inferno

Ricardo Dias

Ricardo Dias
É luthier, escritor e músico



Eu nasci um ano antes da Revolução Redentora. Não, não chamávamos de golpe, chamávamos de revolução, éramos ensinados assim. Lembro de uma aula de Educação Moral e Cívica – sim, havia isso – onde, na prova, veio a pergunta: O presidente da República é eleito pelo…

Bem, TODOS responderam “voto indireto”; a professora, de olhos esbugalhados, quase gritava: Não!!!! É pelo Colégio Eleitoral! Colégio Eleitoral!

A alegria de viver numa ditadura vinha disso: por causa de uma resposta, mesmo que inocente, não se sabia o que poderia acontecer. Tive outra professora que nos escandalizava, ela dizia impropérios, como “essa tal de Transamazônica não vai ficar pronta nunca! E aquela porcaria não serve para nada!”. Isso era preocupante, afinal a propaganda do governo nos assegurava que, quando estivesse pronta, ela mudaria tudo. Tudo o quê, não ficava claro. Mas aquele destemor todo de nossa professora logo ficou esclarecido, por uma inspetora bem informada/fofoqueira: ela era casada com um general. Logo, podia.

Ditadura é isso: você pode dizer qualquer coisa, se for da patota, ou absolutamente nada, se não for. Quando a gente vê pessoas insignificantes defendendo ditadura (pensando bem, isso é redundante; vamos dizer  pessoas sem prestígio, sem conhecimentos, sem padrinhos), vê que é o mesmo princípio de pobre não querendo ver grandes fortunas sendo taxadas: ok, hoje eu sou pobre, mas vai quê… A ideia é essa, sendo que numa ditadura é muito fácil a mediocridade arrumar um carguinho. Quanto mais burro, mais medíocre, mais sem caráter, mais simples.

Quase caímos numa. Não fosse a pusilanimidade do mitinho, a necessidade que todo covarde tem de estar num grupinho que o defenda – e em que outro tome as rédeas – poderíamos estar lascados agora.

60 anos! 60 anos dessa porcaria e ainda temos que aturar pontes, ruas, praças com nomes de golpistas. Os nomes se desvanecem com o tempo, mas já pensou se tivéssemos que passar por algo como:

-Então, combinado, amanhã na esquina de General Heleno com Bolsonaro.

-Legal, vou pela Sergio Moro!

-Não, ela mudou de direção de novo. Vai ter que pegar a Damares pelo outro lado.

Caso os desejos do bom General Heleno se realizassem, este sítio provavelmente não estaria no ar agora. Meus colegas de redação (acho MUITO chique mencioná-los!) Walfrido Warde, Silvio Almeida, Boulos, todo mundo em cana. Eu não, não tenho tanta importância assim, mas estaria confortavelmente escondido tremendo debaixo da cama. Nossa extrema direita grita a favor da liberdade de expressão, mas eles têm um conceito meio amplo: chamar Bolsonaro de um pequí roído, xingá-lo passando de carro na estrada, coisas assim, dão cana. Jornal que se atreve a criticá-lo é xingado. Mas eles acham inadmissível não poder contar piada de preto, por exemplo. Eles acham exagero não poder fazer gracejo para uma mulher no trabalho, mas acham natural debochar de homossexual. Cultura do estupro é uma bobagem inexistente, a não ser quando passam a mão na mulher deles. Se bem que não sei, o filósofo contemporâneo Rodrigo Constantino disse que, se sua filha fosse vítima de violência sexual, ele conversaria com ela para saber de seu comportamento…

Deve ser duro ter um pai assim. Aliás, creio que os filhos 01 a 04 deveriam ter um atenuante em suas penas, quando vier a cana. Será que eles poderiam ser diferentes? Da mesma forma que devemos ter piedade com o bandido que não teve nenhuma chance na vida, será que não devemos ter piedade dessas criaturas? Como terá sido sua educação? Criança vê tudo, o exemplo é importante… Só nos cabe rezar pela 05, coitada, fruto de uma fraquejada, segundo o pai.

Mas não podemos deixar de falar na Marielle. Aquela região por duas vezes me marcou a vida: nos anos 70 eu e meu pai passamos debaixo do viaduto da Paulo de Frontin, que minutos depois desabou, matando muita gente; no dia do assassinato, eu e meus pais havíamos transitado por ali poucos minutos antes.

Passamos anos querendo saber quem era o responsável pelo crime. Teoricamente descobrimos, e ficou um gosto de cabo de guarda-chuva na boca. Não fez sentido. E não, não esperava que o mandante fosse um Bolsonaro, seria folhetim demais, mas ficou uma sensação de vazio: aqueles insetos não seriam capazes de fazer algo tão grande.

Se bem que o animal que mais mata no mundo é o mosquito…

Minha função aqui é, basicamente, fazer graça. Mas esse mês não deu. Vendo o Congresso que ora elegemos, acho que vai ter muito choro e ranger de dentes. Temos o melhor governo em muitos anos, mas seus índices são baixos. Sim, a propaganda do Governo é um lixo, mas não tem como um povo ignorante, pobre, subnutrido, raciocinar livremente enquanto seus líderes religiosos os ameaçam com o inferno caso pensem diferentemente.

Eles já conhecem bem o Inferno, não querem ver o original.



Os artigos de autoria dos colunistas não representam necessariamente a opinião do IREE.

Ricardo Dias

Tem formação de Violonista Clássico e é luthier há mais de 30 anos, além de ser escritor, compositor e músico. É moderador do maior fórum de violão clássico em língua portuguesa (violao.org), um dos maiores do mundo no tema e também autor do livro “Sérgio Abreu – uma biografia”.

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