A psicanálise é política – IREE

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A psicanálise é política

29 de setembro de 2026

Bianca Coutinho Dias

Bianca Coutinho Dias
Psicanalista e crítica de arte



No momento em que o mundo se defronta com preocupantes rupturas democráticas, somos também tomados pela gravidade em uma das mais importantes eleições da história, diante da possibilidade do retorno a traumas que aqui deixaram marcas profundas. O esgarçamento da função simbólica da lei nos arremessa a um melancólico conto kafkaniano, em que devemos nos posicionar eticamente. Neste sentido, dar forma ao informe e ao incompreensível é uma tarefa coletiva que nos desafia e, aqui, relembro a ideia de que a psicanálise é política, fato que remonta aos primórdios da sua origem.

O próprio Sigmund Freud foi perseguido pela Gestapo e, obrigado a sair de Viena, cidade entregue à ferocidade antissemita, refugiou-se com a família na Inglaterra. No Brasil, colhemos ainda os efeitos da ferida aberta de uma ditadura que culminou no retorno catastrófico do discurso encarnado pela autoridade máxima, que sustenta narrativas eivadas de racismo, misoginia e autoritarismo.

Ao afirmar que “o inconsciente é a política”, Jacques Lacan abriu um novo espaço, levando em consideração os efeitos que resultam do declínio da lei. Em tempos de exceção é preciso lidar, com coragem e fulgor, com o intolerável e a deterioração da lei. É preciso também que a palavra e sua função de corte seja retomada, que se possa recusar o imperativo do gozo mórbido, o totalitarismo do Um. É neste sentido que a subversão do sujeito pode ser entendida.

Em “Lacan e a política”, Jacques-Alain Miller escreve: “A psicanálise não é revolucionária, mas é subversiva, porque vai contra as identificações, o ideais, os significantes-mestres. Em geral, é quando o sujeito é subvertido, destituído de sua mestria imaginária, quando sai da gaiola de seu narcisismo, que ele tem uma chance de enfrentar todas as eventualidades”.

O inominável político da ditadura ameaça retornar sobre nossos corpos e vidas. É preciso fazer circular a palavra como forma de resistência, convocar a lei e o espírito do comum. Estar diante da lei é tomar posição a partir daquilo que a constitui e também do que a excede. É preciso dizer não a uma psicanálise neutra e mercadólogica, a psicanalistas de frases de efeito banais em redes sociais. A psicanálise deve e pode mais.

Diante do pior e do terror, torna-se urgente retomar uma ideia de lei que reinvente a justiça como uma ética aguda. Mais uma vez, diante de concretas ameaças à democracia, é preciso que tomemos frente a atitudes necessárias, com clareza de atos e posturas públicas. Trata-se de fazer justiça à história da psicanálise, mas não somente. Como no conto “Diante da lei”, de Kafka, é preciso que se leve em consideração o que excede e o que está recalcado. Para tanto, há que ser rebelde à lógica, desconfiar da norma e cortar com a lâmina da palavra o discurso estabelecido.

Sabemos que, com base em leis autoritárias, ocorreram perseguições, mortes e torturas. Agora vemos ressurgir, de alguém que reencena a política de morte do pai, a sombra do autoritarismo. É preciso encontrar formas de reação a isso e criar um campo comum. A hora é agora: dos movimentos sociais à comunidade psicanalítica, a todos cabe a tarefa de agir no resgate da palavra. Frente à insistência do pior, a necessidade do levante.

A lei como reguladora – pulsação que desenha as bordas do mundo simbólico – é, por excelência, o que funda o lugar do sujeito. Devemos buscar essa lei simbólica nos gestos, nos atos políticos que permeiam nossa existência. Urge destacar “Subversão do sujeito”, texto em que Jacques Lacan assinala que não é  possível uma adequação total do sujeito ao objeto. Trata-se de uma convocação aguda ao mais subversivo dos gestos, que implica desejar sempre, opor a demanda ao desejo e este ao gozo, enfatizando, assim, o quanto é essencial ao sujeito aceder à castração, ao limite, à lei simbólica.

É urgente convocar a arte, a cultura e a poesia para que se sustente a transmissão ética, renovar a produção de meios que contribuam para uma escrita do mundo que não cesse de escrever o impossível e tocar esse real que é a própria subversão do sujeito, descrita de maneira brilhante e poética por Hélio Pellegrino:

“Somos imperfeitos, incompletos, separados – exilados. Temos que perder os primeiros, e mais absolutamente cobiçados, objetos do nosso desejo. O corte separador do nascimento, que marca biologicamente nossa expulsão do corpo da mãe, tem que ser depois reeditado, elaborado e construído, em termos psíquico-existenciais. Nascemos uma vez, quando somos expulsos do organismo materno. E, pela Lei do Pai, que interdita o incesto e instaura o primado da linguagem e da ordem simbólica, nascemos uma segunda vez. A interdição do incesto, fundadora da cultura, inscreve no plano da sexualidade e do desejo a cárie de incompletude que constitui o nosso centro, e nos permite emergir enquanto sujeitos. A vicissitude edípica, ao barrar a onipotência do desejo, quebra o labirinto de espelhos onde se açoita a arrogância narcísica e, introduzindo-nos à modéstia nos condena à perigosa vertigem da liberdade”.

Por uma aposta na palavra e na justiça e, para que exista liberdade para todos e capacidade de sonhar, precisamos agora, juntos, instaurar limites e cavar na cultura o lugar vivo em que todas as diferenças possam se colocar. Por uma psicanálise ativa e ética: não há neutralidade possível em momentos que pedem atos e barreiras ao gozo devastador da extrema-direita.



Os artigos de autoria dos colunistas não representam necessariamente a opinião do IREE.

Bianca Coutinho Dias

É psicanalista, escritora, ensaísta e crítica de arte, atua no território multidisciplinar da psicanálise, literatura, filosofia, teoria e prática artística. Mestre em Estudos Contemporâneos das Artes pela Universidade Federal Fluminense - UFF (2017). Especialista em História da Arte pela Faculdade Armando Alvares Penteado - FAAP (2011).

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