Do tarifaço global à pressão política sobre o Brasil
Uma das primeiras medidas de Trump em seu segundo mandato foi a imposição de um tarifaço global sobre importações, anunciado em 2 de abril de 2025 sob o argumento de promover a “reciprocidade comercial”. A política estabeleceu tarifas de 10% a 50% sobre produtos de mais de 180 países, ignorando regras internacionais de comércio. Para o Brasil, a taxa foi fixada em 10%, apesar do país registrar déficits na balança comercial com os EUA. Segundo o presidente norte-americano, as tarifas tinham como objetivo combater práticas comerciais desleais e recuperar o setor industrial do país.
No caso brasileiro, porém, a pressão ganhou uma dimensão política poucos meses depois. Em 9 de julho, Trump anunciou, em carta pública ao presidente Lula, a elevação da tarifa sobre produtos brasileiros para 50%, com previsão de entrada em vigor em 1º de agosto. Ao justificar a medida, Trump citou diretamente Jair Bolsonaro e classificou como “uma vergonha internacional” o julgamento do ex-presidente pelo Supremo Tribunal Federal. Lula respondeu que o Brasil não aceitaria ser “tutelado por ninguém” e que o aumento unilateral das tarifas seria respondido com base na Lei da Reciprocidade Econômica.
Nesse contexto, Eduardo Bolsonaro passou a atuar nos Estados Unidos em defesa de novas medidas contra o Brasil. Vivendo no país desde março daquele ano, o ex-deputado afirmou que buscava o governo Trump para defender novas tarifas e sanções contra autoridades brasileiras.
A escalada continuou em 15 de julho, quando o Representante Comercial dos EUA abriu uma investigação contra o Brasil por supostas práticas comerciais desleais, com base na Section 301. Em 30 de julho, Trump formalizou a tarifa de 50% e declarou estado de emergência nacional em relação ao Brasil, citando novamente o julgamento de Bolsonaro e alegadas ameaças à economia e à segurança dos Estados Unidos. No mesmo dia, o governo americano revogou os vistos de oito ministros do STF e aplicou sanções financeiras contra Alexandre de Moraes com base na Lei Magnitsky. Em 22 de setembro, os EUA estenderam as sanções contra a advogada Viviane Barci de Moraes, esposa de Moraes, e contra o Lex Instituto, ligado à família. As sanções foram retiradas em 12 de dezembro.
A pressão também se estendeu a outras áreas do governo brasileiro. Em 13 de agosto, os EUA
revogaram vistos de autoridades e ex-integrantes do governo ligados ao programa Mais Médicos, sob críticas à participação de médicos cubanos na iniciativa.
Aproximação entre Trump e Lula
De setembro de 2025 a maio de 2026, houve um período de aproximação entre Lula e Trump, apesar das tensões comerciais e diplomáticas. No dia 23 de setembro de 2025, os dois tiveram um breve encontro durante a Assembleia-Geral da ONU, descrito como amistoso. Trump afirmou posteriormente que os dois tiveram uma “excelente química”.
Em 6 de outubro, conversaram por cerca de 30 minutos por videoconferência, quando Lula pediu a retirada das tarifas e das medidas restritivas contra autoridades brasileiras. Trump classificou a conversa como “muito boa”, e as equipes acertaram um encontro presencial, que foi realizado no dia 26 de outubro, na Malásia, durante a 47ª Cúpula da ASEAN. A conversa durou cerca de 50 minutos, com sinalização de um possível acordo.
Em 20 de fevereiro de 2026, em meio ao processo de aproximação entre os dois governos, a Suprema Corte dos EUA derrubou o tarifaço global imposto por Trump em 2025. A decisão atingiu as tarifas aplicadas a diversos países e encerrou a cobrança da tarifa de até 50% sobre produtos brasileiros.
A articulação diplomática culminou na visita de Lula à Casa Branca, em 7 de maio de 2026, quando os presidentes se reuniram por cerca de três horas. Ao final, Trump elogiou Lula, chamando-o de “bom homem” e “cara inteligente”, e afirmou que os dois países poderiam ampliar o comércio.
A volta da pressão
O clima demorou apenas 20 dias para azedar novamente, com a visita de Flávio Bolsonaro à Casa Branca no dia 26 de maio. Realizado fora da agenda oficial do governo americano, o encontro ganhou peso político por colocar em destaque o pré-candidato de oposição mas eleições brasileiras. Nas semanas seguintes, a mudança de postura de Washington se tornou mais evidente, com novas iniciativas que passaram a atingir o governo Lula e temas centrais da disputa política no Brasil.
Em 5 de junho, entrou em vigor a decisão dos EUA de classificar o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas. A medida veio após Flávio Bolsonaro afirmar que havia pedido a Trump que adotasse essa classificação, reforçando a percepção de articulação política com Washington. O governo brasileiro, por sua vez, rejeitou a iniciativa e alertou para seus possíveis impactos sobre a cooperação em segurança e a soberania nacional.
No dia 15 de julho, Trump anunciou uma tarifa de 25% sobre produtos brasileiros, alegando que práticas como o Pix e a regulação das Big Techs restringiam o comércio americano. O secretário de Estado, Marco Rubio, atribuiu a medida ao governo Lula e afirmou que o Brasil não teria negociado “de boa-fé” com os EUA. No mesmo dia, Trump publicou uma foto do encontro com Flávio Bolsonaro na Casa Branca, elogiando o senador.
Interferências diplomáticas
Em meio a esse contexto, em 24 de julho, o governo brasileiro negou visto a dois funcionários do Departamento de Estado dos EUA por avaliar que a missão poderia representar risco de interferência política no processo eleitoral brasileiro. Quatro dias depois, Trump prorrogou por mais um ano o estado de emergência contra o Brasil, declarado em 2025, e voltou a criticar o STF e a acusar o governo brasileiro de ameaçar a liberdade de expressão.
A tensão diplomática ganhou outro capítulo com a indicação de Daniel Perez, deputado republicano escolhido por Trump para ser embaixador no Brasil. O nome foi anunciado em junho sem consulta prévia ao governo brasileiro, e o pedido formal de agrément só foi encaminhado mais de duas semanas depois. A escolha gerou desconfiança em Brasília não apenas pela quebra do protocolo diplomático, mas pelo perfil político de Perez e pela indicação em meio à pressão de Washington sobre as eleições brasileiras. Durante a sabatina, o republicano afirmou que pretendia acompanhar o processo eleitoral e defender “eleições livres e justas” no país.
O governo brasileiro sinalizou que analisaria a indicação apenas após as eleições. Em 4 de agosto, os EUA revogaram o visto da embaixadora brasileira em Washington, Maria Luiza Ribeiro Viotti, apresentando a medida como resposta à demora na concessão do agrément.