A Pastora Socialista, o Panelaço e o Burro de Piranha – IREE

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A Pastora Socialista, o Panelaço e o Burro de Piranha

6 de maio de 2026

Ricardo Dias

Ricardo Dias
É luthier, escritor e músico



Uma das coisas mais democráticas que vi nos últimos tempos foi a menina “pastora” pregando dentro de um avião. Assim, as classes mais abastadas entendem o que passa uma pessoa civilizada dentro de trens, metrôs, e ônibus urbanos. O inferno agora só falta atacar em cruzeiros de luxo.

A menina é quem menos tem culpa, deve ter sido criada para ser uma idiota, com muito sucesso, por pais igualmente sem noção. Num outro voo, uma passageira começou a berrar. Depois de checarem se ela não havia apertado demais o cinto de segurança, ou mordida por um urubu, descobriu-se que ela estava falando – gritando – em línguas. Sabe como é, estava perto do céu, não precisava de DDD, aproveitou. É exatamente essa gente que coloca o 01 na frente das pesquisas, que vota nos Sóstenes, nos Alcolumbres, nos Girões… É essa gente que temos que educar, com uma suavidade que não tenho. Será que conseguimos?

Não sou um nefelibata (dicionário, rápido!), nem um néscio (de novo, se necessário): essa gente não tem jeito, estamos indo pro ralo.

Na época da faculdade, em pleno período de abertura, houve um retrocesso (medidas de emergência em Brasília, general ofendendo jornalista…). Todos tememos que o processo de abertura se encerrasse, então ajudei a derrubar a ditadura: participei de um panelaço. Tenho certeza de que o poder tremeu diante daquela demonstração de indignação, portanto me orgulho de ser corresponsável pela volta da democracia. O que não imaginava ali, tendo voltado o irmão do Henfil, tanta gente que partiu num rabo de foguete, tendo votado para governador pela primeira vez (Brizola), vendo o país ficar mais alegre, é que tão pouco tempo depois teríamos uma ditadura batendo à nossa porta. Batendo e a galera abrindo, dando as boas-vindas e servindo cafezinho. É fácil reduzir isso à ignorância do povo, como fiz lá em cima, mas nossas elites não ficam atrás. Também são ignorantes, mas, com grana, fica tudo mais fácil. Inclusive ser burro.

Esses a gente também não consegue educar.

Enquanto a gente discute sobre coisas absolutamente relevantes, como dizer todes, ou, como ouvi numa cerimônia, que a discursante queria ESCURECER um ponto (“esclarecer” deve ser racista), a extrema direita se ajeita. E vem muito bem organizada.

Colocaram o letrado Zema como burro, digo, boi de piranha. Ele vem na frente, explicitando tudo que a extrema direita vai fazer. Não será eleito, mas terá um ministério garantido, ou outra boquinha mais apetecível. Eles avaliam o resultado, a repercussão (E um viva à Globo. Ela dá mais tempo para ele, que tem 3% das intenções de votos, que para qualquer conquista de Lula), e veem a melhor forma de edulcorar (dicionário, rápido!) o pepino que se nos será introduzido.

Pior, talvez nem seja preciso edulcorar nada.

Estamos no meio de um golpe. A recusa de Bessias pelo Congresso foi um tapa na cara. A lei da dosimetria, outro. Não do governo, mas da gente. E isso vai beneficiar muita gente boa, como Fernandinho Beira-Mar, Marcola, Marcinho VP… E, claro, vai beneficiar o mais perigoso de todos, o responsável por mais de 400 mil mortes: Jair Messias.

-Ué, não morreram 700 mil?

-Sim, mas países com populações semelhantes perderam no máximo 300 mil cidadãos. A diferença para mais é que vai na conta dele.

-Ah, sim, muito obrigada.

-Disponha.

O busílis (desculpem, dicionário de novo!) aqui é que Lula não tem mais poder real. O Congresso manda e, com isso, manda a extrema-direita. Ele tem duas opções: ou incorpora o Lula do Velho Testamento e senta o cacete, para depois ver no que dá, ou compra o Centrão. Prefiro a primeira opção, pois o Centrão é que nem aqueles sites de oferta que aparecem nas redes: a gente compra, mas eles não entregam.

E nunca ninguém vai preso.

Um parêntese: esses telefones que nos dão golpe. Até onde sei, para ter uma linha precisa dar o CPF. Por que a polícia não faz nada? Hein? Hein? Hein?

Fechando o parêntese, e voltando a ela, a Globo inovou: deu espaço a Paulo Figueiredo, neto de nosso último ditador e foragido da justiça. Brevemente, teremos “Bom Dia, Orlando”, com Alan dos Santos, “É de Casa” com Sóstenes, “Festa do Peão de Boiadeiro” no Texas, com Bananinha, e “A fantástica Loja de Chocolate” com o candidato Flavio 01.

E dicas de beleza com Carla Zambelli.

Mas nem tudo é eleição. Lula precisa urgentemente lutar por nosso herói, Thiago Ávila, preso ilegalmente na flotilha que tentava levar ajuda humanitária para a Faixa de Gaza. Lutar com unhas e dentes para salvá-lo, e em seguida cobrar de Israel a espionagem feita na vida do rapaz. Ou o Mossad anda atuando por aqui, ou anda dando um pixulé para algum desocupado de extrema direita fazer o serviço sujo, o fato é que Thiago disse que mostraram fotos da casa e da família dele.

E assim que estiver tudo esclarecido, romper relações com os nazi-sionistas.

Estava conversando com o pipoqueiro da pracinha quando dei lugar para um senhor que queria uma meio doce, meio salgada. Enquanto ele decidia sobre qual viria por cima (eu sugeri que a de sal ficasse embaixo, justamente para os grãos não salgarem o açúcar, mas fui contestado pelo vendedor de algodão doce que dizia o oposto, que caramelo salgado era o máximo), se aproximou um cavalheiro ilustre, de óculos, que reconheci imediatamente: José Saramago! Contive meu entusiasmo, por sabê-lo pessoa discreta e pouco afeita a encômios (dicionário, mais uma vez!), e saudei-o discretamente. Pois ele vinha com um jornal – de papel! – dobrado debaixo do braço e mostrando justamente a entrevista de Zema defendendo o trabalho infantil. Não resisti e perguntei-lhe o que achava desse despautério (desculpem, não faço mais!), e ele não se fez de rogado (ok, foi a última vez!):

-Meu senhor, acho extremamente coerente. Eles defendem que crianças não possam abortar, se estupradas, exatamente para isso: para terem mão de obra abundante!

PS: O algoritmo do Instagram fez das coisas mais nojentas jamais vistas: assim que terminei de escrever, apareceu no meu feed um vídeo do Thiago Ávila tranquilizando a todos, dizendo que estava em casa, que estava tudo bem. Pois trata-se de um vídeo antigo, de uma outra prisão dele! O único objetivo dessa redistribuição da postagem é a de desmobilizar os esforços pela sua libertação. Algoritmo fascista e sionista.



Os artigos de autoria dos colunistas não representam necessariamente a opinião do IREE.

Ricardo Dias

Tem formação de Violonista Clássico e é luthier há mais de 30 anos, além de ser escritor, compositor e músico. É moderador do maior fórum de violão clássico em língua portuguesa (violao.org), um dos maiores do mundo no tema e também autor do livro “Sérgio Abreu – uma biografia”.

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