A nova velha onda reacionária – IREE

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 A nova velha onda reacionária

Erika Hilton

Erika Hilton
Deputada Federal



No dia 10 de dezembro de 2023, mais um país Amefricano (porque era assim que Lélia González chamava) será comandado por um representante alucinado desse projeto político mundial, ultra-neoliberal, anti-humanidade e nefasto chamado extrema direita. Com a posse de Javier Milei na Argentina, a América do Sul passará a ter oito países com governos de esquerda e quatro de direita. Uma maré de conservadorismo e de retrocessos, com ondas que atingiram a Europa apenas alguns dias depois da eleição de Milei e chegaram à Holanda, onde o Partido Pela Liberdade (que, apesar do nome, também integra o espectro da ultra-direita) foi o mais votado nas eleições legislativas nacionais. 

Alicerçado no medo, no moralismo, na violência e no fundamentalismo religioso, o discurso da extrema direita seduz pela simplificação que produz sobre a realidade – que não é e nunca será simples. A complexidade é o que define o nosso mundo. Mas a partir de postulações simples (ou simplórias) e que parecem fazer sentido, esse discurso ganha uma alta capacidade de aderência. Quem antes não entendia, passa a achar que entende, que critica, que tem opinião, que se posiciona, quando na verdade, reproduz um discurso contra si próprio, contra seus entes queridos, contra a maior parte da humanidade. Afinal, se excluirmos os principais alvos dos discursos da extrema direita pelo mundo – a população negra, os povos indígenas, as mulheres, a comunidade LGBTQIA+, os imigrantes – sobra muito pouca gente. 

Não é de hoje que a religião e até mesmo a ciência são usadas para justificar a barbárie. Já vimos esse filme quando passagens do Velho Testamento e o racismo científico foram usados para justificar a escravidão negro-africana. Ou quando a Inquisição usou a Bíblia para assassinar pessoas com orientações sexuais e identidades de gênero divergentes. Até aí, nada de novo. Até porque, como sabemos, nada se cria. O que essa nova onda reacionária traz de inovador e perigoso é o banditismo das redes sociais, uma indústria de fake news sem precedentes e que produziu um fenômeno em escala global. Um projeto político muito bem orquestrado, que conta com o moralismo e o fundamentalismo religioso para justificar exclusão e retirada de direitos conquistados, constituindo-se, portanto, em ameaça à Democracia. 

Por aqui, derrotamos o ex-presidente (ainda precisa falar o nome dele?), mas como dissemos e repetimos desde o (feliz) dia da apuração do 2º turno das eleições de 2022, apenas derrotar o inominável (e inelegível) ainda não é o suficiente. É preciso derrotar o bolsonarismo e reverter o rastro de destruição e caos social que ele deixou. 

Para além de não tolerar a cafonice e a falta de beleza, enfraquecer esse projeto político significa também – e principalmente – enfraquecer seus representantes que ainda ocupam posições de poder, como os governadores de estados como São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro, além de todos os deputados e senadores alinhados ao governo anterior que conseguiram se eleger, demonstrando que esse ideário continua perigosamente presente em nossa sociedade. 

Bastiões do que há de mais retrógrado na política, esses senhores estão visceralmente comprometidos com uma agenda de exclusão social, ataques à cidadania (de quem eles não consideram cidadãos, obviamente) e retirada de direitos. Promovem uma política de Segurança Pública que autoriza chacinas, massacres e prisões em massa, que vitimam especialmente a população negra e favelada. Diminuem investimentos e realizam desmontes nos serviços de assistência às mulheres, ao mesmo tempo que as estatísticas mostram aumento nos índices de feminicídio. Não reconhecem ou querem revogar direitos civis para comunidade LGBTQIA+, como o casamento igualitário. Sucateiam e privatizam os serviços básicos fazendo com que direitos que deveriam ser universais, como saúde, educação e acesso à água, se tornem privilégios. 

É, novamente, um grupinho querendo decidir quem é e quem não é humano, quem tem e quem não tem direito a ter direitos. Mais do que uma disputa política, trata-se de uma disputa de marcos civilizatórios. Afinal, que humanidade queremos? Que futuro queremos construir? E sobretudo: quem vai ser considerado digno de fazer parte desse futuro?

A nova onda conservadora é uma reação ao avanço das políticas sociais, da representatividade dos grupos minorizados nos espaços de poder e decisão, de um novo projeto de mundo. Uma reação a nós, ao nosso avanço, e ao que representamos: o desejo de uma sociedade mais justa e igualitária, em que caibam todas as formas de ser e de existir. Para eles, isso é uma ameaça. Evidencia os recalques e afronta o medo da diferença, que eles não entendem e só conseguem traduzir por uma necessidade de eliminação do outro.

O que possibilita o avanço da extrema direita é exatamente a alienação que ela produz, aliada a algum tipo de síndrome da psiquê humana de se espelhar e querer ser outra coisa diferente daquilo que se é. Mas, por ora, fico por aqui e deixo essa análise para os profissionais da saúde mental.



Os artigos de autoria dos colunistas não representam necessariamente a opinião do IREE.

Erika Hilton

Primeira Deputada Federal negra e trans eleita na história do Brasil. ‌Foi vereadora da cidade de São Paulo, tendo sido a mais votada das eleições municipais de 2020. Na cidade, foi autora da Lei que criou o Fundo Municipal de Combate à fome e presidiu a primeira CPI que investigou origens e causas das violências contra pessoas trans e travestis. Presidenta da Frente Parlamentar Mista por Cidadania e Direitos LGBTI+ do Congresso Nacional e vice presidente da Comissão de Direitos Humanos, Minorias e Igualdade Racial. Erika foi nomeada 2 vezes pela Revista TIME como uma das 100 lideranças da nova geração, em 2021 e em 2023, entrou para a lista das 100 pessoas afrodescendentes mais influentes do mundo, e uma das cinco ativistas globais premiadas pela luta na defesa da comunidade LGBTQIA+ pelo MTV European Music Awards.

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