A nova direita latino-americana – IREE

Análises e Editorial

A nova direita latino-americana

19 de junho de 2026

Nos últimos anos, ainda que com trajetórias e perfis bastante distintos entre si, lideranças de direita ganharam espaço na América Latina refletindo uma tendência regional impulsionada por três temas principais: problema na segurança pública, crise econômica e rejeição a partidos tradicionais.

Apesar de diferenças ideológicas e de origem, esses líderes compartilham alguns discursos em comum. Entre eles, destacam-se a defesa de políticas mais duras de segurança pública, forte crítica à esquerda e a pautas progressistas, além do apoio a políticas econômicas de orientação pró-mercado e a busca de maior alinhamento aos Estados Unidos.

Outro traço comum é o uso de discursos conservadores e, em alguns casos, altamente polarizadores, que mobilizam o debate público em torno de temas como direito das mulheres e da população LGBTQIA+.

Perfis e trajetórias

Nayib Bukele, El Salvador

Entre as figuras mais representativas dessa nova onda da direita chegando à Presidência de países da América Latina está Nayib Bukele, Presidente de El Salvador. Empresário, publicitário e ex-prefeito por uma legenda de esquerda, ele rompeu com os partidos tradicionais e chegou à presidência com uma agenda centrada no combate às gangues e na política de “mão dura” na segurança pública. Um dos símbolos dessa estratégia é uma mega-prisão de segurança máxima projetada para abrigar até 40 mil detentos. Em 2025, o total carcerário do país chegou a 115 mil pessoas, o equivalente a 2,6% da população total de El Salvador.

A política de segurança de Bukele se insere em uma estratégia mais ampla de caráter autoritário. Ele foi eleito presidente em 2019 pelo partido Novas Ideias e, em 2021, conquistou maioria absoluta no Legislativo, o que fortaleceu seu controle institucional. Desde então, seu governo tem sido acusado de enfraquecimento de mecanismos democráticos, com relatos de repressão à oposição e pressões sobre organizações da sociedade civil e veículos de imprensa.

Santiago Peña, Paraguai

O presidente do Paraguai, Santiago Peña, eleito em 2023, é economista, com passagem pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) e foi ministro da Fazenda durante o governo de Horacio Cartes (2013–2018). É do Partido Colorado, legenda mais tradicional do país, que governou o Paraguai por grande parte das últimas sete décadas, com exceção do período entre 2008 e 2013.

Dessa forma, sua gestão tem perfil conservador e dá continuidade a essa tradição política. Em campanha, Peña prometeu “mais dinheiro no bolso dos paraguaios”, com foco na geração de empregos, na formalização da economia e no combate à evasão fiscal. No campo dos costumes, adota posições conservadoras, sendo contrário ao aborto e ao casamento entre pessoas do mesmo sexo.

Javier Milei, Argentina

O presidente da Argentina, Javier Milei, eleito em 2023, é economista e ganhou projeção como comentarista de TV com críticas à chamada “casta política”. Embora seja ex-deputado, lançou-se à Presidência com um perfil de “outsider”, em uma campanha marcada pela defesa de uma agenda ultraliberal, com propostas de redução drástica do Estado, cortes de gastos públicos e subsídios, e privatizações.

No governo, sua atuação tem sido associada a um forte ajuste fiscal e a uma maior abertura de mercado, em um contexto de inflação elevada e crise econômica prolongada. Sob sua gestão, a Argentina registrou queda da pobreza e redução da inflação mensal. Ainda assim, o país sofre com inflação alta, aumento do desemprego e redução de investimentos nos serviços públicos.

José Antonio Kast, Chile

O presidente do Chile, José Antonio Kast, eleito em 2025, é advogado e uma das principais figuras da direita conservadora chilena. Fundador do Partido Republicano, sua campanha foi centrada na defesa da ordem pública, no endurecimento das políticas de segurança e no controle da imigração, incluindo proposta de um muro na fronteira com a Bolívia.

Sua atuação também se associa à defesa de pautas conservadoras no campo social, incluindo sua posição contrária ao aborto mesmo em casos de estupro. No campo econômico, defende políticas de orientação pró-mercado como solução para a retomada do crescimento econômico.

Nasry Asfura, Honduras

O presidente de Honduras, Nasry Asfura, eleito em 2025, é empresário da construção civil e ex-prefeito de Tegucigalpa, ligado à direita tradicional hondurenha. Sua trajetória política está associada à gestão municipal e à atuação no Partido Nacional.

Sua campanha foi centrada no endurecimento no combate às máfias, com propostas de retomada do controle territorial e implementação de um plano anti-extorsão. Também defendeu investimentos em infraestrutura e o aprofundamento da cooperação com Washington, especialmente em temas de segurança e da imigração ilegal de hondurenhos.

Rodrigo Paz, Bolívia 

O presidente da Bolívia, Rodrigo Paz, foi eleito em 2025, encerrando quase duas décadas de governos de esquerda no país. Político de centro-direita, assumiu o cargo com a promessa de estabilizar a economia, reduzir o déficit público e atrair investimentos.

Desde o início do mandato, o governo enfrenta forte instabilidade social. O corte de subsídios aos combustíveis elevou os preços e o custo de vida, desencadeando protestos em diferentes setores. A crise se agravou com a Lei de Terras, revogada depois de forte mobilização social, e as manifestações seguem pressionando o governo, incluindo grupos que pedem a sua saída.

Abelardo de la Espriella, Colômbia

O advogado criminalista e empresário colombiano Abelardo de la Espriella construiu sua projeção pública a partir da atuação na mídia e nas redes sociais, com forte crítica à elite política tradicional. Sem trajetória política anterior, apresenta-se como um “outsider”, empresário bem-sucedido e independente.

Ele venceu o segundo turno, disputado no dia 21 de junho, como nome da direita contra Iván Cepeda, aliado do atual presidente Gustavo Petro. Sua agenda é centrada no combate ao crime organizado e à corrupção, com um discurso que ele próprio define como uma “batalha moral e espiritual” contra o que considera degradação institucional e social. De la Espriella afirma admirar os governos de Nayib Bukele, em El Salvador, Javier Milei, na Argentina, e Donald Trump, nos Estados Unidos.

Disputa o segundo turno

Keiko Fujimori, Peru

Keiko Fujimori, filha do ex-ditador Alberto Fujimori, disputa sua quarta eleição presidencial no Peru. Até sexta-feira, 19 de junho, liderava a apuração com cerca de 50,1% dos votos, com 99,38% das urnas contabilizadas.

Ganhou projeção como principal representante do fujimorismo, com forte presença no Congresso e na política nacional. Sua campanha é centrada no combate ao crime, na defesa da ordem e da estabilidade política. Seu discurso também critica a esquerda, frequentemente associando suas propostas à “pobreza e ao caos”.



Por Samantha Maia

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