A Negociação, a Honradez e o Puxa-Saquismo Desvairado – IREE

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A Negociação, a Honradez e o Puxa-Saquismo Desvairado

2 de julho de 2025

Ricardo Dias

Ricardo Dias
É luthier, escritor e músico



A muito querida jornalista Vera Magalhães nos informa que Lula “precisa aprender a negociar com o Congresso”. 

Ora, isso é sabedoria em estado puro! Por exemplo, Hugo Motta e Haddad dão uma entrevista conjunta falando em momento histórico, a concordância com o aumento do IOF. Apertos de mão, beijinhos no rosto e, no dia seguinte, Motta ajuda a derrubar a medida. O mesmo Congresso, aliás, que aprovou quase que o dobro deste aumento no governo Bozo. 

Faltou negociar. Negociar de forma mais profunda. Mais convincente. Mais tocante.

Uma vez, numa época em que eu dava aula, fui parado pela polícia por estar dirigindo falando ao celular. Para quem não é do Rio, Túnel Rebouças, que tem duas galerias. Fui parado entre elas.

-O senhor estava falando no celular.

-Sim, estava.

-Isso dá multa.

-Eu sei, paciência.

-Multa em túnel é dobrada (acho que é mentira).

-Não sabia. Dei azar.

-Multa cara…

-Pois é.

-Perde pontos na carteira…

-Chato isso.

-Um dinheiro alto.

-É.

O outro policial perguntou:

-O senhor faz o quê?

-Sou professor.

-Vambora. Esse daí tá pior que nós, daí não vai sair nada.

Ou seja, deu certo, mas eu, como Lula, não sei negociar.

Será que fui sutil demais?

 Mas o tema palpitante é a ascensão e queda de Bozo. Acabou de fazer um evento com menos gente que jogo de várzea. Magno Malta, animado pelo espírito (será que fui sutil demais?), disse coisas profundas, porém incompreensíveis. Malafaia com a serenidade de sempre, e Bozo falando da luta pela liberdade. De qual liberdade está faltando? O cara sobe em carro de som para falar bobagem e nada acontece, a não ser bocejos ocasionais. Mas aparentemente a imprensa, na sua infinita sabedoria, já escolheu seu candidato. Assim como escolheu Collor, Aecio e Bozo, escolhe Tarcísio. A imprensa tem um gosto por aromas que é muito semelhante ao gosto das moscas. 

O dólar caiu muito. E quem me lê sempre sabe que isso é algo complexo na minha cabeça: o dólar subiu, o governo não fez ajuste fiscal. O dólar caiu, eles saem assoviando e olhando pra cima com a mão no bolso. O dólar sobe de novo, o governo não fez o ajuste fiscal. Agora caiu no nível mais baixo do semestre e, ao que eu saiba, o governo não fez o ajuste fiscal.

Tem MUITO comentarista econômico assoviando e olhando para cima, com a mão no bolso. 

Os números do governo são históricos, ainda mais depois da terra arrasada deixada por Bozo e Paulo Guedes. Mas nossa imprensa…

Será que fui sutil demais?

O fato é que Lula está vindo de canivete numa briga de metralhadora. O Congresso está tramando um golpe, apoiado pela nossa querida imprensa. A desinformação é total, a propaganda do governo é da mesma qualidade da Batata Show, o povo acredita mais em whatsapp que no Papa. A popularidade vai caindo, a anistia é o caminho para que, no remoto caso de uma vitória de Lula em 26, haja um golpe eficaz – como aconteceu em 64. Os bolsominions querem eleger senadores para impichar os ministros inimigos do STF. Imaginem o cenário, maioria no senado, golpistas soltos, Tarcísio eleito.

Na última eleição, o PT (um dos partidos mais burros do universo) apoiou o inexpressivo Ceciliano, deixando o combativo Molon sozinho. Comentei com um amigo, que achava Molon muito superior. Mas como ele é filiado ao PT, tinha que votar no outro.

Hein? 

Meu patrão aqui, Walfrido Warde, me deu uma enorme chance de puxar seu saco. Num discurso brilhante, disse que se continuarem a se apropriar do orçamento, o presidencialismo acaba. E é a mais pura verdade. Como já disse, há um golpe em curso. 

Estava pensando nisso quando encontrei o conselheiro Ruy Barbosa no açougue, discutindo uma questão qualquer com o açougueiro. Aguardei o fim da tertúlia e me aproximei, cauteloso.

-Dr Ruy, desculpe abordá-lo assim, mas preciso saber o que o senhor acha do Congresso atual. 

Ele me olhou por sobre o pince-nez, claramente se perguntando quem diabos eu era. Mas resolveu responder:

-Meu senhor, escrevi um texto que é repetido ad nauseam em todos os cantos: de tanto ver triunfar as nulidades, etc. e concluía dizendo que o homem desanimaria da virtude, e teria vergonha de ser honesto. Eu diria que neste caso este Congresso não tem por que sentir vergonha.

Será que fui sutil demais?

 

P.S.: Temos uma tradição de honradez na presidência. FHC combateu a ditadura, Dilma foi fotografada de cabeça erguida, enquanto os juízes militares da ditadura escondem o rosto. Lula desafiou Moro olhando-o no olho. Bozo convidou Xandão para ser seu vice.



Os artigos de autoria dos colunistas não representam necessariamente a opinião do IREE.

Ricardo Dias

Tem formação de Violonista Clássico e é luthier há mais de 30 anos, além de ser escritor, compositor e músico. É moderador do maior fórum de violão clássico em língua portuguesa (violao.org), um dos maiores do mundo no tema e também autor do livro “Sérgio Abreu – uma biografia”.

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