A menina obediente e a mulher que não governa – IREE

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A menina obediente e a mulher que não governa

1 de outubro de 2026

Danielle Zulques

Danielle Zulques
Diretora de política e sociedade do IREE



Outro dia, conversando sobre a Nina, minha filha, me peguei dizendo, com aquele orgulho genuíno de mãe, que ela é uma menina muito obediente e boazinha. E é mesmo. Mas fiquei incomodada com a minha própria escolha de palavras. Minha filha é inteligente, curiosa, engraçada, questionadora, tem uma personalidade enorme e, entre tantas qualidades, fui justamente elogiar sua capacidade de obedecer.

O pior é que falei com a maior naturalidade do mundo. Eu, que escrevo sobre política, discuto os direitos das mulheres e defendo nossa presença nos espaços de poder, estava orgulhosíssima porque minha filha sabe obedecer.

Fiquei imaginando a mesma conversa sobre um menino. É claro que também elogiamos meninos educados, mas dificilmente a submissão acompanha um homem como uma qualidade desejável. Pelo contrário, um homem excessivamente obediente, que não se impõe ou que aceita passivamente as decisões dos outros, corre o risco de ter até sua masculinidade questionada.

Com as mulheres, aprendemos a admirar justamente aquilo que desprezamos nos homens. A menina que não responde, a esposa compreensiva, a mãe que renuncia, a mulher que suporta tudo sem reclamar.

Não estou falando de boas maneiras ou da necessidade de ensinar limites às crianças. Estou falando de algo que vai muito além disso: a construção de uma ideia de feminilidade na qual a capacidade de obedecer se confunde com a própria noção de caráter.

Simone de Beauvoir, em O segundo sexo, examinou como a educação prepara meninas e meninos para ocupar lugares distintos na sociedade. A menina aprende a reconhecer o que esperam dela, a corresponder às expectativas dos adultos e a encontrar aprovação em comportamentos considerados femininos. Não nasce acreditando que a renúncia é uma virtude. Aprende.

E assim, a maior conquista de quem domina não é conseguir obediência, mas fazer com que o dominado tenha orgulho dela. Uma mulher que cresceu sendo admirada por não contrariar ninguém pode chegar à vida adulta associando a própria dignidade à capacidade de ceder. Não precisa que alguém lhe imponha permanentemente a renúncia. Ela mesma passa a considerá-la uma qualidade. E, quando finalmente decide contrariar as expectativas alheias, enfrenta não apenas a desaprovação dos outros, mas a sensação de estar deixando de ser uma boa pessoa.

Essa é uma das dimensões mais perversas da construção social da feminilidade; a mulher aprende a vigiar a si mesma e, muitas vezes, também passa a vigiar outras mulheres.

A filósofa Kate Manne, em Down Girl, investiga como a misoginia também funciona como um mecanismo de fiscalização das expectativas de gênero. Mulheres que deixam de oferecer a deferência, o cuidado ou a submissão socialmente esperados podem enfrentar formas específicas de reprovação.

É aqui que a discussão sobre a educação das nossas filhas encontra a política.

Governar exige capacidade de decisão, ambição, disposição para enfrentar conflitos e autoridade para contrariar interesses. Exatamente as características que determinados modelos tradicionais de feminilidade continuam tratando com desconfiança.

A questão não é afirmar que mulheres não governam porque não se consideram capazes. A sub-representação feminina tem causas institucionais concretas, entre elas as dificuldades de acesso aos recursos eleitorais, as estruturas partidárias e a violência política de gênero. Mas não podemos ignorar a dimensão cultural de uma sociedade que continua associando a masculinidade ao exercício do poder e a feminilidade à capacidade de ceder.

Chegamos às eleições de 2026 com as mulheres constituindo a maioria do eleitorado brasileiro, mas ainda ocupando uma parcela reduzida dos cargos de representação política. Discutimos cotas, financiamento eleitoral e participação feminina, mas raramente examinamos o que ensinamos às meninas sobre ambição e autoridade muito antes de elas terem idade para votar.

A discussão ganha outra dimensão diante da recuperação contemporânea de ideais tradicionais de feminilidade. Parte dos discursos conservadores que circulam nas redes sociais e no debate público recupera a figura da mulher dedicada ao marido, à maternidade e à administração doméstica, apresentando a liderança masculina e a submissão feminina como papéis complementares.

O fenômeno das chamadas tradwives é uma expressão dessa tendência. Em determinados conteúdos, a obediência ao marido aparece como uma escolha pessoal, associada à realização feminina e à preservação de valores familiares.

Não existe problema em uma mulher escolher dedicar-se à família ou organizar seu casamento de acordo com suas convicções. O problema começa quando essa escolha é apresentada como demonstração de superioridade moral e a submissão passa a ser defendida como uma qualidade essencial da feminilidade.

A contradição é evidente. Uma mulher pode utilizar sua autonomia econômica, sua influência pública e sua liberdade de expressão para defender um modelo familiar baseado na autoridade masculina. A linguagem da liberdade passa a conviver com a valorização da obediência.

E essa concepção de feminilidade não fica restrita à vida doméstica. Ela participa da maneira como reconhecemos a autoridade, avaliamos lideranças e estabelecemos expectativas sobre o lugar das mulheres na sociedade.

Não é possível discutir a presença feminina na política sem considerar as barreiras materiais e institucionais que dificultam o acesso das mulheres ao poder. Mas também precisamos examinar os valores que fazem da autoridade uma qualidade admirável nos homens e, tantas vezes, um defeito nas mulheres.

Volto, então, à Nina.

Quero que minha filha seja generosa, respeitosa e capaz de compreender os outros. Mas quero também que saiba discordar de mim, defender suas ideias, reivindicar o que considera justo e tomar decisões que não necessariamente agradarão a todos.

Não quero que confunda a capacidade de cuidar com a obrigação de se sacrificar, nem que precise escolher entre ser uma boa pessoa e exercer autoridade. E, principalmente, quero que sua ambição seja recebida com o mesmo entusiasmo com que, outro dia, elogiei sua obediência.



Os artigos de autoria dos colunistas não representam necessariamente a opinião do IREE.

Danielle Zulques

É Diretora para assuntos de política e sociedade do IREE. Advogada formada pela FAAP e pós-graduada em Ciências Políticas pela FESPSP. É Coordenadora da CAUSA - rede que conecta advogadas a mães em busca de suporte legal.

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